Para George Harrison Minha amiga raspou a cabeça. Gosta e acha prático. Foi uma comoção: a mãe chorou, estranhos a olharam com muita c...

Suposições e preconceitos

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Para George Harrison

Minha amiga raspou a cabeça. Gosta e acha prático. Foi uma comoção: a mãe chorou, estranhos a olharam com muita compaixão, supondo que enfrentava uma quimioterapia; e houve quem se afastasse dela no ônibus, temendo o contágio de alguma doença.

Bastou cortar os cabelos para acender a imaginação das pessoas. Um mundo de suposições, preconceitos e medos tomou conta de amigos e desconhecidos. Enquanto ela, aos risos, me contava a experiência, lembrei que homens optam pela máquina zero e não causam um terremoto. Questão de convenção mesmo. Acostumamo-nos a um padrão e ele passa a ser inquestionável. Pelo menos até que algo dentro de nós se insurja e faça a pergunta fatal: por que penso assim?

Em 2012, no Brasil, uma garota foi expulsa da escola porque pintou o cabelo de azul. O episódio rendeu dezenas de reportagens e um enorme debate. Menos de uma década depois, mulheres pintam cabelos de todas as cores imagináveis sem que isso renda manchetes. Rapidamente o exótico passou a ser natural nesse nosso mundo em que todos querem ser tão únicos. O que mudou no caso do cabelo azul? Responda: você sabe.

Mal abrimos os olhos no mundo e descobrimos que tudo é organizado, catalogado, normatizado. Meninas são cor-de-rosa, garotos vão de azul e cabelos devem ser loiros, castanhos, pretos ou ruivos. Jamais azuis. Casamento, para alguns, é só entre homem e mulher. Isso não é arte. Bom gosto é do jeito tal. Certo, errado, belo, horrível, bom, ruim, adequado, indesejável, brega, sublime, pecado – quem disse?

Desde muito cedo nos enquadramos e nos autorrotulamos, construindo uma identidade externa.

Se nascesse em outro lugar, eu apreciaria um bom prato de insetos grelhados? Aguardaria ansiosa pelo pedido de casamento no qual eu seria a feliz terceira esposa de um homem desconhecido? Estaria adaptada a outros padrões estéticos, comportamentais ou religiosos?

Nessa lavagem cerebral permanente, a grande consequência é o apego. A que nos apegamos? A ideias, pessoas, situações. Adotamos um padrão e o seguimos, ortodoxamente. Por vezes aderimos à norma geral simplesmente porque ainda não descobrimos a possibilidade de outros caminhos;
outras vezes porque é confortável; outras ainda porque temos medo, muito medo. Medo de romper com o padrão vigente, medo de perder o chão, medo do julgamento alheio, medo da opinião esmagadora da maioria, medo de seguir pelo desconhecido caminho do pensamento independente (que exige a responsabilidade de arcar com as opiniões emitidas e as escolhas feitas), medo de optar pelo próprio bem-estar em vez de se curvar às expectativas dos outros.

Apego tem um adicional problema: ele gruda na gente o tal do pronome possessivo. Minha esposa, meu marido, meus filhos, minha família, minha cidade, meu país, meu time de futebol, meu cachorro, minha convicção (será minha mesmo?), minha reputação. E, automaticamente, passamos a ser “donos” de tudo: o amor solto e generoso é engolido pelo apego e pela posse. Ciúme, vingança, ódio, brutalidade, intolerância, matanças, opressão – é tudo consequência.

O desejo – imposto de fora para dentro pelo caldo cultural – comanda a vida via moda, publicidade, mídia, líderes religiosos ou políticos, torcida organizada, redes sociais. Tudo absorvemos e vivenciamos com a extremada força da mente manipulada e dócil.

Os desejos nos definem, limitam e dominam: sou chocólatra, não consigo parar de beber. Não vivo sem o perfume X. Quero um parceiro pra chamar de meu, se eu não casar não serei feliz. O cigarro é mais forte do que eu. Como assim: não come carne? Sou contra o casamento gay. Só voto em XYZ e não interessa o que se diz sobre ele. Vermelho é a cor do pecado, enquanto branco é paz. Dinheiro não traz felicidade,
mas possibilita sofrer em Paris – por isso eu o quero. O que será de mim sem você? Quem não crê em (preencha) está perdido.

O desejo tirano nos faz excluir pessoas, oprimi-las, mas também nos faz sofrer quando nos vemos frustrados. Os condicionamentos nos impedem de amar o que não é espelho, tornam-nos intolerantes com a diferença e nos fazem passar por cima de tudo a fim de satisfazer o ego. Sem mencionar os cadáveres emocionais que ficam pelo caminho.

Outros comandam nossas mentes. Repetimos o pensamento alheio sem reflexão alguma. Penso sempre nisso quando alguém me pergunta: quem é você? Respondo apenas: sou a Sonia (e já é muito, pois esse é apenas o nome que meus pais acharam bonito). Sou um ser complexo demais para ser descrito numa apresentação rápida. Todos somos. E se eu tivesse a vida inteira para explicar quem eu sou, o que penso e como me desconstruo e reconstruo todo dia? Certamente não bastaria.

Hoje, começo a me ver, finalmente. Olho para mim mesma e para o mundo que me espreita, pronto a me dominar. Examino meus gostos e, sob a lupa do pensamento crítico, repito, devagar: será que eu gosto mesmo disso? Ou me ensinaram a gostar? Por que rejeito tal coisa? De onde vem esse pensamento, tal preferência? Concordo com isso? Faz sentido para mim?

Minha mente muito lentamente emerge desse emaranhado de sensações e opiniões alheias para se tornar apenas testemunha. Uma mistura de necessidade de algum autocontrole e do desejo de romper convenções que, de vez em quando, acomete alguns artistas. Por isso esse texto é dedicado a George Harrison. No último álbum, que gravou pouco antes de morrer e foi lançado postumamente, ele identificou todo esse ruidoso caos e optou pelo silêncio, pela meditação. Um testamento musical. O eu – ensina-me Brainwashed, a canção que você ouve abaixo – é como uma cítara e uma tabla tocando ao longe quando, num breve instante, todos os outros instrumentos silenciam.



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