O novo rejúbilo soou tão avantajado quanto o outro, e obrigava Agenor a um quase esforço de resistência para não fechar os olhos, novament...

Sarriá, funeral e confinamento (Parte Final)



O novo rejúbilo soou tão avantajado quanto o outro, e obrigava Agenor a um quase esforço de resistência para não fechar os olhos, novamente atingido pela inconveniência inesperada, profundamente desagradável, justamente num dos momentos mais pesarosos por que teve de passar na vida.

A maior parte daquele furor estrepitoso viera de lá, do miolo da cidade. Bombas de mão, e as lançadas de foguetes, atropelavam-se no céu, num minuto congestionado de tantas, e aquilo demorando, tomando ligeiro fôlego e voltando com novas cargas, de modo a não terem ainda cessado de todo quando o funcionário, que se mantivera imperturbável debaixo do bombardeio, havia já concluído o lacre da tumba.

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Talvez Teofre tenha esperado pelo momento em que as explosões foram se tornando bem mais esparsas, para só então arriscar uma explicação, Dois a zero, doutor, ele disse, quando então foram se retirando, e, nem bem tinham posto os pés fora do cemitério, escutaram um novo estertor.

E esse que pareceu ainda pior que os outros.

Novamente aquele conjunto de vozes desarticuladas soou poderoso e unívoco como se constituído do esturro de mil almas, transformado num feixe simultâneo de vozes que rapidamente intumesce no ar para logo desabar em voraz redemoinho. Uma profunda e grave inflexão de ultraje e estertor humano, tomando sumiço pelas goelas da terra.

Outra vez, a versão agônica de desgosto e mortificação sacudia a tarde pelo meio, e como das outras vezes, numa espécie de autofagia sonora, parecia ter engolido a si própria para deixar cavado aquele lastro de letargia e morte.

Voltavam a perceber, na sequência, a paisagem sufocada e numa estranha ruminação, que dali se pudesse sentir, mais que ouvir, silenciosa e demonizada feito água de cisterna de há muito tampada, e que por meses ou anos se fizera adensada e enegrecida por milhões de alevinos, continuamente supurando à superfície e tentando respirar.

O profundo lamento deixava esse fervor invisível, que exalasse a sanha dos piores presságios, e dos dias e noites sem glória dos mortalmente feridos no seu sagrado reduto de orgulho vão e alegria pífia.

O meio da tarde parecia agonizar no mudo reclame de um clã bovino inteiro sendo esfolado vivo. Aquele silêncio voltava a dominar, e aqui e ali parecia querer regurgitar de algo atravessado na garganta. Às vezes, ouvia-se como que um fervor, que recomeçasse a crescer, mas logo desabando, voltando ao anterior estado de sufoco e perplexidade.

Decididamente, não dava para saber o que acontecia. E do ponto mais alto em que se encontravam, percebia-se apenas vaga sensação de desalento, pairando como uma nuvem ruim sobre as casas que avistavam de lá. Havia qualquer coisa de funéreo ali, operando como gigantesca força de contenção sobre aqueles telhados vistos do alto, o que podia ser apenas uma impressão, já que o silêncio se mantinha.

Mas que agora parecia verboso. Correndo contra um tempo indevassável. Feito um mandamento lavrado na pedra.

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Teofre subiu na carroça e sentou-se ao lado de Zé Miguel, que agitou as rédeas e esturrou para os animais moverem-se. Eles arrancaram num trote, pegando um atalho para a volta que marginava as ruas e dava acesso mais curto ao sítio, não demorando a sumir da visão.

Agenor e a Tia Beza estavam já no carro, e ela ouviu quando ele disse, aliviando o pé depois da primeira arrancada: Vamos passar na cidade.

O carro desceu desabalado por uma rua, e aí o motorista foi vendo, de um lado e outro dela, entre xingamentos e palavrões incompreensíveis, toda aquela gente que começava a sair de dentro das casas, meninos, mocinhas, mas também adultos, saindo de casa, de casa que tinha televisão, claro, e então ele começou a diminuir a marcha, e aí foi dando até para ouvir alguma coisa do que transmitiam os aparelhos de televisão, o som alto, e, apurando o ouvido, entendeu que falava alguma coisa da Itália, que a Itália estava classificada, mas que, de repente, parou.

Alguém tinha desligado aquela televisão. Mais na frente, a mesma coisa. Continuou vendo pessoas acabadas de sair, e entre elas as que choravam e outras que davam voltas sobre si mesmas, sem se resolver a nada, e outras que apenas se prostravam ou sentavam na calçada, apáticas. É possível dizer que buscassem para si, quase desesperadamente, algum momento de evasão. As atitudes eram de completa exaustão.

Tia Beza mantinha-se calada, olhando pela janela do carro. Olhos inchados e vermelhos, ainda assim expressava seu estranhamento. Por alguma razão, em algum momento o ambiente do qual aquelas pessoas saíam se tornara sufocante, qualquer um podia ver que fugiam como de ambiente empestado. Lembravam baratas tontas saindo de um ralo tóxico, buscando um ar de vida.

Num primeiro momento pensou-se (e não tinha como ser diferente) que aquelas mesmas pessoas tivessem corrompido o ambiente das salas, no qual, até aquele momento, estiveram socadas. Era um número bastante razoável de pessoas para casinhas humildes daquelas, na verdade uma grande quantidade de gente agrupara-se daquele jeito dentro de casinhas conjugadas umas às outras, mas o que podiam esperar, além de provocar à si canseira de pulmões, transudares diversos, incontinência de gases nefandos?

Fosse como fosse, o fato é que tinham sido atraídas feito besouros para algum aparelho de televisão no meio da sala daquelas casas, para jogo da Copa do Mundo. O pai havia dito, Fuja dessa gente, filho, matam e morrem por um jogo de bola. Mas, num momento como aquele, Agenor tinha porque tinha que saber, e por isso foi parando o carro. Ei, menino.

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O garoto não esperou qualquer pergunta, foi gritando para os que estavam no carro, Paulo Rossi fez o terceiro, o Brasil está fora da Copa. Falava espantado, talvez com descobrir-se subitamente de utilidade pública, desempenhando-se bem - e apenas na aparência ao seu próprio talante - nessa inesperada responsabilidade cívica de passar adiante uma desgraça popular, complementando informações com a mais urgente e necessária rapidez que um pequeno estafeta feito ele precisa imprimir aos dados de uma hecatombe.

Alardeava que alguém tinha perdido a bola na entrada da área, disse, que o tal Rossi fizera os três gols. Praguejou contra um jogador brasileiro. cuja falha, segundo ele, causara a derrota do time, no que parecia então tomado de puro ódio, e quando esvaziou o pequeno estoque de notícias, calou-se, como se acabado de engolir um sapo (feito os antigos guias mirins do patrimônio histórico de Olinda, depois que esvaziavam seu repertório), enquanto com seus grandes olhos continuou a inquirir esse do carro, por trás do vidro do carro, estudando-o detidamente, esperando talvez surpreender, nesse, algum vestígio dos efeitos provocados pela informação que dera.

Mas tudo que viu foi aquele braço sair por cima da abertura do vidro do carro e esticar- se em sua direção. O garoto viu a mão e aqueles dois dedos compridos, com a cédula saindo do meio deles, dobrada ao longo, feito um dardo.

Em seguida o carro arrancou, procurando agora o sentido da estrada que leva ao sítio.

Então aquele jogo tinha sido três a dois para a Itália. Aquilo explicava - queria explicar - o clima de tragédia pairando pela rua. Clima de grande consternação. De enterro. Isso. Tinham deixado o enterro de seu pai por aquele. Queriam ganhar a Copa e por isso ninguém foi se lembrar do quão seria justo, relevante, importante mesmo, fazer uma última homenagem ao homem bom e decente que ele fora durante uma vida inteira, e até o que se disse seu amigo não botou as caras nem no velório, e certamente ficou para vibrar com o enterro da bola.

E justo na hora do sepultamento, aqueles malditos foguetões. Provavelmente alguns dos que se diziam amigos seus, lá do fórum, tinham disparado bombas para o ar enquanto o corpo de seu velho pai descia à sepultura. Ninguém ali quis saber da figura que se ia, e que se estava perdendo. Saber, apenas de ganhar. Somente que faltava.

Escreva o que lhe digo, A tia Beza veio dizendo na volta, Amanhã vão estar botando a culpa em nós que inventamos de enterrar seu pai numa hora de jogo, Disse, Ninguém vai querer se lembrar de que a gente não escolhe a hora da morte, dirá do enterro. Você se prepara, disse, amanhã logo cedo vai aparecer gente lá no fórum, com desculpas pra você. Pode se preparar.


Alberto Lacet é artista plástico e escritor
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  1. Excelente desfecho. A riqueza literária, repleta de imagens e significados, nos prende fortemente à leitura dos escritos de Alberto Lacet.

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