“Você tem um ouvido muito bom”. “Ele toca tudo de ouvido”... Tantas vezes escutamos alguém dizer isso sobre certos talentos, quando se fal...

O dom de ouvir

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“Você tem um ouvido muito bom”. “Ele toca tudo de ouvido”... Tantas vezes escutamos alguém dizer isso sobre certos talentos, quando se fala de música, quando música se ouve.

Entende-se que ter um bom ouvido está associado a boa memória auditiva, o que também ajuda aos considerados “afinados”, os bons de solfejo, que sabem entoar uma melodia ou tocar um instrumento.

São dons que nascem com a gente, raramente se adquirem ou se aprendem. Os professores de música reconhecem desde o início quais os alunos que possuem esta virtude, habilidade com a harmonia dos sons, com as tonalidades. Um promissor ponto de partida para os que se dedicam ao fazer musical.

Mas há quem não seja afinado, não saiba cantar, nunca estudou, nunca tocou nada, mas é tocado pela música sem saber nem o porquê. Não precisa. Música se sente. Não há que se entender de música para gostar do que escuta. Ela fala direto ao coração. Como se lá estivessem os ouvidos, e não nas orelhas...

E há tantos que sentem a música sem precisar de partituras. Que tocam dós e lás, escalas e arpejos, sem saber que são maiores, menores, bemóis ou sustenidos. Nem que as valsas são ternárias e as gigas quaternárias… Que faz pausa nas fermatas por sentir que é o instante do silêncio se impor.

Há quem chore com um prelúdio, quem vibre com uma pavana, quem sonhe com um noturno, solte a alma numa gavota, sem ao menos pressupor que assim foram chamados por aqueles que as criaram.

É que tudo está abrigado na memória auditiva, sem exata consciência daquilo que conecta a música ao coração. Não é arte aprendida, nem técnica estudada. É sentido, intercâmbio, filigranas da emoção. Chorar ouvindo música, lembrar por meio dela dos instantes bem vividos, ou de outras sensações que transportem e enlevem são essências das virtudes que emergem do espírito.

Ouvido que é bom, mesmo que a voz não siga, é aquele que se afina às entranhas da cerviz. Aquele que escuta além do que lhe soa, capaz de associar ao “Tema de Tara”, de “E o vento levou”, o Largo que Beethoven escreveu para o terceiro dos concertos para piano.


É aquele que descobre, sem ninguém lhe sussurrar, que o Adagio Sustenuto do segundo dos concertos dedicados ao piano por Sergei Rachmaninoff inspirou “All by my self”, que a muitos encantou na voz de Eric Carmen.


É o ouvido que intui, que conhece sem saber, sem sequer imaginar, sem nunca ouvir falar do Balé de Kachaturian, nem do Adagio de Spartacus, mas percebe a “My way” que Sinatra declamou pelo mundo inebriado com o poder que a música tem..


Assim como distinguir no Allegro Maestoso da “escocesa” sinfonia, do Mendelssohn de hamburgo, traços de “Andante andante” do Abba de Estocolmo.


Ser capaz de identificar nas danças polovtsianas de uma ópera de Borodin, como de “ O Príncipe Igor”, a canção do musical “Strangers in Paradise”.


Assim conheço alguns, inclusive meu amor. E meu pai era um deles. Não fazia ideia alguma do que está nos pentagramas. Mas sentia escorrer pelo rosto ao som de Bach o que nunca se escreveu com fusas e colcheias.

Isto lembra a resposta que uma amiga soube dar à pergunta inusitada de alguém que se intrigou: “Você vai aos tais concertos, óperas e recitais, sem saber nada de música?…” A resposta fez-se pronta, sincera e bem dosada: “Posso não ter estudado nada além do que escuto, mas apenas em gostar penso eu que já entendo”.

E entoou-se o silêncio mais melódico que se ouviu...

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  1. Numa linguagem muito simples e entendivéis aos "Ouvidos" que simplesmente sentem músicas como elas são..Simplesmente é essa explicação que extraimos/entendemos de seu brilhante texto..Grande Germano Romero.
    Paulo Roberto Rocha

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