Não fui criado em sítio, embora desde tenra idade tenha convivido na casa de parentes na zona rural, sobretudo n’um território ancestral e...

O canto e a chuva

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Não fui criado em sítio, embora desde tenra idade tenha convivido na casa de parentes na zona rural, sobretudo n’um território ancestral entre Puxinanã, Pocinhos e Campina Grande, região entre as serras do Maracajá e do Engenho, a velha Mumbuca que meus tios estufavam o peito celebrando o néctar de nossas raízes. Com essa vivência do mundo rural e a oportunidade de, já formado, pesquisar por anos subindo e descendo serra, seguindo o leito seco de rios antigos e desbravando caatingas, brejos e carrascais, “no meio do mato” como costumamos dizer, me afeiçoei aos costumes, ao modo de viver, o que consequentemente aguçou a sensibilidade matuta e a intimidade com a natureza. Daí, mesmo na cidade, além de cultivar um pequeno jardim caririzeiro baseado em cactáceas, admiro todo pedacinho verde que me cerca e observo.

Há muito que acordo com os galos, melhor dizendo, com o sol. Mesmo que naquele determinado dia venha a dormir novamente, sou chamado a contemplar a aurora, e como gosto dos dias longos de verão... o sol nasce bem mais cedo e prolonga sua graça até mais tarde que o habitual, uma bonificação, mudando um pouco a rotina. E no domingo passado acordei um pouquinho ainda mais cedo; com a janela aberta, ouço os primeiros “chiados” de pássaros, um bem-te-vi longe. Mais perto, ouço o canto de outro pássaro que nunca tinha escutado. Me concentro, ouço mais atentamente. Era um canto espaçado, bonito, com notas variadas, porém diferente. Impossível reproduzir no beiço para perguntar a alguém mais experimentado, pelo menos eu. Levantei, me debrucei na janela, e vi correntes de vento de mãos dadas puxando lentamente o véu do dia ao mesmo tempo em que assanhavam as árvores e brincavam com a poeira e lixo das calçadas, que, ansiosas, esperavam a gentileza das vizinhas varrerem, as primeiras ocupantes da rua de todos os dias. Os postes a se desligarem, trecho por trecho. No clarear, tudo são contornos em sombras: casas, sobrados, postes, prédios, caixas d’água e o mundo vai aparecendo com suas cores, uma pintura de estética celestial.

Nas árvores e brechas de telhado próximas, me atento aos passarinhos, buscando ouvir novamente aquele cantar e o autor da cantoria, e vi! Porte pequeno, de cor marrom-acinzentado (ou o inverso) com branco e uma faixa escura horizontal na cabeça na altura dos olhos, assim como o bem-te-vi, no entanto, bem mais discreta e aquilo me intrigou. Onde moro e até em meu telhado tem ninho de bem-te-vi, eles eu sei “remendar”. Até brinco as vezes. Quem já ouviu sabe do canto: “tic-tiuí... tic-tiuí” (parecem dizer bem-te-vi) e na comunicação entre eles reparei uma variante: “tiuíiii”, como se fosse uma resposta lamentosa. Aqui, acolá eu repito e na janela que abre o mundo na parede onde está meu computador, um curioso posou, talvez intrigado com a desajeitada resposta.

No dia seguinte, a Rainha da Borborema amanheceu nublada. Aquele clima serrano que tanto gostamos resolveu interromper dias e mais dias de intenso calor e altas temperaturas. 35º C, 36 ºC, não é de nosso costume. Nos dias seguintes, dia nublado aqui, uma chuvinha acolá; o cheiro de terra molhada perfumava nosso ser e Campina Grande reviveu seus dias de amenas temperaturas, com sensações térmicas flutuando entre os 18ºC e 20ºC, uma maravilha! Soube que em João Pessoa as chuvas foram mais impetuosas, desabrigando famílias, incrivelmente cobrindo carros nas vias e ajudando a mutilar calçadas à beira mar.

Na quarta-feira, duas tanajuras entram por minha janela me lembrando a infância. Na quinta, em instantes após o meio-dia, aquele vento menino cobriu a cidade com um véu escuro, tão rápido que não houve quem não saísse de casa ou observasse de algum jeito,
minha avó temeu que uma “tempestade de vento” - como ela diz - arrancasse o telhado da casa. Fui ver esse espetáculo natural, aproveitei a breve chuva, abrindo passagem para o clarão dos céus e em alguns minutos, tudo normal. Naquele momento lembrei de uma história que ouvi de um velho caçador na região de São João do Cariri, íamos a um sítio arqueológico no sítio Mares e no início da caminhada, duas peiticas cantavam soltas e ele sentenciou: “Vai chover!”. Peitica é um passarinho acinzentado com uma faixa escura no olho, também nos mostrou mandacarus aflorando. E no retorno, fomos banhados por uma gostosa chuva. Nessa lembrança, “minha ficha caiu”. O passarinho que me despertou no domingo foi uma peitica, mas vejam só.

Por dádiva da mãe natureza, essa ave tem no seu canto o anúncio de chuva, algo tão precioso, mágico e místico para todo o semiárido, para todos nós. Foi sim a Peitica à cantar anunciando no último dia de fevereiro as águas de março, promessa de vida no Mundo-Sertão.

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