Moda é moda, mas há cada uma... Moda de andar com a calça jeans rasgada. Tem coisa mais ridícula? Só perde mesmo para a calça boca-de-sino...

A gravata borboleta

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Moda é moda, mas há cada uma... Moda de andar com a calça jeans rasgada. Tem coisa mais ridícula? Só perde mesmo para a calça boca-de-sino lá nos anos 70 e que era acompanhada do sapato de salto carrapeta. Um horror! Nesse quesito moda, sou conservador. Por exemplo: gosto da tal da gravata, pois acho elegante e de bom tom usá-la. Sempre que posso, lá estou eu todo pimpão, devidamente engravatado. Mas para mim, o máximo da elegância são os suspensórios combinando com a gravata borboleta. Mas adulto, nunca os usei e nem usarei esses acessórios juntos ou separados. Invejo quem o faz e só não o faço por culpa de um irmão e de uma tia. Coisas de família, mas vou contar.

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Elin Gann
Carnaval em Campos do Jordão era muito animado nos meados do século passado. Um tio por parte de pai, o bonitão da família, estava todo faceiro numa dessas folias quando achou de arrastar suas asinhas para os lados de uma turista graciosa que estava ali também na batalha de confetes e serpentinas. Esse tio, um mocetão, já professor e há pouco com a idade saída dos vinte, muito danadinho, apresentou sua candidatura e lá foi dar uma borrifada de lança-perfume no cangote da moça. Para quê? A moça se tornou minha tia e isso deve já fazer pouco mais de sessenta anos. Estão me entendendo ou preciso desenhar? Casaram-se. Falemos desses dois.

Antes de se tornar um rapagão gentil e cheio de boniteza, esse tio foi criado na serra, calçando botinas desde pequenino. Ainda vestindo suas flanelas aprendeu buscar calor junto ao fogão à lenha de onde saiam as refeições, estourava-se o pinhão e puxava-se prosa à noitinha. Pegou costume de levantar cedinho, não temer o ruço e nem a geada que abraçavam aquelas montanhas, o que não o impedia de ir ao Grupo aprender as primeiras letras. Assim foi crescendo e ganhando tamanho até se formar professor.

Naquela casa de madeira, sob o teto que o próprio pai construíra, ele e mais cinco irmãos cresceram sob a égide da brabeza do patriarca e dos conselhos da mãe. Filho e filha para meu avô, não podiam se esconder de trabalho e deviam se fazer merecedores de respeito. Era a lei naquela casa.

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Cecilia Skaf
Mas a gente sabe como é esse tal de amor. O jovem professor, caboclinho nó de pinho lá da Mantiqueira foi se apaixonar por aquela mocinha de sangue italiano, com sotaque lá da Mooca, menina bem nascida, tocava piano, estudara em colégio de freiras só frequentado por meninas de fino trato. Aquela mesma que conhecera no carnaval. Aconteceu que “la famiglia degli italiani” acolheu com carinho o mancebo lá da serra. O casamento foi um festão para ninguém botar defeito.

Agora meu irmão. Tinha à epoca uns seis anos, mas era teimoso que só. Minha mãe comprara em uma loja de armarinhos um par de gravatinhas borboleta. Uma para ele, outra para mim. Eu cheguei a usá-la em algumas ocasiões. Meu irmão onde quer que fosse, dava um jeito de colocar a tal gravatinha. Aprontava a maior birra se alguém tentasse impedir o uso daquele adorno.

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Andre Hunter
Então, veio o casamento desse meu tio. A caipirada lá da minha casa ia finalmente conhecer a tia que para nós chegara com a fama de ser muito “chic” e rica na mesma proporção. Minha mãe recolheu nossas parcas economias e comprou nossa “roupinha de missa” para aquele evento cheio de pompas e circunstâncias. Na capital paulista ficamos na casa de um parente nos aprontando para a ocasião. Meu pai, como se diz, pegou ar quando viu meu irmão todo embonecado com sua gravatinha borboleta.

— Tira esse negócio ridículo do pescoço, seu caipira. Que coisa mais horrorosa. Quando sua tia olhar você vai pensar: “Lá vem a caipirada...”. Tira logo isso.

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Fuel
— Não tiro – e abriu o maior berreiro. Não tirou.

— Então fica com essa porcaria no pescoço. Quando sua tia conhecer você, vai lhe dar um beijo , segurar as pontas dessa gravata e vai dizer: “Que gravatinha mais linda!”. Mas por dentro vai estar pensando: “Que coisa horrível esse caipirinha de gravata!”.

Depois da cerimônia na igreja, quando vimos a tia só de longe, chegamos à recepção. Meu tio, todo gentil, trouxe a noiva e apresentou a cunhada, o irmão e em seguida começou apresentar os sobrinhos: eu, minha irmã, a irmã caçula e finalmente o teimoso. Toda cheia de carinho, ela olhou para ele e com muita ternura, deu-lhe beijo na bochecha e em seguida, com uma mão em cada aba da gravatinha foi dizendo:

— QUE GRAVATINHA MAIS LINDA!

Meu irmão choramingou o resto da festa, mas não tirou a gravata. Meu pai falou ainda: “Eu não disse pra você?” E eu... Bem, eu nunca mais tive coragem de usar uma gravata borboleta.

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