Pousada no píncaro da torre da Igreja do Carmo uma pombinha mesclada em branco e cinza. Animada em saracotear as penas, beliscando-s...

Meiga ameaça

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Pousada no píncaro da torre da Igreja do Carmo uma pombinha mesclada em branco e cinza. Animada em saracotear as penas, beliscando-se, o sol aprazível numa tarde calorenta, bonita. No chão muitas delas com aqueles passos elegantes, comendo farelo e restos de comida. Sempre pessoas espalham o alimento para as avezinhas ternas.

Conheci um senhor que, antes de entrar no templo para saudar o sagrado, abria um pacote, distribuía petiscos e elas começavam a se achegar. Em breve, o banquete estava feito, uma festa de arrulhos e bicadas.
Ainda hoje é assim. As paredes seculares do edifício consagrado a Maria, mãe dos Carmelitas, borradas pelas titicas que elas deixam, desde a torre até o chão. Imaginem que muitas voejam, com intimidade, dentro da igreja, fazendo turismo pelos altares. Até no altar-mor onde habita a imagem histórica da Nossa Senhora do Carmo. Havia uma, sem qualquer respeito, pousada na cocuruta de Jesus.

Quando menino, criávamos alguns pombinhos, nós, crianças, passávamos as mãos sobre a lisa penugem aveludada. Eram macias, bonitas, subiam e voavam para os galhos das goiabeiras, aborreciam o vizinho, um agiota que morava ao lado. Saiu de sua curtição de alcoólatra e gritou para escutarmos a sentença de morte das mimosas aves: “Vou matá-las com meu parabélum trinta e oito!” Fala de bêbedo.

Alguns asseguravam que pombo transmite uma infinidade de doenças. Tal advertência não mexeu com ninguém da casa: éramos curtidores incuráveis dos pombinhos. Ao anoitecer, se recolhiam ao pombal. Gostávamos de escutar os corrupios emitidos por elas enquanto se arrumavam para a dormida.

Voltemos à igreja. Muita gente já está reprovando a presença dos pombinhos: sujam o ambiente com as fezes corrosivas, dilapidam as paredes, nocivas à saúde, poleiro de germes, etc. Embora jamais aparentem ser tão perigosas, continuam sob a admiração de uns e reprovação de outros.

Estariam pensando em deportá-las para o pátio da Catedral de São Marcos, em Veneza?...


José Leite Guerra é bacharel em direito, poeta e cronista
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  1. Bravo.. José Leite Guerra..muito bem abordado o tema dos pombinhos.
    Parabéns!!!
    Paulo Roberto Rocha

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  2. A última vez que vi algo com os pombos simbolizando nossas almas foi na magnífica cena do filme Blade Runner, o do Ridley Scott, em que o androide, com seu prazo de validade vencido, diz - com uma pomba nos braços - que é hora de morrer, baixa a cabeça, no que expira, e ela se solta e voa pro céu.
    https://www.youtube.com/watch?v=ZVD28yXOZtE

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