O Sermão da Sexagésima é uma grande obra, em vários sentidos. Além de ser uma teoria da arte da parenética, por quem entende do assunto, v...

Ritmo para o Sermão

ambiente de leitura carlos romero milton marques junior padre antonio vieira metafora metalinguagem Sermao da Sexagesima

O Sermão da Sexagésima é uma grande obra, em vários sentidos. Além de ser uma teoria da arte da parenética, por quem entende do assunto, vem de alguém que conhece a matéria por dentro, sabendo como fazer o que teoriza. Esta peça do padre Antônio Vieira nos atrai pela bela imagem que constrói de um sermão, mostrando de maneira inequívoca o seu objetivo: a repreensão dos vícios para a frutificação do bem. Trata-se, portanto, de peça doutrinária.

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O longo texto constituído de dez partes requer um estudo minucioso, que possa apresentá-lo em todos os seus detalhes a quem deseja conhecê-lo melhor. O nosso objetivo é chamar a atenção para a metáfora plástica do sermão como uma árvore (parte VI) e para as anáforas mescladas a um ritmo específico, no desenvolvimento dessa imagem.

A metáfora, como sabemos, é uma transposição de sentido. O escritor faz uma comparação entre duas coisas que, normalmente, são díspares, mas que apresentam, na sua clarividência criativa, semelhanças entre si. O termo é grego e significa “que porta a mudança”, levando em consideração que o processo de criação da imagem é, no fundo, um transporte de sentidos de uma palavra para outra.

Na composição da imagem do sermão como uma árvore, vemos como cada elemento da árvore tem sua função, mantendo-a quando o sentido é transposto como metáfora de um sermão: árvore de raízes fortes, porque fundadas no Evangelho, cujo tronco é a matéria única da pregação; seus ramos são os discursos; as folhas são os ornamentos; as varas são a repreensão dos vícios; as flores são as sentenças, e os frutos são a finalidade do sermão – Seminare semen, semear a semente, que é a palavra divina, para que ela possa multiplicar-se na boa terra dos corações humanos, frutificando, de cada uma, cem. Magnífico.

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Embora o sermão seja uma peça para a oralidade, havemos de reconhecer que ele passa por elaboração e refinamento, primeiramente na memória e, depois, na pena de Vieira, fixando-se como peça de estilo literário, embora não tenha este objetivo. A metáfora nos diz isto – a raiz, o tronco, os discursos, os ornamentos formam a sua constituição estilística; as varas, flores e frutos nos dizem do seu objetivo doutrinador, não literário, portanto.

Como sabemos e como nos diz Vieira, ao final do sermão, quando cita Paulo – “Si hominibus placerem, Christi servus non essem” (“Se eu agradasse aos homens, não seria servo de Cristo”, Gálatas, 1, 10) –, o essencial é que os ouvintes saiam descontentes de si próprios; “não que lhes pareçam bem os nossos conceitos, mas que lhes pareçam mal os seus costumes, as suas vidas, os seus passatempos, as suas ambições e, enfim, todos os seus pecados”. Para isto servem as varas. A reflexão daí proveniente pode levar à germinação de uma nova mentalidade. É onde entram os frutos.


A anáfora é utilizada tendo o ritmo como coadjuvante: repete-se uma estrutura, dá-se-lhe um ritmo e o efeito no ouvido dos circunstantes é muito maior. Pega-se o espectador duplamente pelo ouvido: ritmo com repetição da estrutura sempre no início da sentença, para consolidação de uma ideia.

"Ora vede. Uma árvore tem raízes, tem tronco, tem ramos, tem folhas, tem varas, tem flores, tem frutos"

...há de haver folhas, há de haver ramos, mas tudo nascido e fundado em um só tronco, que é só uma matéria
No processo de composição de seu sermão, além da plasticidade da metáfora, para que se possa visualizar o discurso, Vieira utiliza-se do ritmo do pentassílabo, no trecho acima em itálico, para prender o ouvinte não pela visão, mas pela escuta, como apoio para a internalização da lição apresentada. Atente-se para o versos tetrassílabos, na passagem abaixo, destacados por nós em itálico:

“De maneira que há de haver frutos, há de haver flores, há de haver varas, há de haver folhas, há de haver ramos, mas tudo nascido e fundado em um só tronco, que é só uma matéria.”

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A passagem acima é continuada por outras anáforas, desta vez em versos pentassílabos ou redondilhos menores:

Se tudo são troncos, não é sermão, é madeira. Se tudo são ramos, não é sermão, são maravalhas. Se tudo são folhas, não é sermão, são versas. Se tudo são varas, não é sermão, é feixe. Se tudo são flores, não é sermão, é ramalhete.”

Preocupado com a recepção da doutrina contra-reformista, pregada em seus sermões, Vieira sabe que uma maneira de as palavras penetrarem no íntimo de quem as ouve é através de uma musicalidade que repercuta na memória.


Milton Marques Júnior é doutor em letras, professor, escritor e membro da APL
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