Há quem pense na Ilíada e na Odisseia apenas como poemas épicos, a enfocar as façanhas de Aquiles e dos Argivos, ou a mirabolante viagem ...

As lições de Homero

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Há quem pense na Ilíada e na Odisseia apenas como poemas épicos, a enfocar as façanhas de Aquiles e dos Argivos, ou a mirabolante viagem de Odisseu. Não resta dúvida de que essas narrativas seminais do mundo ocidental são grandes épicos. Mas se fossem apenas poemas destinados à exaltação dos feitos heroicos, teriam sido esquecidos, mortos no seu tempo. Ninguém mais falaria deles, até porque a Tragédia deu outro encaminhamento ao literário, a partir do século V a.C. Não esqueçamos, no entanto, que sem o épico não existiria o trágico, nem existiria o primeiro texto sistematizado sobre os gêneros literários – a Poética, de Aristóteles.

Esses poemas sobreviveram porque vão além do que propõe a sua leitura horizontal. Eles falam do homem e de suas dificuldades para construir um caminho próprio. Sem honra, não há porque lutar, eis o que nos diz Aquiles. De que adianta a imortalidade junto a uma divindade, longe de qualquer perturbação da civilização, se há um filho a educar e uma casa para gerenciar? Esta é a lição que nos dá Odisseu. Em ambos os casos, os heróis revelam estar às voltas com os mesmos problemas que afligem os meros mortais como nós, apesar da proteção divina que os cerca.

Quando Odisseu tem a permissão de deixar a ilha de Ogígia, onde vive no exílio dourado de uma primavera abundante e eterna, que lhe impõe a bela Calipso, a mensagem enviada pelos deuses é clara e ratificada pela bela ninfa: ele próprio terá de construir sua embarcação, desde o corte da madeira, ao fabricar e coser a vela, devendo orientar-se pelas estrelas. Odisseu sabe onde está – Ogígia, ilha desgarrada nas terras ocidentais, longe da civilização, como sabemos – e sabe para onde vai – Ítaca, ilha no oriente, com relação a Ogígia, de que ele é o rei e onde se encontram sua mulher, seu filho e seu velho pai.

O trajeto entre um lugar e outro se fará tomando como guia as constelações: manter à esquerda, a Ursa ou Carro, que se encontra ao norte, e com o sentido voltado para a constelação de Órion, que se encontra à sua frente, portanto a leste. É ele, Odisseu, que terá de fazer o seu próprio caminho, aplainando e arando a vasta planície do mar, que de ordinário se encapela. Ninguém o fará por ele. Ninguém poderá, sobretudo, fazer por ele. Nem os deuses. O meio da existência, entre o nascer e o morrer, deverá ser construído por quem está na existência. Eis a lição. E se trata de uma lição árdua. Ainda que saibamos de onde partimos e aonde queremos chegar, o caminho não é trilhado do mesmo por todos, configurando-se uma construção individual.

Ao que parece, vivemos atualmente sem querer fazer o caminho que nos foi destinado, esperando que alguém faça por nós – os pais, deus, o governo, este, às vezes, visto como grande pai, nunca passando, contudo, de mau padrasto. Afogados em lamentações, esquecemos que somos nós que devemos caminhar, percorrer a nossa existência, dando um sentido à nossa vida. Muitos veem esse percurso como um sacrifício, compreendendo mal o sentido dessa palavra. Sim, é um sacrifício, mas essa palavra significa, antes de uma entrega sem sentido para a morte, um construir para a vida. Sacrifício é literalmente “fazer o sagrado, tornar algo sagrado” (sacer, facio) e o sagrado é o que vem a ser intocável, porque pertencente ao divino e nada há mais divino do que a vida. Construir o caminho, enfrentar as dificuldades, superar as adversidades, sair da rota para encontrar-se, enfrentar o sacrifício de viver, isto é o que nos faz divinos. Permanecer longe das dificuldades da civilização nossa coetânea, nada nos acrescenta, a não ser tédio. Odisseu tinha razão ao rejeitar a imortalidade se o preço era viver sem os desafios que nos fazem crescer. Por outro lado, Eça de Queirós apreendeu bem o sentido da lição que nos dá Homero, tecendo o belo conto que se chama A Perfeição.

Percorramos, um a um e dia a dia, nosso caminho. Terminaremos por nos encontrar, porque jogar-se na vida é ir ao encontro das delícias das coisas imperfeitas, como disse o mestre português de A ilustre casa de Ramires. A vida só é perfeita quando encaramos a sua imperfeição.

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  1. Parabéns meu caro Milton..fico com seu prólogo!!!.. ""A vida só é perfeita quando encaramos as suas imperfeições""...
    Mas seu texto é um "Todo brilhante"...evocando informações épicas!!
    Parabéns..enfático !!!
    Paulo Roberto Rocha

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