Augusto dos Anjos notabilizou-se por tematizar a morte e a melancolia, registrando em suas imagens, vazadas num vocabulário áspero e diss...

Augusto dos Anjos e o Nonevar

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Augusto dos Anjos notabilizou-se por tematizar a morte e a melancolia, registrando em suas imagens, vazadas num vocabulário áspero e dissonante, o universo da doença e da putrefação. O poeta firmou-se no imaginário de seus críticos e leitores como um homem essencialmente triste, mesmo doente, para quem “a alegria é uma doença e a tristeza a (sua) única saúde.”.

Mas ele não é apenas isso. O historiador Humberto Nóbrega foi o primeiro a chamar a atenção para o “outro lado” do poeta, representado basicamente pelos poemas, sonetos e quadras que ele publicou no jornalzinho paraibano Nonevar,
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que circulava nas noites de festa dedicadas a Nossa Senhora das Neves, padroeira da cidade.

Os versos que aparecem nas edições do Nonevar foram compostos com a mesma disposição frívola com que se participa de eventos mundanos. Ou, se ditados por algum tipo de necessidade, terá sido uma necessidade bem diversa da que preside, ou determina, a criação propriamente literária. É curioso, quanto a esse ponto, ler a carta que Augusto dirige à sua mãe, em 25 de julho de 1907. A certa altura, ele pede permissão para continuar na província por mais alguns dias, uma vez que foi “... convidado para constituir uma das principais partes colaboradoras de um jornalzinho elegante que se propõe a ser a delícia espiritual do novenário festivo.” A seguir, faz a honesta ressalva de que esse jornal, “através do pretexto literário que o recomenda, esconde intuitos puramente financeiros.” Mas também reconhece com pragmatismo que, após os festejos, em razão mesmo desses intuitos, “(poderá) recolher às (suas) arcas particulares de bacharel necessitado alguma pecúnia consoladora.”.

Mesmo destoando do conjunto da obra, compostos sem maiores pretensões e, sem nenhuma dúvida, apresentando menor valor estético, os versos dados a público no Nonevar têm particularidades que interessam a quem estuda a poesia de Augusto dos Anjos. Além de revelarem penetração e originalidade, testemunham quanto certas ideias ou imagens lhe obsediam a consciência. É como se o autor variasse de tema, ou mais propriamente de contexto, voltando-se para o lado superficial da vida – mas preservasse, com voluntária “inadequação”, vocábulos, imagens e construções que lhe serviram para expressar o amargor, a melancolia, a intensidade da sua angústia ética e existencial.

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No poema com que abre o Nonevar de 1908, o poeta parece destacar o propósito humorístico de tais composições: “...sou Rabelais que ri/ E arrebenta com o riso a máscara malvada/ com que Deus achincalha a geração inchada/ Dos que trazem no sangue a herança de algum mal.” Note-se que nesses versos, tanto pelo vocabulário quanto pelo núcelo ideativo, parecem fundir-se passagens, respectivamente, de “Os doentes” e de “As cismas do Destino”.

É nos perfis de amigos, políticos ou demais personalidades da província que melhor se percebe a nota de humor. Com intuito satírico e caricatural, Augusto compõe sonetos e sobretudo quadras – sendo essas, pela estrutura e pela concisão, exemplos de epigramas.

Enquanto observador de tipos e costumes, uma das melhores colaborações de Augusto para o Nonevar é, sem nenhuma dúvida, o retrato que ele faz de Manoel Tavares Cavalcanti, com o qual inicia a série dos Smarts. Eis o texto:

Smarts
Dilui-se em vários círculos de agrado Este que, oferecendo um chapéu novo, Dá à vista curiosíssima do povo O aspecto de um reclame vertebrado. Tem a aparência elipsoidal de um ovo, Bebe champagne num cíato dourado! Contra o seu carioquismo requintado Versos epigramáticos não movo. A idolatria ideal das moças goza, Este miniaturesco Rui Barbosa Que anda fazendo eternamente roda. Mas, mostrando-se sempre economista, Prefere à propaganda civilista A propaganda dos chapéus da moda.

Nesse perfil, a agudeza da observação se conjuga à imaginação verbal, em função do que a imagem do dândi se recorta vívida, perceptível em sua dimensão de caricatura. Augusto não caracteriza genericamente um personagem da belle époque provinciana e brasileira. Também não o identifica, a ele que “prefere à propaganda civilista/ A propaganda dos chapéus da moda”, somente pela alienação política e social.

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Destacando-lhe a vaidade e a ostentação – mas também caracterizando-o fisicamente por meio de comparações caricatas e “preciosas” – ele nos esboça concretamente a sua figura, que resume na curiosa imagem de um “reclame vertebrado”.

Se a produção do poeta que saiu no Nonevar pouco acrescenta à sua obra dita “séria”, ela se constitui, todavia, num exercício não desprezível de intratextualidade, mediante o qual o poeta, consciente e inconscientemente, reafirma temas obsessivos, escolhas vocabulares, estruturais, e procedimentos retórico-estilísticos. Constitui-se ainda no testemunho de outra faceta de Augusto, que se revela aberto à observação mundana e capaz de flagrar, e expressar jocosamente, o ridículo de figuras que, à época, transitavam na província. Nem tudo nele, pois, é tristeza. O que, bem pensado, não é tão misterioso assim. Ou não haverá no fundo de toda melancolia um sorriso – mesmo que seja o sorriso descarnado e irônico de um esqueleto?

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