A velhice até que é boa também tem a sua graça livra de muita trapaça exageros e engodo. As vezes ficamos gordos em ár...

A velhice até que é boa

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A velhice até que é boa também tem a sua graça livra de muita trapaça exageros e engodo. As vezes ficamos gordos em área inconveniente quem nunca teve cintura até fica mais contente eis que culpa a velhice e vamos seguindo em frente. Outra coisa que gostei foi de acordar mais cedo antes dormia um bocado disso não faço segredo dormia mais que S. João segundo meus companheiros Agora acordo cedinho imitando outros bichos aproveito mais o dia parece até que espicho mexendo nos cacarecos costurando outros vestidos com o resto de meus sonhos que estavam adormecidos Estou gostando da amiga ela me trouxe mais calma mais alegria na alma antes eu tinha no corpo agora sou menos escopo tenho sido mais centrada outra coisa que gostei foi ver meus netos nascendo agora é que entendo quando minha mãe falava: "filha, a nossa alma fica mais rica com os netos". Eles são do meu afeto coroas no meu reinado! Amigo agora eu te digo só não gosto dos achaques dói a perna, dói o braço as pernas ficam mais finas essa é a triste sina dos velhos, mulher ou macho. Mas temos muita vantagem somos bem mais resolvidos olhamos menos pro umbigo vemos por todos os lados enxergamos o escondido escutamos o calado. Coisa boa na velhice: a contagem regressiva agora levamos a vida antes, ela nos levava levamos menos porrada e damos mais gargalhadas.

Apaixonei-me por Klima quem sabe alguém me anima a entender a ironia… Não gosto de ambiguidade de mentiras ou engodo prefiro o todo errado meio torto, atrapalhado ao santinho do pau oco Mas vejam que absurdo minha Valsa dos Adeuses percebi que o percevejo sempre esteve na garganta com seu odor que espanta até quem não se asseia Oh meu Deus! Eu quero ajuda para sair da armadilha da cobra que se enrodilha agora em meu pescoço em minha mente em alvoroço qual biruta sem controle meu avião fez um pouso aterrissou apressado sem rumo desengonçado se transformando em destroço Oh Jesus! Eu quero tanto que me ajudes neste conto ou romance do Kundera Meu Senhor, ai quem me dera jamais ter sido o algoz quando em verdade, era a vítima de um script encenado num carnaval com um reinado comandado por um momo quase nu, sem adereço apenas a fantasia em seu mundinho pelo avesso menor que casca de noz!

Imaginava eu que herdaria os negócios da família foram quatro gerações viajei ao exterior fui à meca daquele ofício… Ao retornar queria aprender com outros mestres conviver e me aperfeiçoar sob o comando de pessoas mais exigentes Os empregados de meu pai poderiam ser complacentes comigo eu precisava de excelência e para obter excelência se faz necessário rigor. E assim fui me aperfeiçoando preparando-me para aprender com meu pai alguns segredos daquele ofício, estavam guardados com ele toda a simplicidade e beleza das coisas singelas todo o requinte que só encontramos na natureza da vida, das coisas, das pessoas… Um dia recebi uma ligação meu pai se fora ainda jovem em nossa cultura 55 anos se é jovem em seu ofício voltei para assumir e continuar com os negócios da família mas sem o meu pai para me indicar os caminhos... Procurei os meus próprios caminhos nas memórias da infância na riqueza dos rios, da floresta e das montanhas.

Na sexta-feira (23) nossa conversa foi sobre discos. Vou tomar como referência a indústria fonográfica de meados da década de 1970. Po...

Os EPs de hoje e os discos de vinil do passado

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Na sexta-feira (23) nossa conversa foi sobre discos. Vou tomar como referência a indústria fonográfica de meados da década de 1970. Pode ser uns anos antes. Pode ser uns anos depois. Era o tempo dos discos de vinil. Era por meio deles que consumíamos música. Eram eles que, no caso dos colecionadores, formavam nossos preciosos acervos domésticos. No Brasil, os discos rodavam em 33rpm. 45rpm, só nos singles importados vindos quase sempre dos Estados Unidos ou da Europa.

Ano velho passando, ano novo chegando, será que o mundo melhorou? Claro, pois na vida não existe marcha à ré. Tudo evolui. Esta minha...

Será que melhoramos?

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Ano velho passando, ano novo chegando, será que o mundo melhorou? Claro, pois na vida não existe marcha à ré. Tudo evolui. Esta minha reflexão adveio de um desejo enorme de olhar para trás…

E tudo começou com aquele homem magro, quase nu, todo ensanguentado, pregado numa cruz, entre dois malfeitores. Um homem cujo crime foi amar a todos sem distinção. Pediu água e lhe deram vinagre. Pediu amor e lhe deram ódio, diante de uma multidão enlouquecida pelo fanatismo religioso, provou que nem sempre a voz do povo é a voz de Deus.

Aos que me leem, minhas desculpas. Duplas desculpas. Em primeiro lugar, por repetir o tema, voltando ao grande escritor Victor Hugo. Em...

Traduzindo uma página de Victor Hugo ou O Titã-Anão

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Aos que me leem, minhas desculpas. Duplas desculpas. Em primeiro lugar, por repetir o tema, voltando ao grande escritor Victor Hugo. Em segundo lugar, por este texto não ser uma página crítica ou analítica, apenas uma tradução operacional de um trecho de um capítulo de Os trabalhadores do mar, em que, aos meus olhos de leitor, reside um dos melhores perfis psicológicos do hipócrita e uma das melhores conceituações de hipocrisia. Victor Hugo, mestre incomparável, ao mergulhar no íntimo do ser humano, desvela ambos diante de nossos olhos.

Il faut être toujours ivre, tout est là; c'est l'unique question. Pour ne pas sentir l'horrible fardeau du temps qui brise...

Caravaggio

caravaggio conto luxuria devassidao
Il faut être toujours ivre, tout est là; c'est l'unique question. Pour ne pas sentir l'horrible fardeau du temps qui brise vos épaules et vous penche vers la terre.
(Charles Baudelaire- Les petits poèmes en prose)


Merisi nunca teve um rosto fácil. Quando se olhava no espelho. Quando tinha coragem. Outros o espiavam de lá. Para além das marcas da bem-vinda boemia, dos fins das noites fauves, das madrugadas de ninguém é de ninguém, encontrava sempre outras caras. Estranhas olheiras fundas. Rugas insuspeitadas. Rictos que se reaprenderam risos.

Quem era ele mesmo? Mutante. Metamorfo…

Ser jovem enquanto velha, velha enquanto jovem . (A Ciranda das Mulheres sábias — de Clarissa Pinkola Estés) Foi um ano difícil. E p...

Os amores prateados

Ser jovem enquanto velha, velha enquanto jovem. (A Ciranda das Mulheres sábias — de Clarissa Pinkola Estés)

Foi um ano difícil. E por entre o assunto da política, da eleição de Lula – o grande presente e Vivas!, e o momento de transição e da constatação do desmonte do país, tive também outros assuntos pertinentes a pensar. A velhice das mulheres. O corpo da mulher idosa, para os que não gostam da palavra velha, as suas dores e a solidão e invisibilidade dessa mulher, já há tanto falado, Desde Simone de Beauvoir à Miriam Goldenberg e a sua Bela Velhice.

As viradas dos anos trazem-me sempre à memória aquelas antigas figuras do velhinho e do menino, o primeiro a se despedir do tempo e o s...

O Velho e o Menino

ano novo tempo nostalgia
As viradas dos anos trazem-me sempre à memória aquelas antigas figuras do velhinho e do menino, o primeiro a se despedir do tempo e o segundo a nele ingressar. Mas não são quadros difusos o que me vem à lembrança nessas ocasiões. É, ao invés disso, uma gravura específica que suponho ter visto, pela primeira vez, na Farmácia que Seu Israel instalou na cidadezinha de onde quase vim ao mundo. Quase, porquanto ali chegado aos seis meses de vida.

Menos importa se quem criou essa frase genial foi Pedro Malan, Gustavo Loyola ou a mãe de Pantanha. Nada mais verdadeiro do que as inc...

No Brasil até o passado é incerto

politica alianca conveniencia justica
Menos importa se quem criou essa frase genial foi Pedro Malan, Gustavo Loyola ou a mãe de Pantanha. Nada mais verdadeiro do que as incertezas que fizeram do Brasil um país onde até o Judiciário periodicamente revira e modifica o que ele mesmo decidiu.

Um exemplo simples vem do Supremo Tribunal Federal que avançou (?) admitindo a relativização da coisa julgada. Antigamente, quando havia o trânsito em julgado de uma decisão, a ideia era a de que aquilo se tornasse imutável para todo o sempre. Parece até que com o aumento do trânsito atropelou-se o julgado. Não creio estar errado em relembrar que o mesmo STF decidiu em um passado não muito distante que aposentados passariam a descontar de seus magros caraminguás um percentual para a previdência social.

SILÊNCIO, POR FAVOR A beleza, essa panaceia para o desatino, deixa de lado os seus afazeres árduos de ser exceção den...

Rei do Futebol


SILÊNCIO, POR FAVOR
A beleza, essa panaceia para o desatino, deixa de lado os seus afazeres árduos de ser exceção dentre a vulgaridade dos dias e se curva diante do Rei do Futebol.
CASA DO MEU NOME
Era longe de um recanto a outro, (custavam anos e atropelos) construí-los, encontrá-los, destituí-los do poder sobre nossa vida A facilidade de idealizar, corromper a decência da crítica, evitar o torpor da certeza das paredes

E lá se vai 2022... Inexoravelmente, segue a regra finita da passagem do marco de tempo. Leva muitas levezas, outras tristezas, ondas ...

Lá se vai 2022...

2022 2023 ano novo virada
E lá se vai 2022... Inexoravelmente, segue a regra finita da passagem do marco de tempo. Leva muitas levezas, outras tristezas, ondas do mar, vozes de além-mar, olhos alegres e outros tristonhos. Fecha-se o ciclo e abre-se outro no giro datado para ocorrer de há muito. A vida avança entre tantos giros de relógios físicos e mentais.

Os homens ficam perplexos como o mundo é incontrolável. Até imaginam-se em segurança, no controle da maquinaria que faz rodopiar o conceito de temporalidade. Pobres tolos, pois o comando não lhes pertence. Na verdade, eles são passageiros sem direito a serem guias, apenas aquelas ilusórias.

É incrível como somos tão facilmente influenciáveis. Seja pela moda, pelos costumes, ideologia, política, religião. Daí o perigo do fan...

Apenas mais um ano…

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É incrível como somos tão facilmente influenciáveis. Seja pela moda, pelos costumes, ideologia, política, religião. Daí o perigo do fanatismo, pois muitas loucuras já foram cometidas sob ondas de delírio coletivo. O plebiscito em que o indulto da Páscoa foi dado ao assaltante Barrabás, em detrimento da liberdade de Jesus, é um dos mais notórios exemplos. O holocausto, as guerras religiosas chamadas de “santas”, o extremismo dos fundamentalistas islâmicos, são outras lamentáveis consequências do fanatismo.

A Primavera terminou. O Verão começou. Nem precisava recorrer ao calendário pendurado na parede para constatar isso. Tudo leva a per...

Primavera e Verão

serraria verao primavera tapuio
A Primavera terminou. O Verão começou. Nem precisava recorrer ao calendário pendurado na parede para constatar isso. Tudo leva a perceber o começo da nova estação.

As mudanças visíveis na Natureza indicavam que a Primavera trazia o Verão para perto de nós, com vento quente e mormaço avassalador.

Voltei de Serraria com essa sensação, percorri a praia do Cabo Branco na contemplação à Lua cheia, a última do ano, com a certeza de que o Verão trouxe enorme beleza à paisagem da cidade.

Fazia-se questão de saber com quem se falava. Quem eram os outros, quem éramos. Chegado à Capital, ao estrear na praça que às oito d...

Um naco de esperança

paraiba joao pessoa antiga
Fazia-se questão de saber com quem se falava. Quem eram os outros, quem éramos.

Chegado à Capital, ao estrear na praça que às oito da manhã já se via repleta em suas mais diversas rodas de conversas, minha ânsia era entrar na roda. Conhecer e dar-me a conhecer com a mesma ingente necessidade de quem buscava o abrigo.

Já haviam me deixado armar a rede num quarto da Casa do Estudante. De forma precária, enquanto o sócio ocupante terminava as férias em Taperoá.

Na grande parte da sociedade, a riqueza e a pobreza são igualmente adoecidas. Essa patologia se caracteriza por apresentar a miséria ...

Desordens da riqueza e da pobreza

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Na grande parte da sociedade, a riqueza e a pobreza são igualmente adoecidas. Essa patologia se caracteriza por apresentar a miséria humana. A pobreza porque é economicamente prejudicial para toda a sociedade. E a riqueza porque os muito ricos transformam o poder econômico em poder político; e, de forma perversa, destroem a democracia, a fim de adquirirem o aumento dos seus privilégios egoístas. Isso se agrava com o uso da violência.

Diante dessa situação, o desafio de eliminar a brutal desigualdade financeira entre os cidadãos é uma necessidade ética que deve ser assumida por todos. Nesse processo, para eliminar a desarmonia social, é prudente considerar que os pobres não são responsáveis pelo seu sofrimento, porque é a maldade de alguns ricos — que vivem da corrupção política —

Assistindo ao especial de Roberto Carlos (sim! No Rio de Janeiro, sexta à noite, vendo RC pela tv - sei não...), escutando-o cantar Lady...

Será que ela volta?

alzheimer amor mae velhice
Assistindo ao especial de Roberto Carlos (sim! No Rio de Janeiro, sexta à noite, vendo RC pela tv - sei não...), escutando-o cantar Lady Laura e lembrando de minha mãe Iracema.

Lady Laura é um hino a todas as mães das pessoas de minha geração. Então, Lady "Iracema" veio, nesse momento, com toda força em meu pensamento! Lembro de sua beleza e elegância simples, porém marcante. Lembro, ao longo da minha infância, que em momentos especiais, ela costumava deixar o cabelo bem fofo e cheio de laquê. O cheiro do laquê, misturado com seu perfume, sua boca bem feita, vermelha, se destacava, acentuando o azul intenso dos seus olhos. Linda!

Quanto pode um professor? Não sei. Só sei que pode muito, incluindo a sua capacidade de inspirar gerações, de transbordar a esfera do ...

Ágora paraibana

magisterio curso apl paraiba
Quanto pode um professor? Não sei. Só sei que pode muito, incluindo a sua capacidade de inspirar gerações, de transbordar a esfera do tempo e atingir o significado. E um professor-formador (todos não são?) consegue multiplicar isso numa progressão geométrica. Isso ficou mais uma vez visível na 2ª turma do Curso de formação de professores da Rede pública estadual – prioridade da leitura em sala de aula – sob a regência dos docentes Milton Marques Júnior e Ângela Bezerra de Castro, ambos membros da Academia Paraibana de Letras – local onde foi ministrado – e aposentados da UFPB.

Leitor, é comum nesta época fazer um balanço para ver o que deu certo e o que deu errado no...

Conselhos para o novo ano

ano novo 2023 conselhos
Leitor, é comum nesta época fazer um balanço para ver o que deu certo e o que deu errado no ano que termina. Geralmente o saldo é negativo, mas se deve permanecer otimista. Ter chegado ao dia 31 de dezembro foi uma proeza, mostra que você tem habilidade para sobreviver. Não há por que desconfiar de que esse dom vai abandoná-lo em 2023. Sendo assim, trate de enfrentar o próximo ano de peito aberto (e portas de casa bem fechadas!).

Através dos olhos do artista posso ver a natureza e a existência dos homens, em quadros e esculturas. Mas com a máquina do tempo a expe...

A Máquina do Tempo

fantasia sonho leitura
Através dos olhos do artista posso ver a natureza e a existência dos homens, em quadros e esculturas. Mas com a máquina do tempo a experiência se torna inigualável. Com ela me transporto para onde eu quiser, e posso permanecer o tempo que me apetecer.

Escolhi o ano de 1380. Estou na Irlanda do norte, perto da Calçada do Gigante. Uma família muito pobre me acolhe em sua casa e estamos jantando à luz de velas. A mesa de refeições é feita de tábuas longas e grossas, as cadeiras de madeira não têm encostos.

A epistemologia é basicamente o estudo do conhecimento humano. Há uma notável tríade de filósofos britânicos, além de Francis Bacon e T...

Empirismo britânico

filosofia locke berkeley
A epistemologia é basicamente o estudo do conhecimento humano. Há uma notável tríade de filósofos britânicos, além de Francis Bacon e Thomas Hobbes, que representam uma linha de pensamento que baseia a origem fundamental do conhecimento na experiência sensível. O ponto de partida é, por óbvio, o mundo exterior. Tal vertente de abordagem da realidade seria uma espécie de realismo ou materialismo, isto é, no processo de conhecimento, o que importa mais é o “objeto a ser conhecido” (a realidade, o mundo, os inúmeros fenômenos), e não o “sujeito conhecedor” (nossa consciência, nossa mente), substrato para elucubrações idealistas.

Este texto é dedicado ao meu amigo Martinho Leal Campos, leitor e fã de Nélida Chamo-a apenas pelo primeiro nome como se com e...

Algumas palavras sobre Nélida

nelida pinon literatura brasileira
Este texto é dedicado ao meu amigo Martinho Leal Campos, leitor e fã de Nélida

Chamo-a apenas pelo primeiro nome como se com ela tivesse tido alguma intimidade. Mas quem sou eu para tanto? Apenas um leitor. Todavia, sabemos, o leitor tem direito a tais atrevimentos com relação aos autores, sejam eles amados ou não. Ao lê-los e portanto trazê-los para o mais íntimo de nós, tornamo-nos amigos – ou ao menos conhecidos, justificando-se, assim, a quebra de maiores cerimônias e formalidades. Então, que seja Nélida, apenas Nélida, a grande escritora que nos deixou há poucos dias em Lisboa, na Península Ibérica tão amada por ela, tão próxima da Galícia de suas origens orgulhosamente cultivadas. Nélida, estranho nome, que ela descobriu, para mais amá-lo, ser um anagrama do nome de seu querido avô, Daniel.

      Em prece Pelo povo em esperança Pela natureza preservada Pela vida próspera Em prece de joelhos Pela harmonia e...

Em prece por nós, pronome do Amor


 
 
 
Em prece
Pelo povo em esperança Pela natureza preservada Pela vida próspera Em prece de joelhos Pela harmonia e paz Pela excelência aos homens justos Por uma vida segura, tranquila Pela liberdade Em prece Pela transmutação da energia da raiva, do ódio, da inveja da ganância, da soberba, do mau agouro, das palavras vãs, da mentira, da miséria, da injustiça, da indiferença

A Copa do Mundo chegou ao seu final. A vitória da Argentina premia aquele que é um dos maiores craques do futebol mundial, Lionel Messi...

Brilho sim, barulho não!

A Copa do Mundo chegou ao seu final. A vitória da Argentina premia aquele que é um dos maiores craques do futebol mundial, Lionel Messi, a nível de Pelé e Maradona. Embora a França tenha sido a melhor seleção, Messi mereceu ter esse título de campeão do mundo.

O evento nos faz lembrar dos exageros das comemorações, especialmente com os fogos de artifício. Pois todos sabem que fogos de estampido podem causar danos às nossas crianças, aos idosos e autistas, e também aos animais.

Às vezes acho que os grandes artistas pesam menos que o restante das pessoas. Ou você nunca notou como Horowitz desliza seus dedos sob...

Peso e Pluma

van gogh da vinci mozart
Às vezes acho que os grandes artistas pesam menos que o restante das pessoas. Ou você nunca notou como Horowitz desliza seus dedos sobre o teclado? Como se tamborilasse ou fizesse carícias...

E Baryshnikov, que de repente deixa o chão, abre asas e se lança no espaço – pássaro claro – subvertendo a gravidade? Há bailarinas que mal tocam o solo, sílfides, e a Mitsuko Uchida, cuja alma se esconde em algum lugar luminoso tão logo ela pousa as mãos sobre o piano.

Essa é uma história colhida nos sonhos e dedicada aos sonhadores da nossa doce Parahyba! Eles entenderão. Sou homem da praia e vi es...

Uma visita do mar

jose americo cabo branco
Essa é uma história colhida nos sonhos e dedicada aos sonhadores da nossa doce Parahyba!

Eles entenderão.

Sou homem da praia e vi esse passeio que veio do mar. Era uma manhã de dezembro no Cabo Branco!

Os ventos sopram suaves levando a nave para a beira da praia. O barco vem do horizonte azulino em um mar sereno de poucas ondas.

Faço meus exercícios espirituais nas festas de Natal e Ano-Novo. Em casa, sozinho, acendo uma vela e relembro os bons tempos das festas...

Exercícios espirituais

natal saudade reflexao espiritualidade
Faço meus exercícios espirituais nas festas de Natal e Ano-Novo. Em casa, sozinho, acendo uma vela e relembro os bons tempos das festas em família, junto com meus pais e meus irmãos.

Repasso as situações agradáveis e desagradáveis que vivi nos últimos meses - e aproveito para rezar pelos parentes e amigos, pelos que já se foram. Não deixo de fazer um ato de contrição,

Acordar cedo, comer dois ovos e tomar um café frio, em seguida, escrever até a hora do almoço. Esta era basicamente a rotina de Victor ...

Victor Hugo, um espírito libertário e combativo

literatura politica franca guernesey victor hugo
Acordar cedo, comer dois ovos e tomar um café frio, em seguida, escrever até a hora do almoço. Esta era basicamente a rotina de Victor Hugo, durante o seu exílio em Guernesey ou Guernsey, na casa – Hauteville House – que ele comprara, na ilha anglo-normanda. Depois de três anos ajeitando-a para abrigar a família, ele reservara para si o terceiro andar, muito simples, sem o conforto e os detalhes de decoração do restante do imóvel.

DO NATAL O sorriso no rosto, a roupa nova no corpo. O peito inquieto, o olho na porta. A comida farta, a mesa pronta. ...

Minha árvore de Natal

poesia paraibana marineuma oliveira

DO NATAL
O sorriso no rosto, a roupa nova no corpo. O peito inquieto, o olho na porta. A comida farta, a mesa pronta. As mãos postas, a prece insólita.

Era meio dia e o sol castigava a cidade. Um calor terrível. O sinal fechou e eu parei. Duas filas se formaram com outros automóveis p...

Feliz Natal?

Era meio dia e o sol castigava a cidade. Um calor terrível. O sinal fechou e eu parei. Duas filas se formaram com outros automóveis parados também, esperando o sinal abrir. Lá da frente veio caminhando entre os carros um homem muito magro, rosto seco, não falava. Apenas empunhava um papelão onde se lia "Estou com fome". Dos carros ninguém deu importância àquele homem, ninguém baixou o vidro para uma esmola, talvez com receio do ar condicionado escapar do automóvel?

"— Dotô, mermo quando eles tem pena e dá uma grana, de vez em quando eles humilha nóis. Fica dizendo que o dinheiro não é pra nóis comprá droga".

ÁGUA A água dura o tempo de seu gosto, o reflexo oblíquo do Sol que insiste, o pormenor dos cinquenta tempos do Mundo ...

No rasante da libélula

poesia capixaba jorge elias neto

ÁGUA
A água dura o tempo de seu gosto, o reflexo oblíquo do Sol que insiste, o pormenor dos cinquenta tempos do Mundo no rasante da libélula É esta água, repasto de surpresas, não a mesma, sempre a mesma, dispersa no azul redondo Água que transborda e cessa, recria e arrasta, carrega o som e derrama o silêncio

Uma plantinha cresce aos pés de Nossa Senhora da Conceição. Dela, sim, no seu nicho de 122 anos, a uns 30 metros do solo. É arte de um ...

Uma santa de mãos postas

viagem pilar paraiba historia imperador pedro ii
Uma plantinha cresce aos pés de Nossa Senhora da Conceição. Dela, sim, no seu nicho de 122 anos, a uns 30 metros do solo. É arte de um passarinho em retribuição às sementes que os Céus dispõem na terra seca aos bichos de pena, como ele. Suas asas o conduziram àquela altura para o depósito dessa oferenda com adubo e tudo.

Os pássaros, minha gente, costumam enfeitar nichos e monumentos sem a percepção de que as sementes não digeridas são, às vezes, de arvoredos com troncos capazes de rachar o bloco de cimento onde vinguem e cresçam, espantosamente,

Se existe um profissional para quem devemos o maior respeito do mundo é o coletor de resíduos, que anda agarrado nas traseiras dos veí...

'Nenhuma noite do ano é tão feliz como esta'

gari coleta lixo natal confraternizacao
Se existe um profissional para quem devemos o maior respeito do mundo é o coletor de resíduos, que anda agarrado nas traseiras dos veículos, saltando aqui e acolá, correndo de um lado para o outro, coletando o lixo produzido pela população.

Expostos ao contato com mau cheiro e à contaminação de resíduos deteriorados, eles cumprem uma tarefa visceralmente importante para a vida urbana. Ai do mundo urbano se não fosse o seu trabalho.

Entrei no café do Paraíba Hotel e terminei num desengano bem mais sério: a pobreza de mãos pedintes, de miséria exposta, que lotava as...

Saí para me enganar

Entrei no café do Paraíba Hotel e terminei num desengano bem mais sério: a pobreza de mãos pedintes, de miséria exposta, que lotava as nossas calçadas há mais de sessenta anos, motivando a criação da Sudene sob a égide de novas teorias econômicas, não tem vencimento. Aumentou e muito. Tomou a praça inteira antes a mais festejada de povo e de nossas elites, ocupando, rua acima e rua abaixo, os portais e bancos de praça do conforto e lazer dos moradores e convivas das velhas ruas centrais tão privilegiadas.

Em muitas casas os pés de acerola estão enfeitados feito árvores de Natal já há algumas semanas. Dezenas de bolinhas vermelhas contra...

Des(fruta)mento

frutas estacao primavera final ano
Em muitas casas os pés de acerola estão enfeitados feito árvores de Natal já há algumas semanas. Dezenas de bolinhas vermelhas contrastam com o verde dos seus galhos. Alhures, o cenário do verão que se apresenta decora com cajus amarelos e vermelhos a doce fruteira e muitas fronteiras. A nova estação leva ornamentos frutíferos de muitos tons, vários gostos, constante desfrutar.

Em mim não há, no momento, coisas que me dêem alegria suficiente para compartilhar, repartir. Estou andando na rua no exercício de bus...

Hoje eu quero sair só!

Em mim não há, no momento, coisas que me dêem alegria suficiente para compartilhar, repartir. Estou andando na rua no exercício de buscar, dentro desse malote que me deram e tentaram me jogar fora da minha própria vida. Quero algo que me sirva e sirva pra alguém além de mim. Tudo é novo e estranho, nada me cabe ou cabe à memória que tenho sobre mim mesma.

Fico tentando me apegar ao que eu era, ao que pensei e sonhei para mim, a fim de não me perder, mas não consigo fazer isso por muito tempo. Me canso, Me canso muito. Busco ver em meio aos elementos que tenho comigo, algo que combine com essa vida que tenho agora – a minha, aquela onde eu era a filha, a irmã, a amiga, a professora, sei que não terei nunca mais, nunca mais! Muita coisa aconteceu fora desse trilho. Aconteceu e a resiliência humana permite que a gente vá se moldando, se refazendo.

Há 21 anos, morreu George Harrison. Dos quatro Beatles, o guitarrista teve a trajetória mais espetacular. Vindo de uma família muito ...

George

george harrison beatles india citara bangladesh
Há 21 anos, morreu George Harrison.

Dos quatro Beatles, o guitarrista teve a trajetória mais espetacular. Vindo de uma família muito pobre, aos 17 anos tornou-se uma das maiores celebridades do planeta. Entrou no túnel de delícias do mundo material com sua carteirinha de milionário aos 20 anos e emergiu do outro lado como um homem que resumia seu propósito na vida a uma busca incansável para responder a três perguntas: quem sou eu, por que estou no mundo e para onde vou.

Uma insônia inquietante me atormentava naquela noite. Eu não conseguia dormir. O galo já cantara uma vez e, como um noctívago, saí a ca...

O curioso périplo noturno de Beaurepaire-Rohan

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Uma insônia inquietante me atormentava naquela noite. Eu não conseguia dormir. O galo já cantara uma vez e, como um noctívago, saí a caminhar pelas ruas vazias da pequena cidade, sem rumo, procurando espantar o que me afligia.

No alto, uma meia lua chorosa se escondia entre nuvens semicarregadas que pareciam estáticas, deixando tudo em tênue penumbra.

Vaguei sem medo pelo Centro e o Varadouro. Aqui e acolá, caíam finos chuviscos, mas não me importei. Tivera o cuidado de levar comigo

Alguns críticos jamais perdoaram a suprema heresia de Mario Quintana estrear com um livro de sonetos - ...

Vinte e oito anos sem e com Mário Quintana

mario quintana critica poesia
Alguns críticos jamais perdoaram a suprema heresia de Mario Quintana estrear com um livro de sonetos - "A Rua dos cataventos" (1940) - quando, na época, o próprio Modernismo já começava a ser questionado pelos que iriam mais tarde engrossar as fileiras da Geração de 45. Geração da qual só cronologicamente podem aproximá-lo, pois, embora tenha desde sempre cultivado o soneto, o fez descontraidamente, sem pompas e sem circunspecção, "filiando-se" muito mais ao humor e à ironia de 22 do que à sisudez dessa geração do pós-guerra. Em suma, cotejando-se os seus sonetos com os da Geração de 45, Quintana poderia ser considerado o sonetista que o Modernismo não teve, conquanto tenha sido um gazeador contumaz de todas as escolas...poéticas, inclusive da escola modernista, da qual evitou os excessos em troca de uma dicção lírica em muito tributária do Classicismo.

Um querido amigo genial, o Professor Luíz Dias Rodrigues, Luizito, disse-me, certa vez, que era muito reticente em produzir textos, poi...

Quando devemos dizer

falar poder palavra silencio
Um querido amigo genial, o Professor Luíz Dias Rodrigues, Luizito, disse-me, certa vez, que era muito reticente em produzir textos, pois já havia tantas obras excelentes, que preferia mesmo aprender com os escritos dos outros.

Luizito era um gênio autêntico e a sua humildade era fruto da sua sabedoria. Sua mente fervilhava de conteúdos e de idéias, mas ele preferia a condição de leitor.

Com esse critério, produziu textos preciosos, que enriquece quem os lê.

Penso que as mais intensas lembranças da infância são marcadas pelo q...

Terrores infantis

trancoso terror medos infancia
Penso que as mais intensas lembranças da infância são marcadas pelo que dá medo. Existem as de aniversário, viagens, reuniões em família, e todas constituem um repertório gratificante que nos faz ter saudades do tempo em que éramos guris. Mas elas não se imprimem na memória com a força dos eventos que nos deixavam o coração em sobressalto.

Grande parte deles está ligada aos “fantasmas” da noite e aos tipos conhecidos como “doidos”. Qual a criança que não chegou a tremer sob os lençóis com medo da visão de algum ente sobrenatural? Podia ser a imagem de alguém que morreu ou de uma dessas personagens que povoam as histórias contadas em filmes, gibis ou por pessoas próximas.

A igreja católica utiliza o calendário gregoriano, que é o calendário solar para contagem dos anos, meses, semanas e dias e que tem com...

Maslenitsa

russia carnaval danca
A igreja católica utiliza o calendário gregoriano, que é o calendário solar para contagem dos anos, meses, semanas e dias e que tem como base as estações do ano. Já a igreja ortodoxa utiliza o calendário Juliano. Por esse motivo, todas festas cristãs na Rússia atrasam um pouco o Natal e a Páscoa.

Mas o Carnaval Russo não é uma comemoração oficial da igreja ortodoxa. Lá ele se chama Maslenitsa e, como no Brasil, precede a quaresma, ou seja, é de origem pagã. A igreja adaptou

Quando chegava dezembro, o mês das festas, íamos à capoeira buscar os galhos de árvore para mamãe montar a árvore do Natal, como fazíam...

Árvore do Natal

natal arvore familia
Quando chegava dezembro, o mês das festas, íamos à capoeira buscar os galhos de árvore para mamãe montar a árvore do Natal, como fazíamos anualmente.

Ao alvorecer do novo ano, nossa residência era preparada com simplicidade. Todos os cômodos da casa eram caiados de branco. Consistia, basicamente, em uma árvore enfeitada com algodão e uma mesinha no canto da sala onde depositavam-se imagens de barro representando a Sagrada Família, com o Menino na manjedoura, alguns bois e carneirinhos.

Essa coisa de vocação umas vezes é muito simples e outras é muito complexa. Há crianças que praticamente já nascem chamadas para um ofí...

PS Carvalho: a estrela sobe

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Essa coisa de vocação umas vezes é muito simples e outras é muito complexa. Há crianças que praticamente já nascem chamadas para um ofício ou arte, como Mozart. E há idosos que nunca descobriram verdadeiramente sua aptidão mais profunda. Claro que Mozart foi um gênio e uma exceção, mas há casos e casos semelhantes. O que quero dizer é que identificar a vocação e poder segui-la com algum êxito é uma dádiva, uma felicidade que se reflete em todos os outros aspectos da vida da pessoa.

Paraíba, 18 de dezembro de 2022

Pauta Cultural (Ep. 68)

Paraíba, 18 de dezembro de 2022

Domingo. Sol à pino. Dia da final da copa do mundo. Brasil torcendo pela Argentina? Muitos farão isto, justificando que o Messi merece...

O corredor do absurdo

Domingo. Sol à pino. Dia da final da copa do mundo. Brasil torcendo pela Argentina? Muitos farão isto, justificando que o Messi merece…

Mas o inusitado perpassa a vida, mesmo para os que insistem em considerar possível manter-se “isentos” dentro de sua bolha do “paraíso terrestre”.

Trânsito lento na mão oposta em frente a UFES. Uma corrida de rua, de um homem só.

Quando Duque e Rex chegaram na nossa vida havia uma forte sensação (pelo menos da minha parte) de que eles iriam ensinar algo valioso a...

Duque e Rex

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Quando Duque e Rex chegaram na nossa vida havia uma forte sensação (pelo menos da minha parte) de que eles iriam ensinar algo valioso a mim e a Patrícia, justamente por serem cegos.

Os dois nasceram com cegueira total, provavelmente causada por cruzas mal planejadas ou mal intencionadas.

“Decorridos dois anos da conquista de Olinda, à qual incendiaram devido às dificuldades de fortificá-la, os neerlandeses ainda se ach...

A difícil conquista da Paraíba pelos holandeses – A segunda tentativa


“Decorridos dois anos da conquista de Olinda, à qual incendiaram devido às dificuldades de fortificá-la, os neerlandeses ainda se achavam cercados no Recife, entenda-se, no istmo (atual bairro do Recife) e na ilha adjacente de Antônio Vaz (atual bairro de Santo Antônio); e na cabeça de ponte estabelecida na extremidade meridional da ilha de Itamaracá, onde tinham construído o forte de Orange. Era só.”
Evaldo Cabral de Mello, “A educação pela guerra” (Penguin / Companhia das Letras, 2014)

Experimente caminhar na calçadinha da praia do Cabo Branco, um pouco antes das 5 horas da manhã, com o Sol no horizonte ainda lutando p...

Para amar João Pessoa

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Experimente caminhar na calçadinha da praia do Cabo Branco, um pouco antes das 5 horas da manhã, com o Sol no horizonte ainda lutando para vencer a noite. Mas tem que ser longe daquela parte onde estão os quiosques, trecho que se parece muito com o antigo Mercado Central em seus piores dias.

… conforme a minha peça teatral "A verdadeira estória de Jesus." LUCAS - Mas ... vejam! Vejam! Lá está o Salvador, ...

A noite de Natal em diálogo dos quatro evangelistas

… conforme a minha peça teatral "A verdadeira estória de Jesus."

LUCAS - Mas ... vejam! Vejam! Lá está o Salvador, chegando!

MATEUS - Onde, onde?

LUCAS - Lá está: por trás dos rolos de fumaça que sobem da névoa suja em que Jerusalém está imersa! Em cima... do outdoor com o perfil de Tibério e os símbolos do comércio e indústria sob a legenda “Pax Romana”.

MARCOS - O que estou vendo (ri) é a Constelação de Virgem .

LUCAS - Exatamente!

Meu querido Gonzaga, Pensei em fazer algo diferente, para falar de seu livro "Com os olhos no chão" . Já não me apetece a ...

Carta a Gonzaga Rodrigues

cronista gonzaga rodrigues flavio tavares
Meu querido Gonzaga,

Pensei em fazer algo diferente, para falar de seu livro "Com os olhos no chão". Já não me apetece a moda acadêmica das resenhas críticas ou da análise e da crítica literária. Não que eu não vá mais fazê-las, mas suas crônicas merecem bem mais. Por outro lado, meu querido, o texto de Antônio Barreto Neto, “Notas de um escritor no seu lugar de cronista”, que você escolheu como prefácio, está atual, apesar dos seus 44 anos, revelando o rigor e a sobriedade de quem sabe das coisas.

Recebi o seu livro como um grande presente de Natal. Sim, porque a cada crônica, sentia-me como renascido e atento à vida, degustando-a a cada frase que expressava, na sua simplicidade, a grandeza e a profundidade do olhar avisado do escritor,
cronista gonzaga rodrigues flavio tavares
ALCR
que se destaca na observação e transformação do que vemos e não percebemos. Completa-o o tom sóbrio do projeto gráfico de Juca Pontes, aliado à economia do lírico traçado de Flávio, num desenho que exprime a contemplação da vida, em que vemos encontrar-se “tudo muito longe, tudo muito perto” (Nino).

Viajo, meu querido amigo, na sua leitura, de braços dados com o lirismo, a política e o engajamento político, a história, o humor, a sensualidade, a discriminação, a fome, a miséria, a doença, a preocupação com o meio ambiente e com o descaso de nossa memória. Viajo com o cronista que se autodefine, que coloca os seus olhos, postos muitas vezes no chão, como o menino a catar moedas, mas com a cabeça ligada nas alturas, na tentativa de entender um pouco desse mundo que nos cerca. Viajo com as formas simples de seu escrever, revelando no corriqueiro e no estilo sem rebuscamentos desnecessários, uma vida dedicada à leitura e à literatura, criando perfis irretocáveis, como o de Nathanael Alves (As goteiras de Nathanael).

Os olhos no chão jamais dirão de um fechamento ou isolamento a respeito do meio circundante e dos seus circunstantes. Eles são capazes de ver a flor que fura as frestas do cimento ou fura o asfalto, como diria o poeta; a beleza da flor e da resistência da vida, que só quer uma desculpa – uma fresta de nada – para poder se insinuar, persistir e se realizar poeticamente à nossa frente, em que poeticamente se juntam “a flor, o pólen, o beijo alado, o fruto” (A floração de setembro).

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Flávio Tavares
Você, meu amigo, amigo que a madureza me deu, é um homem do tempo, que busca vencê-lo através do que escreve. Suas crônicas, em lugar de ficarem aprisionadas na estagnação da efemeridade jornalística, ganham a perpetuidade e a imortalidade do volume em livro, de onde a cada leitura, saem zombando do tempo, na transformação do, aparentemente, banal cotidiano, em verdadeira e atemporal vivência, o mais das vezes, poética, na percepção de que “o mundo, vasto ou pequeno, reside em nós mesmos” (Indo e vindo).

Como não me emocionar, meu amigo, quando a memória se impõe, nos dias já difíceis pelo simples ato de viver, mas que se tornaram mais árduos com a doença, com a internação, com o sanatório e o gosto das coisas que não aconteceram? A crônica da maçã me sabe à Maria Betânia de Capiba, naquele que é um dos versos mais bonitos sobre a saudade – “Beijo, que vive, com esplendor, nos lábios meus, para aumentar a minha dor”. E Jeconias, onde se vê claramente um livro de memórias delineado, que o amigo talvez relute em terminar e, se terminou, em publicar? Crônica esplêndida, no dilaceramento da dor e da aflição, mas permanente no coração, também expressando grande amor. Há ali, mais do que a memória autobiográfica, meu amigo. Há a criação literária inconteste, de que citarei um pequeno trecho:

“Dois dias antes eu chegara na ponta dos pés para ver, receoso, a ruína a que fora reduzido o meu melhor parceiro de conversas. Ele sempre acamado, cheio de travesseiros, animando a tristeza de um, esvaziando a apreensão de outro, como se a prisão ao leito fosse um estágio privilegiado de serena estabilidade.”

O livro tem até título, Gonzaga – Gonzarino – e já está meio escrito, começando bem lá do início, com a seção, devidamente separada das demais crônicas, chamada Meninos. Perdoe-me, meu querido, e não entenda como cobrança a feitura de mais um livro, mas que ele existe, disso eu não tenho a menor dúvida. São lembranças que vivem clamando, ainda que de modo doloroso e permeadas pela morte, a sua libertação, como aquele aboio aprisionado do vaqueiro que se expressa pela última vez, no pavilhão da enfermaria, transformado em parágrafo dos mais dolorosos de uma vida que se esvaiu:

“O canto, o aboio longo e pungente, estava derramado no lençol, ensanguentando a cama numa hemoptise que parecia mais da terra que do meu vaqueiro” (O canto derramado).
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Flávio Tavares
Não posso passar indiferente a essa escrita que transforma a perda em vida, perpetuada pela memória. Escrevo, portanto, Gonzaga, com grande emoção, causada pela leitura quase ininterrupta de um livro que só fortalece a admiração e o carinho que tenho por você. Emoção que se desprende das folhas e me toma, quando leio uma crônica como A mulher da foto. Para mim, meu amigo, é pura magia a delicadeza do seu olhar sobre uma foto antiga, fazendo da estaticidade do flagrante a própria dinâmica da vida, transportando o leitor para um passado que se presentifica. A crônica é pura poesia, que o diga o parágrafo final:

“Não estava previsto no Eclesiastes? A mulher passou, o vestido acabou, o amor também, mas a vida não desceu totalmente a colina. Está aqui na foto, que é sépia, nem tão muda nem tão unidimensional que não possa ter sido ontem o mesmo amor de hoje.”

Em toda a crônica não há o que se costuma chamar de “palavra difícil” ou artificiosa. O texto flui, naturalmente, tranquilo, manso, acompanhando o tempo da foto, o seu ambiente, a cronologia do momento ali gravado. É você, meu amigo, nos falando ao pé do ouvido, deferência com que tantas vezes já fui brindado.

Flávio Tavares

Na narrativa, sente-se uma dupla fruição: a da memória, resgatada pelo olhar, que emana da foto; a fruição do texto, que flui para dentro do leitor, tornando-o espectador e cúmplice do acontecimento, caminhando junto ao momento flagrado, na esperança de desvendar o mistério da mulher “verdinha”, no silêncio da “rua, só e absoluta”, insinuando “vestígios de amor nesse instante fotográfico”. Simples e natural fruição. Grandiosa e incomensurável fruição. Texto para ser emoldurado e posto nas salas de aulas de todas as escolas, como exemplo inquestionável do que é o saber e o sabor do escrever.

Alonguei-me, meu amigo, e poderia ir mais adiante, embalado, sem exageros no que digo, pelo encantamento do seu texto, a me comprovar, com o perigo de me repetir, que a crônica conhece dois momentos importantes:
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Flávio Tavares
um é quando de sua publicação no jornal, aquele “texto de um palmo, escrito às carreiras, com previsão para durar um dia, uma hora, nem sempre sobre assunto grave ou tema republicano” (A morte perdeu seu tempo). O outro, quando ela passa a fazer parte de um livro, dialogando com os outros textos similares que a acompanham, de que vai surgindo, de modo mais claro e uno, para o leitor, o estilo inconfundível do cronista. Enquanto se encontra no jornal, a crônica se isola na diversidade que a circunda, sendo por ela, muitas vezes, engolida, ainda que, momentaneamente, encontre repercussão em algum leitor, no breve instante de sua leitura. Se nesse momento breve, a crônica transcende o aspecto múltiplo e fugaz do jornal, no livro ela se mostrará ainda melhor, por não se dispersar na variedade dos assuntos. E o cronista se revela, em ou outro momento, quando o fato trivial ultrapassa os limites do comezinho, ganhando a autonomia, o viço e a sustança que a poíesis lhe concede.

Você, meu querido amigo, na sua humildade de andar com os olhos no chão e de nunca se lamentar ou mendigar reconhecimento, sempre se fez maior aos meus olhos, com a beleza das coisas ditas e, sobretudo, das não-ditas, com aquele gosto proposital de incompletas, mas cheias das sinuosidades machadianas, que põem a trabalhar a nossa imaginação, viajando nos intervalos incertos da “sem-resistência” da prima Salete (Rosa de Garanhuns), tomada pela possibilidade do amor, a melhor das incertezas que alegram o nosso coração.

Grato, gratíssimo, pelo presente, que acolho com o meu melhor abraço e o espírito em festa.

Do seu,

Milton Marques Junior