A velhice até que é boa também tem a sua graça livra de muita trapaça exageros e engodo. As vezes ficamos gordos em ár...
A velhice até que é boa
Na sexta-feira (23) nossa conversa foi sobre discos. Vou tomar como referência a indústria fonográfica de meados da década de 1970. Po...
Os EPs de hoje e os discos de vinil do passado
Ano velho passando, ano novo chegando, será que o mundo melhorou? Claro, pois na vida não existe marcha à ré. Tudo evolui. Esta minha...
Será que melhoramos?
E tudo começou com aquele homem magro, quase nu, todo ensanguentado, pregado numa cruz, entre dois malfeitores. Um homem cujo crime foi amar a todos sem distinção. Pediu água e lhe deram vinagre. Pediu amor e lhe deram ódio, diante de uma multidão enlouquecida pelo fanatismo religioso, provou que nem sempre a voz do povo é a voz de Deus.
Aos que me leem, minhas desculpas. Duplas desculpas. Em primeiro lugar, por repetir o tema, voltando ao grande escritor Victor Hugo. Em...
Traduzindo uma página de Victor Hugo ou O Titã-Anão
Il faut être toujours ivre, tout est là; c'est l'unique question. Pour ne pas sentir l'horrible fardeau du temps qui brise...
Caravaggio
Quem era ele mesmo? Mutante. Metamorfo…
Ser jovem enquanto velha, velha enquanto jovem . (A Ciranda das Mulheres sábias — de Clarissa Pinkola Estés) Foi um ano difícil. E p...
Os amores prateados
As viradas dos anos trazem-me sempre à memória aquelas antigas figuras do velhinho e do menino, o primeiro a se despedir do tempo e o s...
O Velho e o Menino
Menos importa se quem criou essa frase genial foi Pedro Malan, Gustavo Loyola ou a mãe de Pantanha. Nada mais verdadeiro do que as inc...
No Brasil até o passado é incerto
Um exemplo simples vem do Supremo Tribunal Federal que avançou (?) admitindo a relativização da coisa julgada. Antigamente, quando havia o trânsito em julgado de uma decisão, a ideia era a de que aquilo se tornasse imutável para todo o sempre. Parece até que com o aumento do trânsito atropelou-se o julgado. Não creio estar errado em relembrar que o mesmo STF decidiu em um passado não muito distante que aposentados passariam a descontar de seus magros caraminguás um percentual para a previdência social.
SILÊNCIO, POR FAVOR A beleza, essa panaceia para o desatino, deixa de lado os seus afazeres árduos de ser exceção den...
Rei do Futebol
A beleza, essa panaceia para o desatino, deixa de lado os seus afazeres árduos de ser exceção dentre a vulgaridade dos dias e se curva diante do Rei do Futebol.
Era longe de um recanto a outro, (custavam anos e atropelos) construí-los, encontrá-los, destituí-los do poder sobre nossa vida A facilidade de idealizar, corromper a decência da crítica, evitar o torpor da certeza das paredes
E lá se vai 2022... Inexoravelmente, segue a regra finita da passagem do marco de tempo. Leva muitas levezas, outras tristezas, ondas ...
Lá se vai 2022...
Os homens ficam perplexos como o mundo é incontrolável. Até imaginam-se em segurança, no controle da maquinaria que faz rodopiar o conceito de temporalidade. Pobres tolos, pois o comando não lhes pertence. Na verdade, eles são passageiros sem direito a serem guias, apenas aquelas ilusórias.
É incrível como somos tão facilmente influenciáveis. Seja pela moda, pelos costumes, ideologia, política, religião. Daí o perigo do fan...
Apenas mais um ano…
A Primavera terminou. O Verão começou. Nem precisava recorrer ao calendário pendurado na parede para constatar isso. Tudo leva a per...
Primavera e Verão
As mudanças visíveis na Natureza indicavam que a Primavera trazia o Verão para perto de nós, com vento quente e mormaço avassalador.
Voltei de Serraria com essa sensação, percorri a praia do Cabo Branco na contemplação à Lua cheia, a última do ano, com a certeza de que o Verão trouxe enorme beleza à paisagem da cidade.
Fazia-se questão de saber com quem se falava. Quem eram os outros, quem éramos. Chegado à Capital, ao estrear na praça que às oito d...
Um naco de esperança
Chegado à Capital, ao estrear na praça que às oito da manhã já se via repleta em suas mais diversas rodas de conversas, minha ânsia era entrar na roda. Conhecer e dar-me a conhecer com a mesma ingente necessidade de quem buscava o abrigo.
Já haviam me deixado armar a rede num quarto da Casa do Estudante. De forma precária, enquanto o sócio ocupante terminava as férias em Taperoá.
Na grande parte da sociedade, a riqueza e a pobreza são igualmente adoecidas. Essa patologia se caracteriza por apresentar a miséria ...
Desordens da riqueza e da pobreza
Diante dessa situação, o desafio de eliminar a brutal desigualdade financeira entre os cidadãos é uma necessidade ética que deve ser assumida por todos. Nesse processo, para eliminar a desarmonia social, é prudente considerar que os pobres não são responsáveis pelo seu sofrimento, porque é a maldade de alguns ricos — que vivem da corrupção política —
Assistindo ao especial de Roberto Carlos (sim! No Rio de Janeiro, sexta à noite, vendo RC pela tv - sei não...), escutando-o cantar Lady...
Será que ela volta?
Lady Laura é um hino a todas as mães das pessoas de minha geração. Então, Lady "Iracema" veio, nesse momento, com toda força em meu pensamento! Lembro de sua beleza e elegância simples, porém marcante. Lembro, ao longo da minha infância, que em momentos especiais, ela costumava deixar o cabelo bem fofo e cheio de laquê. O cheiro do laquê, misturado com seu perfume, sua boca bem feita, vermelha, se destacava, acentuando o azul intenso dos seus olhos. Linda!
Quanto pode um professor? Não sei. Só sei que pode muito, incluindo a sua capacidade de inspirar gerações, de transbordar a esfera do ...
Ágora paraibana
Leitor, é comum nesta época fazer um balanço para ver o que deu certo e o que deu errado no...
Conselhos para o novo ano
Através dos olhos do artista posso ver a natureza e a existência dos homens, em quadros e esculturas. Mas com a máquina do tempo a expe...
A Máquina do Tempo
Escolhi o ano de 1380. Estou na Irlanda do norte, perto da Calçada do Gigante. Uma família muito pobre me acolhe em sua casa e estamos jantando à luz de velas. A mesa de refeições é feita de tábuas longas e grossas, as cadeiras de madeira não têm encostos.
A epistemologia é basicamente o estudo do conhecimento humano. Há uma notável tríade de filósofos britânicos, além de Francis Bacon e T...
Empirismo britânico
Este texto é dedicado ao meu amigo Martinho Leal Campos, leitor e fã de Nélida Chamo-a apenas pelo primeiro nome como se com e...
Algumas palavras sobre Nélida
Em prece Pelo povo em esperança Pela natureza preservada Pela vida próspera Em prece de joelhos Pela harmonia e...
Em prece por nós, pronome do Amor
Pelo povo em esperança Pela natureza preservada Pela vida próspera Em prece de joelhos Pela harmonia e paz Pela excelência aos homens justos Por uma vida segura, tranquila Pela liberdade Em prece Pela transmutação da energia da raiva, do ódio, da inveja da ganância, da soberba, do mau agouro, das palavras vãs, da mentira, da miséria, da injustiça, da indiferença
A Copa do Mundo chegou ao seu final. A vitória da Argentina premia aquele que é um dos maiores craques do futebol mundial, Lionel Messi...
Brilho sim, barulho não!
O evento nos faz lembrar dos exageros das comemorações, especialmente com os fogos de artifício. Pois todos sabem que fogos de estampido podem causar danos às nossas crianças, aos idosos e autistas, e também aos animais.
Às vezes acho que os grandes artistas pesam menos que o restante das pessoas. Ou você nunca notou como Horowitz desliza seus dedos sob...
Peso e Pluma
E Baryshnikov, que de repente deixa o chão, abre asas e se lança no espaço – pássaro claro – subvertendo a gravidade? Há bailarinas que mal tocam o solo, sílfides, e a Mitsuko Uchida, cuja alma se esconde em algum lugar luminoso tão logo ela pousa as mãos sobre o piano.
Essa é uma história colhida nos sonhos e dedicada aos sonhadores da nossa doce Parahyba! Eles entenderão. Sou homem da praia e vi es...
Uma visita do mar
Eles entenderão.
Sou homem da praia e vi esse passeio que veio do mar. Era uma manhã de dezembro no Cabo Branco!
Os ventos sopram suaves levando a nave para a beira da praia. O barco vem do horizonte azulino em um mar sereno de poucas ondas.
Faço meus exercícios espirituais nas festas de Natal e Ano-Novo. Em casa, sozinho, acendo uma vela e relembro os bons tempos das festas...
Exercícios espirituais
Repasso as situações agradáveis e desagradáveis que vivi nos últimos meses - e aproveito para rezar pelos parentes e amigos, pelos que já se foram. Não deixo de fazer um ato de contrição,
Acordar cedo, comer dois ovos e tomar um café frio, em seguida, escrever até a hora do almoço. Esta era basicamente a rotina de Victor ...
Victor Hugo, um espírito libertário e combativo
DO NATAL O sorriso no rosto, a roupa nova no corpo. O peito inquieto, o olho na porta. A comida farta, a mesa pronta. ...
Minha árvore de Natal
Era meio dia e o sol castigava a cidade. Um calor terrível. O sinal fechou e eu parei. Duas filas se formaram com outros automóveis p...
Feliz Natal?
"— Dotô, mermo quando eles tem pena e dá uma grana, de vez em quando eles humilha nóis. Fica dizendo que o dinheiro não é pra nóis comprá droga".
ÁGUA A água dura o tempo de seu gosto, o reflexo oblíquo do Sol que insiste, o pormenor dos cinquenta tempos do Mundo ...
No rasante da libélula
A água dura o tempo de seu gosto, o reflexo oblíquo do Sol que insiste, o pormenor dos cinquenta tempos do Mundo no rasante da libélula É esta água, repasto de surpresas, não a mesma, sempre a mesma, dispersa no azul redondo Água que transborda e cessa, recria e arrasta, carrega o som e derrama o silêncio
Uma plantinha cresce aos pés de Nossa Senhora da Conceição. Dela, sim, no seu nicho de 122 anos, a uns 30 metros do solo. É arte de um ...
Uma santa de mãos postas
Os pássaros, minha gente, costumam enfeitar nichos e monumentos sem a percepção de que as sementes não digeridas são, às vezes, de arvoredos com troncos capazes de rachar o bloco de cimento onde vinguem e cresçam, espantosamente,
Se existe um profissional para quem devemos o maior respeito do mundo é o coletor de resíduos, que anda agarrado nas traseiras dos veí...
'Nenhuma noite do ano é tão feliz como esta'
Expostos ao contato com mau cheiro e à contaminação de resíduos deteriorados, eles cumprem uma tarefa visceralmente importante para a vida urbana. Ai do mundo urbano se não fosse o seu trabalho.
Entrei no café do Paraíba Hotel e terminei num desengano bem mais sério: a pobreza de mãos pedintes, de miséria exposta, que lotava as...
Saí para me enganar
Em muitas casas os pés de acerola estão enfeitados feito árvores de Natal já há algumas semanas. Dezenas de bolinhas vermelhas contra...
Des(fruta)mento
Em mim não há, no momento, coisas que me dêem alegria suficiente para compartilhar, repartir. Estou andando na rua no exercício de bus...
Hoje eu quero sair só!
Fico tentando me apegar ao que eu era, ao que pensei e sonhei para mim, a fim de não me perder, mas não consigo fazer isso por muito tempo. Me canso, Me canso muito. Busco ver em meio aos elementos que tenho comigo, algo que combine com essa vida que tenho agora – a minha, aquela onde eu era a filha, a irmã, a amiga, a professora, sei que não terei nunca mais, nunca mais! Muita coisa aconteceu fora desse trilho. Aconteceu e a resiliência humana permite que a gente vá se moldando, se refazendo.
Há 21 anos, morreu George Harrison. Dos quatro Beatles, o guitarrista teve a trajetória mais espetacular. Vindo de uma família muito ...
George
Dos quatro Beatles, o guitarrista teve a trajetória mais espetacular. Vindo de uma família muito pobre, aos 17 anos tornou-se uma das maiores celebridades do planeta. Entrou no túnel de delícias do mundo material com sua carteirinha de milionário aos 20 anos e emergiu do outro lado como um homem que resumia seu propósito na vida a uma busca incansável para responder a três perguntas: quem sou eu, por que estou no mundo e para onde vou.
Uma insônia inquietante me atormentava naquela noite. Eu não conseguia dormir. O galo já cantara uma vez e, como um noctívago, saí a ca...
O curioso périplo noturno de Beaurepaire-Rohan
No alto, uma meia lua chorosa se escondia entre nuvens semicarregadas que pareciam estáticas, deixando tudo em tênue penumbra.
Vaguei sem medo pelo Centro e o Varadouro. Aqui e acolá, caíam finos chuviscos, mas não me importei. Tivera o cuidado de levar comigo
Alguns críticos jamais perdoaram a suprema heresia de Mario Quintana estrear com um livro de sonetos - ...
Vinte e oito anos sem e com Mário Quintana
Um querido amigo genial, o Professor Luíz Dias Rodrigues, Luizito, disse-me, certa vez, que era muito reticente em produzir textos, poi...
Quando devemos dizer
Luizito era um gênio autêntico e a sua humildade era fruto da sua sabedoria. Sua mente fervilhava de conteúdos e de idéias, mas ele preferia a condição de leitor.
Com esse critério, produziu textos preciosos, que enriquece quem os lê.
Penso que as mais intensas lembranças da infância são marcadas pelo q...
Terrores infantis
Grande parte deles está ligada aos “fantasmas” da noite e aos tipos conhecidos como “doidos”. Qual a criança que não chegou a tremer sob os lençóis com medo da visão de algum ente sobrenatural? Podia ser a imagem de alguém que morreu ou de uma dessas personagens que povoam as histórias contadas em filmes, gibis ou por pessoas próximas.
A igreja católica utiliza o calendário gregoriano, que é o calendário solar para contagem dos anos, meses, semanas e dias e que tem com...
Maslenitsa
Mas o Carnaval Russo não é uma comemoração oficial da igreja ortodoxa. Lá ele se chama Maslenitsa e, como no Brasil, precede a quaresma, ou seja, é de origem pagã. A igreja adaptou
Quando chegava dezembro, o mês das festas, íamos à capoeira buscar os galhos de árvore para mamãe montar a árvore do Natal, como fazíam...
Árvore do Natal
Ao alvorecer do novo ano, nossa residência era preparada com simplicidade. Todos os cômodos da casa eram caiados de branco. Consistia, basicamente, em uma árvore enfeitada com algodão e uma mesinha no canto da sala onde depositavam-se imagens de barro representando a Sagrada Família, com o Menino na manjedoura, alguns bois e carneirinhos.
Essa coisa de vocação umas vezes é muito simples e outras é muito complexa. Há crianças que praticamente já nascem chamadas para um ofí...
PS Carvalho: a estrela sobe
Paraíba, 18 de dezembro de 2022
Domingo. Sol à pino. Dia da final da copa do mundo. Brasil torcendo pela Argentina? Muitos farão isto, justificando que o Messi merece...
O corredor do absurdo
Mas o inusitado perpassa a vida, mesmo para os que insistem em considerar possível manter-se “isentos” dentro de sua bolha do “paraíso terrestre”.
Trânsito lento na mão oposta em frente a UFES. Uma corrida de rua, de um homem só.
Quando Duque e Rex chegaram na nossa vida havia uma forte sensação (pelo menos da minha parte) de que eles iriam ensinar algo valioso a...
Duque e Rex
“Decorridos dois anos da conquista de Olinda, à qual incendiaram devido às dificuldades de fortificá-la, os neerlandeses ainda se ach...
A difícil conquista da Paraíba pelos holandeses – A segunda tentativa
Experimente caminhar na calçadinha da praia do Cabo Branco, um pouco antes das 5 horas da manhã, com o Sol no horizonte ainda lutando p...
Para amar João Pessoa
… conforme a minha peça teatral "A verdadeira estória de Jesus." LUCAS - Mas ... vejam! Vejam! Lá está o Salvador, ...
A noite de Natal em diálogo dos quatro evangelistas
LUCAS - Mas ... vejam! Vejam! Lá está o Salvador, chegando!
MATEUS - Onde, onde?
LUCAS - Lá está: por trás dos rolos de fumaça que sobem da névoa suja em que Jerusalém está imersa! Em cima... do outdoor com o perfil de Tibério e os símbolos do comércio e indústria sob a legenda “Pax Romana”.
MARCOS - O que estou vendo (ri) é a Constelação de Virgem .
LUCAS - Exatamente!
Meu querido Gonzaga, Pensei em fazer algo diferente, para falar de seu livro "Com os olhos no chão" . Já não me apetece a ...
Carta a Gonzaga Rodrigues
Pensei em fazer algo diferente, para falar de seu livro "Com os olhos no chão". Já não me apetece a moda acadêmica das resenhas críticas ou da análise e da crítica literária. Não que eu não vá mais fazê-las, mas suas crônicas merecem bem mais. Por outro lado, meu querido, o texto de Antônio Barreto Neto, “Notas de um escritor no seu lugar de cronista”, que você escolheu como prefácio, está atual, apesar dos seus 44 anos, revelando o rigor e a sobriedade de quem sabe das coisas.
Recebi o seu livro como um grande presente de Natal. Sim, porque a cada crônica, sentia-me como renascido e atento à vida, degustando-a a cada frase que expressava, na sua simplicidade, a grandeza e a profundidade do olhar avisado do escritor,
Viajo, meu querido amigo, na sua leitura, de braços dados com o lirismo, a política e o engajamento político, a história, o humor, a sensualidade, a discriminação, a fome, a miséria, a doença, a preocupação com o meio ambiente e com o descaso de nossa memória. Viajo com o cronista que se autodefine, que coloca os seus olhos, postos muitas vezes no chão, como o menino a catar moedas, mas com a cabeça ligada nas alturas, na tentativa de entender um pouco desse mundo que nos cerca. Viajo com as formas simples de seu escrever, revelando no corriqueiro e no estilo sem rebuscamentos desnecessários, uma vida dedicada à leitura e à literatura, criando perfis irretocáveis, como o de Nathanael Alves (As goteiras de Nathanael).
Os olhos no chão jamais dirão de um fechamento ou isolamento a respeito do meio circundante e dos seus circunstantes. Eles são capazes de ver a flor que fura as frestas do cimento ou fura o asfalto, como diria o poeta; a beleza da flor e da resistência da vida, que só quer uma desculpa – uma fresta de nada – para poder se insinuar, persistir e se realizar poeticamente à nossa frente, em que poeticamente se juntam “a flor, o pólen, o beijo alado, o fruto” (A floração de setembro).
Como não me emocionar, meu amigo, quando a memória se impõe, nos dias já difíceis pelo simples ato de viver, mas que se tornaram mais árduos com a doença, com a internação, com o sanatório e o gosto das coisas que não aconteceram? A crônica da maçã me sabe à Maria Betânia de Capiba, naquele que é um dos versos mais bonitos sobre a saudade – “Beijo, que vive, com esplendor, nos lábios meus, para aumentar a minha dor”. E Jeconias, onde se vê claramente um livro de memórias delineado, que o amigo talvez relute em terminar e, se terminou, em publicar? Crônica esplêndida, no dilaceramento da dor e da aflição, mas permanente no coração, também expressando grande amor. Há ali, mais do que a memória autobiográfica, meu amigo. Há a criação literária inconteste, de que citarei um pequeno trecho:
Na narrativa, sente-se uma dupla fruição: a da memória, resgatada pelo olhar, que emana da foto; a fruição do texto, que flui para dentro do leitor, tornando-o espectador e cúmplice do acontecimento, caminhando junto ao momento flagrado, na esperança de desvendar o mistério da mulher “verdinha”, no silêncio da “rua, só e absoluta”, insinuando “vestígios de amor nesse instante fotográfico”. Simples e natural fruição. Grandiosa e incomensurável fruição. Texto para ser emoldurado e posto nas salas de aulas de todas as escolas, como exemplo inquestionável do que é o saber e o sabor do escrever.
Alonguei-me, meu amigo, e poderia ir mais adiante, embalado, sem exageros no que digo, pelo encantamento do seu texto, a me comprovar, com o perigo de me repetir, que a crônica conhece dois momentos importantes:
Você, meu querido amigo, na sua humildade de andar com os olhos no chão e de nunca se lamentar ou mendigar reconhecimento, sempre se fez maior aos meus olhos, com a beleza das coisas ditas e, sobretudo, das não-ditas, com aquele gosto proposital de incompletas, mas cheias das sinuosidades machadianas, que põem a trabalhar a nossa imaginação, viajando nos intervalos incertos da “sem-resistência” da prima Salete (Rosa de Garanhuns), tomada pela possibilidade do amor, a melhor das incertezas que alegram o nosso coração.
Grato, gratíssimo, pelo presente, que acolho com o meu melhor abraço e o espírito em festa.
Do seu,
Milton Marques Junior














































































