Mas que coisa absurda que proposta indecente não sabes que eu sou gente com presente e passado? Para ficar ao teu lado que...

Lições da calmaria

 
 
 
Mas que coisa absurda que proposta indecente não sabes que eu sou gente com presente e passado? Para ficar ao teu lado queres um mata-borrão que te absorva inteiro tua tinta e teu tinteiro… Agradeço o que vivi meu passado me orgulha não trago arrependimentos não sinto culpa ou tortura

Las cosas no son como las vemos, sino como las recordamos. Ramon del Valle-Iclán O dia nem bem se enchia de sol e ela chegava à praia ...

Las trampas de la vida

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Las cosas no son como las vemos, sino como las recordamos.
Ramon del Valle-Iclán

O dia nem bem se enchia de sol e ela chegava à praia com o terço. Andava de um lado para o outro, quase no mesmo lugar: em frente ao único bar daquela praia de pouca gente. Muita roupa e muito negro para aquele sol tropical e sua pouca idade. Parecia rezar. Sempre. Como se aquele caminhar diário fosse uma espécie de peregrinação, como se a praia do Bessa fosse Santiago de Compostela.

Capítulo I Meus pais, a Rússia e dias felizes de deslumbramento Retorno sempre às minhas lembranças, como filho pródigo do afeto e d...

Recordações

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Capítulo I
Meus pais, a Rússia e dias felizes de deslumbramento

Retorno sempre às minhas lembranças, como filho pródigo do afeto e da felicidade vivida na infância. Transpira em mim sempre o prazer de revolver emoções por vezes pesarosas que latejam num distante passado. Diante de mim tenho a cumplicidade de uma xicara de café ladeada por um cigarro que arde solitário e sonolento, e ambos acalentam os meus nervos, que resistem à solidão, impregnados de fumo e de cafeína. Solitária, uma página em branco se exibe provocativamente, expondo-me a sua virgindade.

  (Para Carlos Pereira de Carvalho) Muitos vieram por terra, outros surtiram por mar, nuvens de flechas daqui trovões de pólvora...

Rio ou braço de mar?

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  (Para Carlos Pereira de Carvalho)

Muitos vieram por terra, outros surtiram por mar, nuvens de flechas daqui trovões de pólvora de lá Parahyba, Parahyba, rio ou braço de mar?!
Foi repente, recaída de adolescente.

Surtiu-me num momento da escrita ainda pela datilografia, o olho metálico do tipo a bater fixe na fitinha tisnada de preto ou vermelho no branco do papel.

Estas tiradas que o arrepio do rio me soprou, numa varanda ao poente do Hotel Globo, são do tempo em que a leitura dos cronistas velhos da cidade conseguira me empaludar com sua história, fazendo baixar alguma alma ou muitas delas sobre o escuro lodo secular daqueles telhados.

As possibilidades da engenharia genética são ilimitadas. Li que num futuro próximo será possível...

A volta do rabo

cronica humor dna rabo clonagem
As possibilidades da engenharia genética são ilimitadas. Li que num futuro próximo será possível fazer clonagens retrospectivas e, ativando a memória do DNA, recobrar determinadas características que as espécies perderam ao longo do processo evolutivo. Veio-me então à cabeça a possibilidade de readquirirmos nosso rabo.

O rabo nos traria inúmeras vantagens neste mundo regido pelo consumo. Quantas vezes, no supermercado, não deixamos de comprar mais coisas porque só temos duas mãos? O rabo funcionaria como uma terceira.

Há cem anos, em 1º de junho de 1922, nascia no Rio de Janeiro talvez a artista mais completa que o Brasil já teve. Refiro-me a Bibi Ferrei...

Cem anos de Bibi

Há cem anos, em 1º de junho de 1922, nascia no Rio de Janeiro talvez a artista mais completa que o Brasil já teve. Refiro-me a Bibi Ferreira, de nome Abigail Izquierdo Ferreira, ou simplesmente Bibi, primeira e única. Uma verdadeira estrela, na mais completa acepção da palavra. Uma diva, como se costuma chamar as deusas de Hollywood. Foi atriz, diretora, cantora e outras coisas mais no mundo do teatro e do espetáculo, sempre com a marca de um talento extraordinário, daqueles que beiram a genialidade, sem nenhum favor. Quem teve o privilégio de vê-la no palco sabe que é isso mesmo, sem nenhum exagero.

Paraíba, 29 de maio de 2022

Pauta Cultural (Ep. 43)

Paraíba, 29 de maio de 2022

No esfacelamento da União Soviética, 1991, o historiador Eric Hobsbawm põe o fim do século XX. Não à toa, ele chamou o período 1914-1991...

Era dos Extremos

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No esfacelamento da União Soviética, 1991, o historiador Eric Hobsbawm põe o fim do século XX. Não à toa, ele chamou o período 1914-1991 de Era dos Extremos, pois nele se experimentou de tudo: de revoluções a independências de colônias; de ascensões e quedas de ditaduras de esquerda e de direita a duas guerras mundiais; de pandemias a criação e utilização de armas até então jamais imaginadas; de genocídios a viagens espaciais — tudo enquanto se consumia drogas de todo tipo e o ser humano chegava à superpopulação, causando desertificação, poluição, aquecimento global, enquanto — como resposta — libertava a mulher do próprio útero, o PIB mundial per capita se quintuplicava - num crescimento econômico maior do que o obtido em todos

Por volta de 1820, Portugal vivia uma grave crise econômica. Havia treze anos que a Corte portuguesa se transferira para o Brasil, fugindo...

Mulheres de Areia

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Por volta de 1820, Portugal vivia uma grave crise econômica. Havia treze anos que a Corte portuguesa se transferira para o Brasil, fugindo dos exércitos de Napoleão. Desde então, a colônia americana ocupava, cada vez mais, um papel central na administração lusitana. Em agosto de 1820, setores do comércio e do governo, em Portugal, sentindo-se prejudicados com o fato de serem comandados a partir de uma colônia, iniciaram, na cidade do Porto,

NETO ANUNCIAÇÃO (Canto I - Eu Neto) Quando vim ganhei camisa oito Fui tratado qual rei, majestade Não trazia malícia o...

Sobre netos e amores

poesia paraibana avos netos amor
NETO ANUNCIAÇÃO
(Canto I - Eu Neto) Quando vim ganhei camisa oito Fui tratado qual rei, majestade Não trazia malícia ou maldade Via tudo só meu, príncipe afoito Meu reinado, em meses, dezoito Vi meu trono usurpado e notei Que entre tantos não seria rei Ser no máximo um meia armador Nasci NETO, hoje filho e genitor E amanhã serei vô, agora sei

É água, é água, é água, é água... (...)... é água... Tinha sido a última tirada de espírito em voga pela Freguesia de Santa Maria Madalen...

É água, é água...

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É água, é água, é água, é água... (...)... é água... Tinha sido a última tirada de espírito em voga pela Freguesia de Santa Maria Madalena. Datava ainda de quando arrancaram o imberbe “Capitão Berinha” ao seu quotidiano sem graça – e naquele ano sem uma gota de chuva –, para em seguida carregarem-no como ao Cristo de Bruxelas, de Ensor, no meio da pândega. Em um velho caminhão, a alegre comitiva marchara por cerca de 350 quilômetros no sentido da imensa barreira geográfica. A tão falada.

Amanhã, dia 29 de maio, completam-se 569 anos da tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos, sob o comando de Maomé II (Mehmet ou Mehm...

O maior feito da história

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Amanhã, dia 29 de maio, completam-se 569 anos da tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos, sob o comando de Maomé II (Mehmet ou Mehmed II). Trata-se, sem dúvida, do maior feito registrado pela história. Constantinopla, antes Bizâncio, foi construída pelo imperador romano Constantino, o Grande, no século IV da era cristã (330), tornando-se uma das mais poderosas cidades do mundo. Com a muralha inicialmente construída por Constantino e reforçada por Teodósio (413) e tendo uma proteção natural do mar, no entorno do Chifre de Ouro, Constantinopla era considerada uma cidade inexpugnável, ao ponto de, antes de sua queda, resistir ao assédio de 23 exércitos, que pretenderam tomá-la, e fracassaram.

Pra começo de conversa a briga não existe. Você não vai ao supermercado comprar um quilo ou um metro de briga. Portanto, desde o momento ...

A briga sempre ganha

briga arenga disputa
Pra começo de conversa a briga não existe. Você não vai ao supermercado comprar um quilo ou um metro de briga. Portanto, desde o momento em que uma briga nasce, ela já está no lucro. Ganhou vida da mesmíssima maneira que um bebê recém-nascido. São necessárias duas pessoas para criá-la, só que ao invés das crianças geralmente produtos de atos de amor, as brigas são fecundadas quando a inteligência dá uma pausa.

SOLIDÃO Na fuga, o sonho se desfez. E o desejo, de tão forte, quase me consumiu. E o querer mudar o destino fez...

Desatino

SOLIDÃO
Na fuga, o sonho se desfez. E o desejo, de tão forte, quase me consumiu. E o querer mudar o destino fez surgir a dúvida. Que fazer agora, perdida, ao querer me achar?

Aos programadores musicais da extinta Rádio Arapuan AM, Gomes Filho, Arnaldo Soares e Waldemar Paulo Esses programas policiais, no rá...

No tempo da delicadeza

nostalgia radio ondas medias
Aos programadores musicais da extinta Rádio Arapuan AM, Gomes Filho, Arnaldo Soares e Waldemar Paulo

Esses programas policiais, no rádio e na televisão, de manhã, de tarde e de noite, exatamente na hora de café da manhã, do almoço e do jantar, arrastam todo mundo para o clima pavoroso do lado mais sórdido da sociedade.

Por falta de opção, a população adquiriu o hábito de sintonizar esse tipo de programa, sendo envolvida por uma atmosfera violenta, aterrorizante, desde as primeiras horas do dia. Resultado: Quem ainda está na cama, meio sonolento, se imagina na Ucrânia. Quem já está acordado, fica com receio de pegar o ônibus para o trabalho ou ir à escola.

Numa guerra quem primeiro morre é a verdade. Não busque a autoria da sentença, você se cansará. As opções vão de Ésquilo , o pai da tragéd...

A primeira vítima

historia guerra mapa ucrania
Numa guerra quem primeiro morre é a verdade. Não busque a autoria da sentença, você se cansará. As opções vão de Ésquilo, o pai da tragédia grega, até Snowden, o ex-agente da CIA, o sujeito em quem o governo americano quer pôr as mãos por haver dedurado o esquema de espionagem que ainda hoje escandaliza o planeta. Inimigo, ou amigo, ninguém escapa dos grampos do Tio Sam, mostrava Snowden nos idos de 2013.

Quando editei o “Correio das Artes” pela primeira vez, Antonio Carlos Secchin foi um dos poetas entrevistados pelo jornalista Jorge de Aqu...

''O poeta é uma ilha cercada de poesia alheia''

Quando editei o “Correio das Artes” pela primeira vez, Antonio Carlos Secchin foi um dos poetas entrevistados pelo jornalista Jorge de Aquino Filho para a série “Rumos da Poesia Brasileira Hoje”. À época, ele havia lançado o livro Elementos (Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1983), de poesia, ao qual acrescentaria, entre outros, Poema para 2002, Diga-se de passagem e Todos os ventos. Já como ensaísta, publicou João Cabral: a poesia do menos, Poesia e desordem, Escritos sobre poesia & alguma ficção, Memórias de um leitor de poesia, João Cabral: uma faca só lâmina e Papéis de poesia.

Atazanando a memória eletrônica que se dispõe a substituir as falhas que a física já me apresenta, encontrei um recorte de jornal (ah! in...

''Virou zona''

Atazanando a memória eletrônica que se dispõe a substituir as falhas que a física já me apresenta, encontrei um recorte de jornal (ah! instrumento de tanta utilidade e que tanta falta nos faz, nos dias de hoje), em que, sob o título acima, do qual me apropriei indevidamente, o combativo jornalista Rubens Nóbrega (Correio da Paraíba, 20/Mar/2004) dá eco ao combate que os residentes e veranistas da praia do Jardim América, hoje Bairro do Bessa, empreenderam, para livrar a praia da invasão deletéria de bares e assemelhados que se verificava por ali.

50 canções compõem a sinfonia que rege o universo, a girar ao redor do livro. Gesto e sentimento, escrita e pensamento, leitura e conhe...

50 canções de amor ao Livro

homenagem cinquentenario livraria luiz paraiba
50
canções compõem a sinfonia que rege o universo, a girar ao redor do livro. Gesto e sentimento, escrita e pensamento, leitura e conhecimento dão voz a páginas folheadas com as mãos sensíveis e sinceras, que, a todo instante, sugerem o incrível voo da imaginação.

O tempo é o verdadeiro companheiro das palavras que bordam o ambiente acolhedor e escolhido da livraria, a exercer espelho e a oferecer vazão à extraordinária

As palavras têm força. Feito uma nau numa tempestade elas balançam, equilibram-se entre as vagas. Engolidas ou vomitadas, elas fazem mal; ...

No giro do disco, a palavra

As palavras têm força. Feito uma nau numa tempestade elas balançam, equilibram-se entre as vagas. Engolidas ou vomitadas, elas fazem mal; soltas aleatoriamente, sem sentido, sem efeito retornarão; ditas na dose correta, tornam-se um prato saboroso, uma iguaria que alimenta a alma e o corpo. É como o giro do disco na vitrola. A suave música embriaga, ponteia a estrada, mas não mata. A canção faz uma pausa ao término do lado, A ou B, dentro ou fora, silêncio.

A cena é dos anos 1950. A Rádio Tabajara está no auge, exportando Severino Araújo, importando Pascoal Carrilho, confirmando Jackson do P...

Por trás do palco

A cena é dos anos 1950.

A Rádio Tabajara está no auge, exportando Severino Araújo, importando Pascoal Carrilho, confirmando Jackson do Pandeiro, Marlene Freire, Linduarte Noronha, Jaguaribe e Cruz das Armas descendo pelo bonde para pegar as cadeiras da frente do auditório, já tomadas pelos Falcão, Falcone, Cantalice e Arruda Melo das ruas do Centro.

Ednaldo do Egyto é adolescente de Cruz das Armas e entra no auditório da Tabajara, desvendando mistério, a fama.

A Paraíba fez noite com Agustín Lara, fez noite com Tomy Dorsey. O que a mídia traz hoje por satélite, a Tabajara e o Santa Rosa faziam sentar conosco às mesmas mesas e cadeiras.

Quem seria tão impoluta figura? Temos primeiro que apresentá-lo para só depois irmos ao causo. Vamos lá. Embora houvesse se tornado um hom...

O causo de Geraldinho Jabuti

conto literatura paraibana
Quem seria tão impoluta figura? Temos primeiro que apresentá-lo para só depois irmos ao causo. Vamos lá. Embora houvesse se tornado um homenzarrão alto e forte como um búfalo, por ser filho de um tal de Geraldo e xará do pai nos cartórios e na pia de batismo, natural que quando pequenino fosse tratado no diminutivo. Ficou sendo o Geraldinho e por força do hábito dos mais próximos, cresceu Geraldinho e Geraldinho ficou. O apodo fixado ao nome é fácil de explicar. Pensem um homem sossegado. Mais que Geraldinho? Impossível! Foi daí que veio o apelido. Diziam as más línguas que puséssemos Geraldinho tomando conta de dois jabutis, pelo menos um deles iria fugir. É essa a provável causa do apelido. Pelo menos é o que penso. Agora o causo.

— Mãe, vamos ver a exposição do Chagall? O convite do filho – duplamente especial por ser ele um artista – chegou como sopro de ar fresc...

Um violinista sem fronteiras

pintura exposicao marc chagall surrealismo
— Mãe, vamos ver a exposição do Chagall?

O convite do filho – duplamente especial por ser ele um artista – chegou como sopro de ar fresco num dia em que a comédia humana se exibia em episódios cada vez mais despudorados nas redes sociais. E era Chagall! Eu jamais havia visto um quadro dele ao vivo. E isso, bem sei, muda tudo. Sem falar que é o pintor judeu por excelência e eu ansiava por sentir a alma judaico-russa transbordando nas telas.

Você já tentou abrir a tela vazia do seu computador e se determinar a escrever qualquer coisa, algo simples, coloquial, besteiras de amor,...

Paixão

romance solidao carinho beijos
Você já tentou abrir a tela vazia do seu computador e se determinar a escrever qualquer coisa, algo simples, coloquial, besteiras de amor, paixão ou olhares que lhe fugiram?

Não é tão simples assim. Você escreve, apaga, torna a escrever, apaga e nestes infinitos gestos vão-se os minutos, os segundos e acaba a primeira hora.

Quando o jornalista e imortal da Academia Paraibana de Letras, Helder Moura, publicou O incrível testamento de Dom Agapito , em 2018, fui ...

Helder, surpreendente

helder moura critica literatura paraibana
Quando o jornalista e imortal da Academia Paraibana de Letras, Helder Moura, publicou O incrível testamento de Dom Agapito, em 2018, fui tomado de surpresa. Acostumado às narrativas dele sobre política, em jornal impresso ou na televisão, sempre com desenvoltura e abalizados pontos-de-vista, o romance surpreendeu pelo conteúdo e pela forma da narrativa.

Lindas lembranças que têm se assenhorado de minhas noites — e possivelmente do “inconsciente” aliado à minha percepção — me fazem exalta...

Em busca da minha infância recifense, linda e finda

nostalgia infância programa auditório
Lindas lembranças que têm se assenhorado de minhas noites — e possivelmente do “inconsciente” aliado à minha percepção — me fazem exaltar o feliz momento, sabendo que daqui para frente a vida me regateará menos tempo. Passo a valorizar o que ainda pode me restar de felicidade em minha adormecida memória. Imagens esquecidas em profusão levam-me ao Recife, e a um tempo ímpar que lá vivi. Retorno à ruas da Aurora, do Imperador e da Imperatriz, com todos os seus cafés e sorveterias. Vou até a Viana Leal, com a sua icônica escada rolante, e também vejo a Sloper, tão reverenciada por minha mãe.

“Vandalismo” é o único poema com características simbolistas que aparece no “Eu”. Os outros o poeta deixou de lado, e os críticos hoje lhe...

Vandalismo

augusto dos anjos poesia paraibana critica literaria
“Vandalismo” é o único poema com características simbolistas que aparece no “Eu”. Os outros o poeta deixou de lado, e os críticos hoje lhe dão razão: embora tecnicamente bem-feitos, eles pouco acrescentam à obra do paraibano. Refletem uma temática comum à época e apresentam um estoque de imagens que estão longe de caracterizar o Augusto dos Anjos que viríamos a conhecer e admirar.

O leitor sabe. Há muitos momentos na vida em que o que mais queremos, o que mais precisamos é simplesmente fugir da realidade que nos opri...

Fugir da realidade

fuga realidade escolha ilusao
O leitor sabe. Há muitos momentos na vida em que o que mais queremos, o que mais precisamos é simplesmente fugir da realidade que nos oprime, nos incomoda, nos torna infelizes. Essa realidade pode consistir num problema sério ou apenas num certo cansaço com as coisas e situações do dia a dia. A situação do país, por exemplo, martelando nosso juízo cotidianamente nos jornais (os que restam) e na televisão. Uma tediosa repetição de notícias deprimentes, suficiente, por si só, para levar qualquer um à depressão. Que fazer então?

Paraíba, 22 de maio de 2022

Pauta Cultural (Ep. 42)

Paraíba, 22 de maio de 2022

Muita coisa tem diminuído no mundo. Meus amigos reclamam que o biscoito wafer mais parece uma hóstia recheada. Minha tia afirma que o xamp...

Minimalismos esdrúxulos

minimalismo comercio reducao
Muita coisa tem diminuído no mundo. Meus amigos reclamam que o biscoito wafer mais parece uma hóstia recheada. Minha tia afirma que o xampu Seda rendia muito, hoje passa direto por ele no Supermercado, diz que vem muito pouco. Sachê de cachorro, daqui a pouco, só vai dar para uma lambida, reclama um certo veterinário.

Meu amigo viajadeiro reclama das poltronas de avião e diz que a rodelinha do biscoito recheado parece mais bolinho de goma! As pastas de dente eram volumosas quando vinham em recipientes de metal. Eu mesmo me recuso a

Categorizados por Allan Kardec como fenômenos de emancipação da alma, o sono e os sonhos são indicativos de que o Espírito encarnado nu...

O sono e os sonhos

sono sonhos mediunidade espiritismo allan kardec
Categorizados por Allan Kardec como fenômenos de emancipação da alma, o sono e os sonhos são indicativos de que o Espírito encarnado nunca está inativo, ainda que mantido ligado ao corpo físico pelo perispírito:

Durante o sono, apenas o corpo repousa, pois o Espírito não dorme; aproveita-se do repouso do corpo e dos momentos em que a sua presença não é necessária para atuar isoladamente e ir aonde quiser, no gozo então da sua liberdade e da plenitude das suas faculdades. Durante a encarnação, o Espírito jamais se acha separado completamente do corpo; qualquer que seja a distância a que se transporte, conserva-se preso sempre ao corpo físico por um laço fluídico , que serve para lembrá-lo de retornar a este, desde que a sua presença ali se torne necessária. Somente a morte rompe esse laço. [1]

Era 1960. Da casa do meu avô, em Alagoa Grande , no interior da Paraíba, eu ouvia, incontáveis vezes durante o dia, vindo de um alto-falan...

Um esquecido cantor popular

musica brasileira antiga bolero anisio silva
Era 1960. Da casa do meu avô, em Alagoa Grande, no interior da Paraíba, eu ouvia, incontáveis vezes durante o dia, vindo de um alto-falante instalado na praça da cidade, o som daquela música que nunca me saiu da cabeça. Menino, que ainda não sabia que existiam outras dores além das dores físicas, eu não entendia o que dizia a letra da canção, mas as suas palavras ficaram em mim para sempre:

Como é bom ouvir grilos e sapos nas noites úmidas que antecedem o doce e adorável inverno... Nenhum “insight”, nenhum estado “alfa”, ou se...

Bobagens que não interessam

crepusculo contemplacao cantoria noite chuva
Como é bom ouvir grilos e sapos nas noites úmidas que antecedem o doce e adorável inverno... Nenhum “insight”, nenhum estado “alfa”, ou sequer uma emoção mais sutil podem ser experimentados se não pularmos a cerca do cotidiano, da rotina, da indiferença, ouvir a prazerosa voz do silêncio total.

“Muitos serão chamados, poucos serão escolhidos”. Não, não se trata da passagem bíblica, encontrada no Evangelho de Mateus (22,14), sobre...

Augusto dos Anjos, leitor de Haeckel

literatura ciencia biologia anemonas haeckel augusto dos anjos
“Muitos serão chamados, poucos serão escolhidos”. Não, não se trata da passagem bíblica, encontrada no Evangelho de Mateus (22,14), sobre a salvação dos que se aplicam ao trabalho de transformação, de modo a alcançar o reino de Deus. Na realidade, é uma citação do ateu Ernst Haeckel, sobre a luta cruel e sem piedade, que se trava na natureza, para a sobrevivência (HAECKEL apud WILLMANN, Rainer e VOSS, Julia.

ECOS Há sons que nos acompanham, indefinidamente, mensagens subliminares, para sempre em nossa mente. Não me esqueço da t...

Memória

poesia paraibana livro entre parenteses evocare
ECOS
Há sons que nos acompanham, indefinidamente, mensagens subliminares, para sempre em nossa mente. Não me esqueço da toada da chuva grossa no telhado da velha casa onde por muitos anos morei. Como não lembrar da melodia dos dobrados executados pela Filarmônica nas alvoradas inesquecíveis pelas ruas da cidade? Ficou também o repique do sino da igreja avisando que uma criança estava sendo sepultada ou que a missa iria começar.

Quando inexistem pensamentos e diretrizes saudáveis, fica impossível ter uma mente em harmonia. As dores não conseguem assumir suas real...

Desejar, querer…

culpa forca vontade desejo
Quando inexistem pensamentos e diretrizes saudáveis, fica impossível ter uma mente em harmonia. As dores não conseguem assumir suas realidades de degenerações. A ilusão, como cortina de fumaça, impede que o equilíbrio existencial aconteça.

É possível superar e conviver com a dor, para isso se faz necessário refletir e renovar as energias de se bem-querer.

É história com quase 70 anos. Não sei dizer, exatamente, que idade eu então completava. E, creiam-me, não é para escondê-la. Mas acordei n...

Rasantes

É história com quase 70 anos. Não sei dizer, exatamente, que idade eu então completava. E, creiam-me, não é para escondê-la. Mas acordei naquela manhã de 6 de junho com um movimento incomum entre a cozinha de casa e o forno da nossa padaria, um percurso curto pela mesma calçada. Um peru rechonchudo e algumas galinhas, tudo isso temperado e disposto em bandejas feitas com latas de óleo (as mesmas onde se assavam os pães doces), iam e vinham para a guarda da minha mãe. E que ninguém ali metesse a mão até a hora do almoço.

O retrato, um instantâneo em preto e branco surrupiado de algum arquivo de jornal, cai da minha pasta de guardados. O que pretende Zé Ra...

Como uma folha solta

jornalismo sindicalismo
O retrato, um instantâneo em preto e branco surrupiado de algum arquivo de jornal, cai da minha pasta de guardados.

O que pretende Zé Ramalho dizer-me?

Está aqui do jeito que o conheci, suponho que nos seus cinquenta anos. Terno branco, gravata borboleta, valorizados pelo rosto duro, menos cheio e de linhas mais incisivas que o do filho Arael. Os óculos de lentes brancas acentuando ainda mais o ar de dureza.

Sempre quis contar essa história a vocês. É daquelas que mostram até onde pode ir a força de vontade do ser humano. Vou tratar do Presiden...

Um cabra macho

rio roosevelt amazonas rondon
Sempre quis contar essa história a vocês. É daquelas que mostram até onde pode ir a força de vontade do ser humano. Vou tratar do Presidente americano Theodore Roosevelt na sua viagem ao Brasil. Adoentado e derrotado na sua campanha à reeleição presidencial em 1912, arrumou uns poucos pertences na mala e chegou aqui para uma aventura. Mas não uma aventura qualquer. Simplesmente juntou-se ao Marechal Rondon e constituíram a expedição cientifica “Rondon-Roosevelt”, que aconteceu entre dezembro de 1913 e abril do ano seguinte. Seu objetivo era mapear o rio da Dúvida, cuja extensão era desconhecida e que fora descoberto pelo próprio Rondon em 1909.

Olhei pela porta e vi Georgette ao piano. Dedos e mãos suaves distorcem o real escondido à sombra da cor neutra. Evito me precipitar na ...

Georgette

musica piano pintura cubismo
Olhei pela porta e vi Georgette ao piano. Dedos e mãos suaves distorcem o real escondido à sombra da cor neutra. Evito me precipitar na tomada de decisões. Adio a conversa e deixo para depois o conflito trancado no peito. Georgette já não tem olhos, audição, língua. Tem os nervos à flor da pele e a face cheia de sentimentos ocultos. Os sentidos despertam em Georgette a curiosidade de redesenhar o mundo. Por isso, cria a própria arte ao piano. Improvisa Mozart com a Sonata em Dó Maior para buscar equilíbrio.

Lutos diários A fusão de uma solidão A outra Só foi Possível Em tempo uno O drama do dito Versus o sentido Depen...

O tempo não se cala

leo barbosa lutos diarios poesia paraibana
Lutos diários
A fusão de uma solidão A outra Só foi Possível Em tempo uno O drama do dito Versus o sentido Depende do cenário O tempo não se cala O te amar não é previsível É precipício lacrimal certo Tanto perto quanto longe O amor é alheio

Ninguém saberá responder onde fica o Edifício Presidente João Pessoa. Nem mesmo o mais antigo morador da Cidade. Mas o Dezoito Andares......

O 'Dezoito Andares'

Ninguém saberá responder onde fica o Edifício Presidente João Pessoa. Nem mesmo o mais antigo morador da Cidade. Mas o Dezoito Andares... A grande verdade é que todo mundo concorda num ponto: é o prédio mais charmoso da cidade ou “o condomínio mais antigo da capital”, como constava no papel timbrado da administração. Outra unanimidade: é uma das coberturas mais deslumbrantes do litoral, com uma visão de 360º que deixa de queixo caído até os que já conheceram a Torre Eiffel.

Os historiadores dirão que é um endereço nobre: Rua Nova, atual General Osório, esquina com a Ladeira dos Pedroza, que também já foi Ladeira da Carioca, até se juntar ao Beco da Misericórdia para receber a nova denominação: Peregrino de Carvalho.

Não gosto de música sertaneja, muito menos de Zezé de Camargo e Luciano, mas sempre me encontrava cantando No Rancho Fundo ♩♪♫ quando via...

Os sabiás de Seu Francisco

musica sertaneja zeze camargo filhos francisco
Não gosto de música sertaneja, muito menos de Zezé de Camargo e Luciano, mas sempre me encontrava cantando No Rancho Fundo ♩♪♫ quando via uma novela das 8. Quando o filme “Dois Filhos de Francisco” — de Breno Silveira — estreou na cidade, fiquei com um pé atrás, perdida no meu preconceito; porém, uma curiosidade me seduzia para ir ao cinema... e eu adiando. Havia lido algumas resenhas e um artigo legal de Contardo Calligaris (Folha de S. Paulo). Pois fui. E adorei.

A sombra do zero O que contorna o início o preenche? E se o vazio diz seu nome, ele resvala ou já é abismo? A luz o desfolha...

A sombra do zero

A sombra do zero
O que contorna o início o preenche? E se o vazio diz seu nome, ele resvala ou já é abismo? A luz o desfolha ou não existe um porquê que deslize? Pode haver morno na essência do nada? O dentro e o fora cabem ou se perdem na desesperança?

Li o “Mozart por trás da máscara”, do uruguaio Lincoln Raúl Maiztegui Casas , quando foi publicado no Brasil, em 2006, pela Editora Plan...

O pai de Mozart

Li o “Mozart por trás da máscara”, do uruguaio Lincoln Raúl Maiztegui Casas, quando foi publicado no Brasil, em 2006, pela Editora Planeta. Fui – só em parte – gratificado por isso, porque um dos escopos desse autor era contestar “a obra mais repelente” que – disse ele - teve oportunidade de ver em sua vida: o filme “Amadeus”, de Milos Forman, de que, caramba, sempre gostei muito.

Bom, ninguém é perfeito.

Quando a prefeitura municipal desta cidade decidiu homenagear Gonzaga Rodrigues, em evento cultural na manhã de um sábado no Pavilhão do C...

Gonzaga, permanente

gonzaga rodrigues cronica paraibana
Quando a prefeitura municipal desta cidade decidiu homenagear Gonzaga Rodrigues, em evento cultural na manhã de um sábado no Pavilhão do Chá, coube ao jornalista e historiador Ramalho Leite pronunciar as palavras de saudação, depois do homenageado recolher os olhares de admiradores e receber a aspersão da chuvinha sobre nossas cabeças. A chuva foi como benção dos céus para saudar o encontro de amigos.

Volto de viagem e entro aos poucos na rotina. Melhor seria dizer: deixo que a rotina entre em mim, pois rotina não é coisa que se procure....

Elogio da rotina

rotina voltar retorno cotidiano viagem
Volto de viagem e entro aos poucos na rotina. Melhor seria dizer: deixo que a rotina entre em mim, pois rotina não é coisa que se procure. Ela se impõe e nos envolve, com seus tentáculos lerdos e brancos. Ou com a força de um bicho doméstico e inevitável, que nos acua todo o tempo. Ainda não encontrei ninguém que dissesse: “Busco ou, pelo menos, aceito a rotina; os atos simples e repetidos do dia a dia me satisfazem”. Pelo contrário. Todos querem o diferente e o inusitado, embora diariamente tropecem na armadilha do mesmo e do igual.

Foi assim que Gilberto Amado definiu o nosso Itamaraty, segundo Antônio Carlos Villaça em carta ao escritor cearense Edmílson Caminha. Qu...

Floresta de cochichos

Foi assim que Gilberto Amado definiu o nosso Itamaraty, segundo Antônio Carlos Villaça em carta ao escritor cearense Edmílson Caminha. Que definição notável! Digna de um grande escritor, de um mestre das palavras e das imagens, que Gilberto efetivamente foi. Suas memórias em vários volumes estão aí para comprovar. E ele fala com conhecimento de causa, pois foi diplomata durante muitos anos, nomeado por Getúlio Vargas, sem concurso.

Paraíba, 15 de maio de 2022

Pauta Cultural (Ep. 41)

Paraíba, 15 de maio de 2022

Nem sempre a democracia é inspiradora, nobre ou grandiosa. Ela tem suas cavernas e obscuridades. Idealizá-la é devaneio. É mais que ...

Além das disputas, estamos no mesmo barco

Nem sempre a democracia é inspiradora, nobre ou grandiosa. Ela tem suas cavernas e obscuridades. Idealizá-la é devaneio.

É mais que óbvio lembrar que concorrer a uma eleição é se submeter à vontade da maioria, que nem sempre coincide com a nossa. Paciência, é assim que a política funciona. Esta é a natureza da democracia que dizemos valorizar.