É suficientemente tranquilo para mim o fato de negar a multiplicidade de experiências amorosas e qualquer incredulidade a esse respeito ...

Da mobilidade dos objetos cotidianos

É suficientemente tranquilo para mim o fato de negar a multiplicidade de experiências amorosas e qualquer incredulidade a esse respeito em nada me aflige. Mesmo com a vida modificada por certas circunstâncias, desconheço o movimento dos móveis em casa estranha e penso que um relacionamento estável nada tem de extraordinário. Desconheço os efeitos patentes do amor produzidos fora do círculo habitual da minha casa. O amor para mim foi desenhado em um âmbito bastante restrito.
vasos objetos van gogh natureza morta
Van Gogh ▪ 1887
Ainda preciso conhecê-lo fora dos muros do calor materno para experimentar outras formas de se doar a alguém. Também meus objetos desconhecem os modos de morar e costumes de outras pessoas, principalmente as masculinas. Meus objetos estão habituados a viver em solo feminino desde quando nasci. Nunca se mudaram de casa. Conhecem apenas o amor de três gerações de mulheres fortes e decididas.

Se eu dividir meu chão com alguém, meus objetos irão comigo. Sentirão o toque áspero e uma sensação de estranhamento. O novo lhes provocará e talvez não se sintam em casa no início. A alma deles ficará atribulada, mas precisarão aprender com a nova experiência colocada, por enquanto, como possibilidade. Ainda não precisam ficar com os nervos à flor da pele se os atos provocativos evitam tocá-los. A escuta me parece suficiente para a vida específica que carregam. Aconselho-os apenas a ficarem de tocaia caso algo me ameace. Dividem espaço comigo vasos que nunca foram garrafas, peças de artesanato coreano e de cerâmica japonesa compradas em viagens. Gosto da ideia de aliar beleza e utilidade nestes objetos. Pelo menos não ficam condenados apenas a enfeitar minha casa. A sensação de um corpo repleto de inutilidade não me parece das mais agradáveis.

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Van Gogh ▪ 1890
A relação com meus objetos é dialética e assim será com o meu sexo oposto, com quem estarei conectada. Neste caso, a rivalidade não existirá. Estarei dividida entre o amor e o ordinário cotidiano. Inteira para ele e para meus objetos. Um pouco de mim reside neles, receptáculos de projetos e contraditórios. Se estou na rua, estou também na cerâmica presa à escrivaninha; se estou em espaços coletivos, alguns segredos no papel dobrado repousam no vaso. Estou lá e cá. Por isso é fácil me encontrar, onde quer que eu vá, sem antagonismos. Sou anárquica e meus objetos me aceitam como eu sou. Se meu casamento não der certo um dia, estarei de volta à minha casa de origem, com todos os meus objetos-receptáculos de segredos. Confio plenamente neles.

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  1. Seu texto me lembrou, o tempo todo, um dos mais belos livros de poesia que li nos últimos anos, A NITIDEZ DAS COISAS, do gaúcho José Eduardo Degrazia. Veja isto:
    -
    “Presta atenção nos objetos da sala
    que parecem adormecer ao crepúsculo,
    olha o relógio que indaga mudo o tempo surpreendido,
    olha a cortina que o vento da tarde ainda movimenta,
    olha a cadeira em si mesma sentada e recolhida para a noite definitiva,
    o tapete que ainda se enrola nos pés das visitas e recebe a última gota de vinho derramado, a última lágrima, o último tilintar do sino,
    o vaso de flores cada vez mais opaco na sua armadura de vidro,
    as próprias flores que se vão aos poucos estiolando na obscuridade”,
    etc,
    etc,
    etc .
    Vocês dois têm o mesmo amor pela particular beleza das coisas.

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