Nutro enorme admiração pelo pernambucano Alceu Valença . Para mim, ele é um gênio de nossa música popular. Vem de longa data minha reverên...

Canções com gosto de domingo

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Nutro enorme admiração pelo pernambucano Alceu Valença. Para mim, ele é um gênio de nossa música popular. Vem de longa data minha reverência a ele e a uma boa parte de sua obra, calcada na mistura de ritmos nordestinos, na inteligente simplicidade e beleza de suas fórmulas e no bom uso da poesia musicada. Tropicana, Cavalo de pau , Martelo alagoano, Solidão, Sonhei de cara e tantas outras músicas são magistrais e marcaram a sua carreira e a vida de muita gente.

Opa, alto lá, com relação a uma pequena fração de suas letras, tenho eu cá minhas restrições. Alceu é um dos maiores letristas de nossa música, mas, talvez pelo fato de já ser tão íntimo dele, musicalmente falando, às vezes me pego discordando desta ou daquela canção do mestre, torcendo o nariz, fazendo careta, afinal nem todos os grandes poetas populares acertam sempre, correto?

Uma cisma renitente me acompanha, talvez a mesma que tenho com Chão de giz , considerada um verdadeiro clássico de outro monstro de nossa música popular nordestina, o nosso fantástico paraibano Zé Ramalho, mas isso também já é assunto para outra crônica.

O fato é que eu estava no Rio uma vez e comecei a me lembrar de Andar, andar , música que o pernambucano lançou em um período em que sua carreira começou a declinar um pouco, no sentido comercial, nas regiões Sul e Sudeste do nosso país.

Com Andar, andar, parecia-me que Alceu errara a mão na mistura. A música era uma intenção de fazer um blues panfletário (!), e o tiro parecia ter saído pela culatra. Até a fabulosa guitarra de Paulo Rafael, grande parceiro dele, estava fora do lugar, alguma coisa não me soava bem ali, a letra forçava por demais a barra, enfim, definitivamente eu não curtia Andar, andar.

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No entanto, eu andava e pensava na música... E todos nós sabemos que há aquelas músicas que, de tanto marteladas em nossa cabeça, mesmo que pela persistência da memória (agora me veio à cabeça Dali e sua tela), acabam colando de um jeito ali que não há mais forma de tirá-las de lá. Conquistam seu espaço pela insistência mesmo. Na vida, também há aquelas situações em que estamos em um dado lugar e terminamos por lembrar uma canção que nos remete ao próprio lugar por que passamos. Que louco!

Eu disse que caminhava e me lembrava da melodia e da letra da canção de Alceu... Eu caminhava pelas ruas do Rio de Janeiro, mais precisamente pelo célebre bairro de Copacabana, que, malgrado sua imensa estrutura de velho concreto armado, ainda mantém seu charme e encanta turistas do Brasil e do mundo.
Andando pelas ruas de Copa... isso já me remete a Pelas ruas que andei , aí sim um clássico popular de Alceu.

Estou hospedado em um prédio antigo, um velho arranha-céu na Francisco Sá, em cuja galeria, em sua entrada, localiza-se o descolado Teatro da Praia. Vou caminhando no sentido do famoso calçadão, pensando na vida, sem tirar os olhos dos transeuntes, tentando captar algum movimento suspeito.

Pensar no sentido da vida e, ao mesmo tempo, andar com cautela pelas ruas do Rio formam uma tarefa complicada, uma vez que são acionadas simultaneamente zonas distintas do cérebro. Sigo em direção ao mar. Cruzo a Conselheiro Lafaiete, passo pela Livraria Mar de Histórias (em frente ao Parque Peter Pan) e atravesso a Raul Pompéia, seguindo em linha reta, a esperar o abraço caloroso das águas da Baía de Guanabara. Nisso, a música de Alceu já colou em minha mente, visto que já estava quase assobiando sua melodia...

Eu compus esta canção Andando de Ipanema Para o Baixo Leblon Feito um cão abandonado Como o povo brasileiro Andar, andar Nas ruas do Rio Do Rio de Janeiro Dezembro, abril.

Comecei a rir sozinho, pois estava andando em Copa, e Alceu escrevera a música andando de Ipanema para o Baixo Leblon, por isso, ao chegar à Avenida Atlântica, dobrei à direita e segui em direção ao Forte de Copacabana, para refazer o itinerário do poeta popular. Ria sozinho e quase cantava, em meio a desconhecidos, no calçadão de Copa, uma música de um conterrâneo de meus pais e avós, nascido em São Bento do Una, terra do meu avô Domingos Macedo.

Um grande abraço, mestre Alceu, você me ajudou a terminar mais uma crônica, com palavras simples, leves e soltas, com um pouco do sabor de suas canções, com gosto de manhã de domingo!


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