Ao ler o mais recente e belo texto de Germano Romero, “ Uma vida de herói ”, eu senti um estalo na memória. Quando eu vi a estrutura do po...

A Eneida e o poema sinfônico de Strauss

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Ao ler o mais recente e belo texto de Germano Romero, “Uma vida de herói”, eu senti um estalo na memória. Quando eu vi a estrutura do poema sinfônico de Richard Strauss, que Germano descreveu, Mnemosine, a deusa da memória e mãe das Musas, veio em meu auxílio e, de imediato, a minha mente só chamava para a Eneida de Virgílio:
I - O herói (Der Held) II - Os adversários do herói (Des Helden Widersacher) III - A companheira (Des Helden Gefährtin) IV - As batalhas (Des Helden Walstatt) V - As obras de paz do herói (Des Helden Friedenswerke) VI - Saída do mundo, consumação e transcendência (Des Helden Weltflucht und Vollendung)

Explico-me. É impossível ler a crônica poético-musical de Germano Romero e não associar ao poema épico de Virgílio. Era como se cada palavra dita, correspondesse, na sua essência, à narrativa da Eneida.

Senão, vejamos: o herói Eneias é apresentado, desde o Livro I da Eneida, embora só venhamos a saber os detalhes de sua origem, de sua viagem e o porquê de ele ter sido escolhido pelos deuses, para ser o herói da nação troiana, no Livro II. Eneias, filho de Vênus, é um predestinado ao heroísmo e deve fugir, para fundar uma nova Troia, pois a sua Troia foi destruída pelos gregos. Assim, decidiram os deuses súperos (I. O herói – Der Held).

Para que Eneias cumpra a sua missão e possa realmente ser merecedor da condição de herói assinalado pelos deuses, ele precisa enfrentar muitas adversidades e, claro, adversários, na sua complexa viagem, terra marique, por terra e por mar, à nova Troia, que de verá ser fundada no Lácio, na península Itálica, berço da futura Roma. Ele é que assentará as bases dessa gloriosa cidade, destinada a ser a Caput Mundi, a Cabeça do Mundo. Os adversários iniciais são tanto os gregos, que invadem Troia e a destroem, quanto monstros, como o ciclope Polifemo, as Harpias voadoras, além de pestes, naufrágios, errâncias e más interpretações dos oráculos para que ele encontre o caminho assegurado pelos deuses. Até a própria Juno, a deusa-mãe, o persegue, por razões que estão além da alçada de Eneias, como o julgamento de Páris e o rapto de Ganimedes, troianos, como Eneias, que a ofenderam (II. Os adversários do herói – Des Helden Widersacher).

No Lácio, Eneias vai encontrar a companheira também destinada pelos deuses. Trata-se de Lavínia, a filha do rei Latino, com quem o herói há de casar. Mas não pensemos que o casamento será sem dificuldades, tendo em vista que o herói vai ter que enfrentar novas adversidades para a conquista de Lavínia. A terra fundada será chamada de reino Lavínio, em homenagem à esposa. Fica claro, portanto, que à conquista da mulher, precede a conquista da terra (III. A companheira – Des Helden Gefährtin).

As novas adversidades, pois um herói não é só afeito às adversidades, como também elas nunca acabam, apenas mudam o seu grau de dificuldade, serão as batalhas desenroladas no Lácio, para a conquista da terra; batalhas que ocupam um terço da narrativa, do Livro IX ao XII da Eneida. Destaque-se, principalmente, batalhas contra os Rútulos do rei Turno, o principal oponente do herói, pois Lavínia já estivera prometida a ele, antes da chegada de Eneias. Como já dissemos, conquistar a terra é conquistar a mulher (IV. As batalhas – Des Helden Walstatt).

O auge dessas batalhas é o combate singular entre Eneias e Turno, culminando com a morte deste último. Como a Eneida é um poema inacabado, o poema se fecha abruptamente com a morte de Turno. Virgílio, acometido por uma doença, na volta da Grécia para Roma, morre em Brundisium, atual Bríndisi, em 19 a. C., após dez anos de trabalho no poema, que começou com um pedido pessoal de Otávio César Augusto. Após a sua morte, Augusto designa os poetas Tucca e Varius, para editar o poema como ele se encontra, com cerca de 50 versos hexâmetros inacabados e sem o epílogo, característico dos poemas épicos.

Diante da morte prematura de Virgílio e da edição póstuma do poema, em 17 a. C., preservado como o poeta o deixou, não vemos a construção da nova Troia, o novo reino tão sublimado, que levará o nome de Lavínio, nem as obras de paz do herói. Estas viriam, consequentemente, vez que Eneias é o modelo do rei indo-europeu, em suas três fases de rei-guerreiro, rei-sacerdote e rei-empreendedor. Infelizmente, a parte que seria para celebrar os empreendimentos que levam ao progresso e à paz, como um tributo a Augusto e a sua decantada Pax Romana, não se encontra no poema (V. As obras de paz do herói – Des Helden Friedenswerke).

Do mesmo modo, não veremos a transcendência do herói, mas a tradição nos diz e isto é, de certo modo, antecipado no Livro I da Eneida, quando da profecia de Júpiter a Vênus. Eneias, depois de fundada a nova Troia, reinará por três anos, sendo arrebatado pelos deuses, num fenômeno que se chama de apoteose (ἀποθέωσις), saindo do mundo, transcendendo a matéria, para ir viver junto aos deuses, porque soube conquistar o status de herói que lhe foi conferido (VI. Saída do mundo, consumação e transcendência – Des Helden Weltflucht und Vollendung).

Em linhas gerais, podemos constatar como a estrutura de Richard Strauss para o seu poema sinfônico “Uma vida de herói” se aplica, na sua essência, ao poema épico e, mais estritamente, ao épico de Virgílio, com a tessitura de uma narrativa heroica. Não esqueçamos, ainda, de um detalhe: apesar de não ser um poema sinfônico, a Eneida, como os demais poemas, sobretudo, os épicos, foi feita para ser cantada, não para ser contada, acompanhada de instrumentos de percussão como a lira e o tambor, no ritmo do verso hexâmetro dactílico, com os seus seis pés bem marcados.

Tinha razão Gérard Genette, em dizer que a literatura é um sistema de vasos comunicantes. Vou mais além: a arte é um sistema de vasos comunicantes, estendendo a sua capilaridade ilimitada e instigando que se escreva sobre ela e se escreva sobre o que se escreveu sobre ela ad infinitum.


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  1. SALVE 👏👏👏👏
    Milton Marques Junior !!!
    Parabéns pelo belíssimo texto/aula!!
    Paulo Roberto Rocha

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  2. Obrigado, meu amigo Paulo Roberto Rocha! Grande abraço!

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