Os causos que vez ou outra publico nesta coluna não são invencionices ou frutos de minhas maldades. Chegam-me por “ouvi dizer” e nem posso...

Coronel Belarmino e o Jeep 51

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Os causos que vez ou outra publico nesta coluna não são invencionices ou frutos de minhas maldades. Chegam-me por “ouvi dizer” e nem posso declinar a autoria porque já percorreram tantas bocas e orelhas que não sei há quanto tempo habitam o imaginário de nossa gente. Fazem-me pensar um pouquinho até nos heróis de Homero que ganharam o mundo através da oralidade e assim seus feitos atravessaram gerações.

Não quero comparar o meu Coronel Belarmino com nenhum Odisseu, Nem meu Zuca Perna Torta com um guerreiro como Aquiles. Nada disso, meus personagens não vivem sob a égide dos deuses, são gente comum, mas alguns tiveram que usar de muitas espertezas para que pudessem escapar das armadilhas que nos espreitam pelos becos da vida. As duas criaturas citadas linhas atrás (as minhas e não as de Homero),
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Marko Milivojevic
são figurinhas carimbadas e o meu amigo leitor e querida leitora já devem ter visto desses modelos de gente alguma vez.

Zuca era mineiro de Paraisópolis, Sul de Minas, tinha ali sua propriedade: modesta, de uns quatro alqueires, suas vaquinhas de leite, um tourinho mestiço, um cavalo piquira, engordava seus capadinhos no chiqueiro e muita criação de bicho pequeno pelo terreiro, galinhas, marrecos, patos e um viveirinho para as codornas. Na varanda o sabiá de estimação, bicho de boa cantoria e belo parecer. No quintal o mastro com bandeira de São Pedro, o santo de sua devoção, jardinzinho bem cuidado com begônias e margaridas. Casa caiada todos os anos para dar boa aparência à propriedade. Era caprichoso, Zuca Perna Torta. Ele e a consorte, Dona Rivaldete, levavam a vida sem abastança mas com muita dignidade, eles dois e mais dois manezinhos e uma maricotinha que faziam a alegria do casal. Nosso amigo era bom de prosa, cheio dos chistes e era a alegria nas rodas de conversa. Tinha resposta pronta para tudo, Ninguém levava vantagem com ele numa tertúlia quando a vizinhança se reunia para prosear. E é aí que a coisa vai pegar.

Já Belamirno, ganhara por herança a patente do pai que nos idos dos tempos fora da Guarda Nacional. Possuía um armazém de secos e molhados lá em Taubaté. Homão de quase dois metros, barba sempre por fazer, charuto à boca e cuspia grosso quando iniciava alguma discussão mais acalorada. Falava grosso também. Grosso e alto. Cheio de contar vantagens e ai de alguém que duvidasse de seus exibicionismos.

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Majtec
Quis o destino que essas duas criaturas viajassem lado a lado no bonde que ia de Pindamonhangaba até Campos do Jordão. Nem a gôndola atravessara o Paraíba para iniciar a subida da serra e os dois já estavam numa prosa animada. Zuca mais comedido, já o coronel, todo pabuloso contando vantagens que não acabava mais.

O nosso mineirinho só observando. Apenas dissera que passara em Pinda para ver uns parentes, visitar uma prima no Sanatório em Campos e depois voltar a Paraisópolis. Cuidar do meu sitiozinho, pois o senhor sabe com é, os olhos do dono é que engordam o gado e tenho duas vaquinhas paridas, carece eu estar por lá para ficar de olho nos bezerrinhos, disse Zuca esticando um pouco a conversa.

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EF Campos do Jordão
Belarmino, não queria ficar por baixo e atacou com essa:

— Sou pecuarista, crio gado gir na minha fazenda em Goiás. Estou com mais de mil vacas em lactação.

— Quantas vacas dando leite? Todas com bezerrinho? — Achou meio estranho um pecuarista daquele naipe, de tantas cabeças no pasto, subindo a serra de bonde e dono de um armazém mixuruca de duas portas em Taubaté. Esticou a prosa para pegar de jeito o falastrão: – É muito gado que o senhor tem.

— Nem estou contando os touros, também crio cavalos. Tenho manga-larga marchador, entre garanhões, éguas e potrinhos, umas quarenta cabeças. Mas gosto mesmo de minhas vaquinhas. Meu pai foi quem introduziu o gir no Brasil em 1911.

— Então a fazenda do senhor deve ser muito grande.

— É. Para o senhor ter uma ideia, saindo no meu jeep 51, da sede até a divisa mais próxima gasto dois dias e duas noites. E isso só dando uma paradinha pras necessidade e pra comer.

Spencer David
Foi então que Zuca deu sua espetada:

— Entendo o padecimento do senhor. Também tive um jeep desses.

Belarmino não disse mais coisa alguma. Franziu a testa e se calou... Parece ter entendido que foi contar vantagens para a pessoa errada.

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