Talvez não haja outra explicação para essa sobrevida literária que, bem ou mal, Edilson Limeira vem alcançando no tempo: à medid...

O Retoque (Parte 2)

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Talvez não haja outra explicação para essa sobrevida literária que, bem ou mal, Edilson Limeira vem alcançando no tempo: à medida que mais pessoas o liam, certas características suas de estilo se foram aos poucos aclarando, e, dentre tais, já é possível prever, com um mínimo de certeza, que a agilidade ainda vá ser aclamada como um de seus atributos mais notáveis, uma qualidade por si já evidente, e supostamente capaz de amordaçar possíveis detratores.

Seu texto é de fato conciso, burilado, apesar dos malabares da trama — caminhando quase sempre para a armadilha final que a personagem principal, traiçoeiramente, preparou (em alguns casos durante a vida inteira) para si mesma.

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A despeito disso, um recurso estilístico seu — uma manha de escritor — tem passado despercebido pelos acadêmicos de plantão, e longe está de ser detectado por aquele editor de cultas pretensões: trata-se da constante presença em seu texto dos adversativos porém, embora e no entanto — e também de um eventual a despeito disso, claro.

Ressalvas que, na verdade, parecem servir a uma técnica pela qual Ed Limeira acaba, praticamente duplicando suas narrativas, e que não o deixarão de levar por nova contramão das tendências editoriais do momento, já que o posicionam para longe do thriller de ação, o que, no entanto, ele consegue fazer sem afugentar — e isto talvez seja o seu melhor — certo clima de tensão presente na obra.

Mordaz — às vezes, mórbido —, e na sequência de um daqueles Apesares, é comum que Edilson Limeira chute (discretamente chute) o pau da barraca, logo após o movimento ascensional de um ou dois parágrafos laudatórios. De modo contrário, com uma simples e geralmente despretensiosa observação, foca num semiobscurecido personagem, e, levantando a partir dali novas considerações e possibilidades, o redime, empresta-lhe (ou lhe devolve) capacidade de ainda surpreender positivamente nos escaninhos da trama.

Talvez não haja aí qualquer intuito seu em pregar peças no leitor, e esteja, com isto, apenas vistoriando certos limites da linguagem, que criada não foi para expressar dualidades da vida no mesmo espaço-tempo da escrita concernente a um único personagem, muito embora Edilson force a barra ao forjar esse estilo um tanto pisca-pisca de luz e sombra. Quem sabe, não tenhamos aí um eco longínquo do método dialético, brotando instintivo num escritor autoconfessadamente desprovido de gosto pela Filosofia?

Uma consequência é que, no curso da narrativa, dificilmente vem o leitor a frustrar-se (ou a se realizar) em suas preferências, mesmo que um tanto desnorteado (?) pelo balanço de tantos juízos e valores pendulares. Por outro lado, é inevitável que a forte insistência temática crie seus condicionantes. Uma das teses preferidas por aquele Coriolano Torquato Lins é que produções monotemáticas costumem estabelecer para o leitor um tipo de expectativa padrão em relação às mesmas, e, sirvam, quando nada para afastar alternativas falsas. À primeira vista, parece verdadeiro. Tome-se um exemplo no caso em foco: leitor mais assíduo aprende a sempre descartar final feliz em conto de Limeira.

Sem ser pessimista ou otimista, sua narrativa se sustenta no impiedoso fio de realidade que a passagem inapelável do tempo cirze na trama da vida de seus personagens. Com naturalidade, perícia, introduz em seus contos uma parte da agrura existencial profunda e pertinente a cada um de nós. Na obra dele, Eros inicia o alegre movimento da gangorra, mas ao final, a última palavra sai mesmo da boca de Tanatos.

Um tempo depois de lidas, certas passagens que narra parecem ter esse poder de evocar imagens na mente do leitor. Uma dessas imagens (bem pouco exemplares, por sinal) é a das magras garotas adolescentes abordando passantes às margens do rio Capibaribe, próximo ao edifício da Alfândega — imagens pertencentes ao passado, mas, ao que parece, ainda bastante vívidas na imaginação e memória irremediavelmente compro- metidas desse escritor.

O velho enamorado nunca fez questão de esconder a atração irresistível que sentira um dia por uma daquelas antigas ‘periguetes’, do tempo ainda da ditadura militar. É possível que comece o conto destacando alguma particularidade fisionômica, e/ou psicológica, de sua favorita, antes de recriar o clima tenso de aventura e sedução — narrado preferencialmente em primeira pessoa —, e que, tantas vezes, numa atração irresistível por horário e cenário lúgubres, o arrastará ao obscuro encontro na ponte, onde mal poderá esquadrinhar o objeto de seu desejo através da luz amarelada e bruxa que sobe do rio, aparentemente extático feito gigantesca jiboia adormecida, mas cujo espelho refletor (reconhece ele em uma curiosa passagem) vem tornar mais eficiente aquela fonte mortiça — pastosamente Van Goghiana — a emanar dos postes.

Nunca se esquece de descrever a morfologia sinistra dessas noites exalantes a temores e maus presságios, embora nunca suficientemente fortes para afastar do local tanto tesão de juventude, por mais que o momento de idílio (não se sabe bem o motivo da recorrência) acabe quase sempre se frustrando devido à hostil bisbilhotice de algum guarda surgido do nada, ou pela algazarra de estudantes que o azar faz com que passem por lá, feito nuvem de zangões bêbados, na hora mais inconveniente.

Elementos corriqueiros de uma ficção aparentemente movida por fome de sexo? Outro exemplo é a história que se inicia com a lembrança dessa paixão recolhida e que esteve sempre — para o então estudante recém-saído da adolescência —, muito além de suas possibilidades.

O leitor é então informado da existência de Glória, mítica garçonete cuja beleza opulenta supera em atrativos o cardápio da lanchonete onde trabalha, próximo à Casa do Estudante – bem ou mal, endereço onde o autor-personagem detém concessão para diariamente fazer ranger a dois tornos de rede.

Mas a passagem do tempo, feito um desses furacões do Caribe, não tardará a varrer sentimentos, pessoas e paisagem. Razão de sobra para um copioso lamento da parte do estudante, sempre que passe pelo antigo lugar da lanchonete, já demolido e ora transformado em uma revenda de automóveis. A esta altura, porém, quando a bela garçonete é apenas um fragmento de sonho se esvaindo da memória, dá-se a reviravolta.

Eis que a vida se encarrega de repor seu viés novelesco: um belo dia, o estudante se depara com ela na porta do elevador seu de cada dia, no edifício Holiday (já então em vias de se tornar o primeiro cortiço modernista do país), onde morava. Sucede que, há mais tempo que ele, a alguns andares acima do seu, a bela Glória fixara residência ali.

Cuidara porém o tempo de se fazer sentir nesses quatro, cinco anos, sem vê-la, e o estudante não pôde deixar de percebê-la ligeiramente mais corpulenta, curvas um tanto mais pronunciadas, carnes mais repousadas, acrescidas porém da mesma mansuetude de gestos e olhar.

Transido pela surpresa, perdidamente embevecido, escuta Glória falar de um amor prematuro e seu desenlace traumático. Mas, para o estudante prestes ali a concluir seu curso, o que importava de fato era tê-la ali, inteiriça ainda, livre do tal amante, e — o mais importante —, ao alcance da mão.

Um verdadeiro fetiche irrompera, surgido feito inesperada dádiva do passado... na forma de uma vultuosa promessa que, inesperadamente, ficou palpável. Mas... como viera Glória viver em tal ambiente?

Num dos alvéolos da grande colmeia arquitetônica (à esta altura começando a ser habitada em sua maioria por marujos, prostitutas, estudantes, etc.) um artista — já então de certa fama — havia montado ateliê.

Não fazia muito tempo, tinha ele deixado para sempre o antigo estúdio, numa água-furtada da Avenue du Maine, Paris, para onde se movera nos tempos de juventude, e agora, septuagenário, estava de volta e insistia na manutenção deste que seria seu último espaço de trabalho na vida. Apaixonado por sinuosidades, pelas ondulações nem sempre muito suaves da matéria, pusera os olhos em Glória e a convidara para posar.

Só que a idade avançada não o impede de se apaixonar pela mulher, cujas curvas podem até lhe ter parecido um ambulante tratado estético de sua própria pintura, e acaba convencendo-a a morar com ele. A exuberante ex-garçonete vai ser agora responsável pela extraordinária série de ereções de que passa a sofrer o artista macróbio, a intervalos de tempo nada recomendáveis para uma saúde já claudicante. Mortem meam futura sit causa[1], e essa paixão temporã culminará num ataque cardíaco em pleno ato sexual.

Um saldo de quadros distribuídos por cantos e paredes do apartamento, acarreta inevitável disputa com o marchand que, ultimamente, bancava o artista, resultando em impasse legal para Glória. Enquanto isto, para o estudante, uma inesperada e grandíssima dor de cabeça com o inesperado reencontro, era tudo o que o aguardava...

Mas foi justamente a falta de elementos assim naquele conto que chamou a atenção do supostamente zeloso editor.

Concluída a varredura nos originais, e sem qualquer cerimônia, Coriolano Torquato Lins apoltronou-se melhor na Giroflex, retirou os grampos do calhamaço e separou dos outros aquele conto magrinho. Em seguida (e depois que acabou de expelir — sobre a mão com que amassava minuciosamente a guimba no cinzeiro — um fino e longo tubo de fumaça da última tragada, fazendo isto enquanto mantinha os olhos abertos à frente, fixos e como que abstraídos do local), encarou Edilson, e confirmou Olha, os outros seguem a linha.

É bem possível que, naquele momento, Edilson — bem ao seu jeito — se sentisse confinado à condição habitual de mero figurante na conversa, disposto a apenas ouvir, sem replicar. Havia concluído o sexto livro de contos e tinha pago do próprio bolso cada edição publicada nos últimos 10 anos. Já havia dito em uma conversa reservada que, para ele, muito pouco fazia seu editor, além de atravessar a relação mais do que essencial entre escritor e gráfica, e — claro —, emprestar o nome da editora à capa do livro.

Mas não disse se considerava aporrinhação, ou gozo ín- timo, ouvi-lo destilar um know-how editorial que, para lá de discutível, carecia de comprovação quanto a possível efeito prático no destino das edições. Mas disse, noutra ocasião, que se submeter às suas falas, simplesmente era parte do jogo. Jogo, que jogo? Por seu lado, Cori não desconhecia o fato de Edilson Limeira ter já amealhado certo público. Pequeno, mas fiel. Pelo menos, suficientemente capaz de garantir os custos de cada nova publicação, o que, por si, lhe bastava para esmerar-se em considerações sobre a produção literária daquele. Mas não custa lembrar: nem sempre fora assim.

Edilson Limeira escrevia há tempos, bem antes de conhecer Torquato Lins. Com seu silêncio obstinado, sua proverbial inação para outra coisa que não fosse escrever e escrever, que não se estranhe tenha ficado por tanto tempo incógnito, ignorado de público e de resenhistas, e que só muito recentemente uma luz menos bruxuleante que aquela inundando o rio tresmalhado de lodo (cenário de predileção), tenha chamado a atenção para seus escritos.

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Tempos houve, portanto, em que sequer suspeitara Torquato Lins da existência do escritor que — são os alvores da lenda —, vagara feito zumbi pelas ruas do bairro antigo.

Alguém o vira voltando aos mesmos lugares que, num passado ainda mais distante, tinham-no já atraído com sua oferta amorosa de ocasião e preço — a velha zona franca do sexo livre de peias e cobranças posteriores —, e por onde sua sombra um dia se deixara arrastar pelo carnal desejo.

Desta feita, porém, refazia ele os passos no afã completamente outro, esse, o de apenas tirar do letargo seu velho acervo de memórias (esparramadas por docas abandonadas, minaretes de sinagoga em ruínas, antros febris improvisados entre antigos arcos e torres monásticas) —, algo símbolos de seu passado dissoluto –,e trazê-lo para o mundo descarnado e (frequentemente) apaziguado da Literatura. Quanto ao editor, começara umas quatro décadas atrás, vivendo um momento especialmente fervilhante desse que sempre foi seu mundo de pequenos negócios editoriais. Começou livreiro, e através de algumas iniciativas pioneiras (numa delas chega a manter um violão de qualidade na livraria, para uso de artistas populares, como Alceu Valença, Kátia de França, etc. — quer se encontrem em visita ao local ou se façam presentes ao lançamento de livros), alcançou certa notoriedade.

Com o passar do tempo – e um tanto mais de ousadia, mais uma pitada de idealismo, mais a generosa dose de disposição da juventude –, acabou cavando, dentro do seleto grupo de editores locais, um espaço para seu nome (pomposamente soletrado no dia a dia pelos conhecidos, sendo bastante comum na ex-Capital do açúcar que o duplo sobrenome, uma vez aplicado com regularidade, vaporize no eleito vaga distinção nobiliárquica. Sugira nele uma possível — embora quase sempre nebulosa — ascendência na antiga aristocracia canavieiro-escravocrata).

Mas, por aqueles dias, e para variar, o destino marchava, e em breve Coriolano Torquato Lins seria apresentado a ele. A maneira como isto se deu é que foi intempestiva, talvez vexatória, além de deslocada 3.000 quilômetros do ponto mais provável.

NOTAS DO AUTOR[1] Mortem meam futura sit causa: Ainda morro disso (trad. livre);
[2] Teixeirês: suposta linguagem popular dos habitantes de Teixeira/PB, terra natal do autor.
Vivia-se então a plena euforia dos Festivais Literários, e Torquato Lins se abalara do Recife e fora conhecer o FLIP, de Parati. Ali, numa conversa casual de barzinho, próximo ao Largo da Matriz, travou animado diálogo com um jovem aficionado que se disse editor alternativo, em busca de talentos fora das grandes editoras e dos circuitos de distribuição. Chegava ele a quase brandir um invisível catálogo. Gabava-se pela publicação de uma coletânea de contos com escritores por ele garimpados — garantiu — em andanças pelos rincões.

Mas o que ele não tinha como saber é que Cori se deixara atrair para o local — entre outras coisas —, pela excelente reputação da caipirinha ali servida, a qual aprovara sem restrições, de modo que ia no terceiro ou quarto copo escutando o moço falar de sua busca por novíssimos talentos, quando, a certa altura, esbanjando ar discretamente zombeteiro que já traduzia o relaxamento obtido dos primeiros goles, fez a pergunta inevitável Encontrou algum?

A resposta não podia ser em melhor “teixeirês”[2] É o pau que mais tem.

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  1. Texto de uma cadência e sensibilidade ímpar, onde o autor se consagra como Mestre inconteste da arte de narrar. Parabéns!

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