Se me fosse dado voltar no tempo, eu queria reviver um daqueles São-Joões da minha infância, em Campina, quando b...

Balões de antigamente

Se me fosse dado voltar no tempo, eu queria reviver um daqueles São-Joões da minha infância, em Campina, quando bastavam a fogueira e alguns traques e bombas chilenas para me fazer feliz. Naquele tempo não havia Parque do Povo nem se falava em “maior São-João do mundo”. A festa tinha a dimensão de nossos humildes desejos; mesmo discreta, ardia imensa em nossos corações.

Fazia-se uma fogueira na calçada e ficava-se em volta dela assando milho, soltando estrelinhas, rojões e peidos de velha. Vez por outra traziam da cozinha um prato de bolo de milho, pamonha ou canjica, cujo cheiro competia (e ganhava) com o da pólvora dispersa no ar. Aquela mistura de milho e pólvora ficou sendo para mim uma espécie de cartão olfativo do São-João. Terminávamos a noite empaturrados e chorando – não de emoção, mas da fumaça que empesteava a rua. Ninguém reclamava nem ficava doente, como se a alegria imunizasse nossas narinas e pulmões.

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Só nos distraíamos da fogueira ou das brincadeiras na calçada para olhar os balões que a intervalos ganhavam o céu. Alguns, de um vermelho vívido, pareciam sangrar de luz. Eu gostava de vê-los boiar no ar enfumaçado e ir ganhando altura, apequenando-se pouco a pouco. Alguns se queimavam, outros seguiam triunfantes até se transformar numa fagulha antes de se perder de nossas vistas.

Para onde iriam eles? Onde cairiam? Os balões engolfados no escuro eram a nota melancólica da festa. Eu ficava triste sem entender, mas hoje arrisco uma explicação: o percurso daquelas flores iluminadas, condenadas a brilhar e desfazer-se ao vento, era uma metáfora do nosso destino. A vida de cada um é um balão inflado de anseios e esperanças, que brilha por algum tempo e depois se perde na escura noite do Nada.

Felizmente esses momentos de cisma eram curtos. Duravam apenas o tempo de ver os balões caírem ou sumirem. Logo eu votava à agitação da vida, convocado por aquele estrépito de luzes, cheiros e sabores.

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