Chegou o momento que percebi que deveria emergir de um grande, opressivo e profundo mergulho. Durante um longo tempo, estive submersa ...

É possível viver sem respirar?

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Chegou o momento que percebi que deveria emergir de um grande, opressivo e profundo mergulho. Durante um longo tempo, estive submersa em águas turvas, contaminadas por lembranças e por uma dor que, impiedosa, doía amargamente.

Após a morte do meu marido, descobri que me faltava vocação para sobreviver. Descobri que não existiam pomadas, remédios, injeções, poções mágicas, nada para diminuir ou minorar o que desencadeou a grande ferida. Inconscientemente, resolvi que, por estar envolvida neste redemoinho tão forte e inexplicável,
me deixaria ser engolfada por ele, até que se esgotasse o impacto do absurdo.

O coração humano demora a aprender a linguagem violenta da morte de alguém que se ama. Desconfio que nunca aprende. Vivemos a presenciar a morte diariamente. Mesmo assim, quando ela chega até nós, é surpresa tudo o que sentimos. Depois disso, passamos pela incredulidade. Passamos a interrogar o porquê, querendo a todo custo subtrair o que aconteceu, numa tentativa ingrata de fazer reaparecer a pessoa que partiu. Por fim, sentimos uma enorme raiva crescendo no peito ao percebermos que a morte é real, que não há retorno, que não existem explicações e que não adianta fugir para lugar algum.

A morte é tão poderosa que consegue destruir o amor, a paixão, o calor do corpo, o olhar, o desejo. Em troca, ela nos presenteia com a saudade e, nesse caso, é uma saudade inconsistente. O objeto da saudade não voltará jamais para ela acabar. E dói. Dói tanto que passa a fazer parte do corpo. Dói quando se respira, quando se olha no espelho, quando de relance enxerga alguém parecido com a pessoa.

Por mais que se escreva, se poetize e se fale sobre o vazio deixado pela morte, nada se compara a vivê-lo. Tudo é pequeno diante do que sentimos. Nenhuma palavra consegue definir a dor. Há uma vontade imperiosa de morrer também, para acabar com tudo, o mais rápido possível, não só para testar o que falam sobre os encontros após a morte, mas para que o sofrimento deixe o coração. Não existem palavras de conforto. Não existem livros, religiões, fé. Nada diminui o sofrimento profundo que nos marca para sempre e que, de bom grado, arrancaríamos o coração para acabar.

Questionar a morte é questionar a vida. Se temos que vivenciar uma dor tão grande, do que vale ter convivido com alguém e amá-lo. E depois? Nada? Por mais que se tente resgatar o passado com esta pessoa, as alegrias compartilhadas, os dias de felicidade, tudo isto toma uma dimensão diferente após a morte. Questionamos a partida, a saudade, os porquês de tanto amor se esvaindo em nada. Não consegui resposta para a maioria dos meus questionamentos. Por mais que tentasse uma explicação sobre este partir definitivo, nenhum deles me satisfez.

Aceitar passou a ser uma palavra constante em meu cérebro e, como um mantra mórbido, voltava a ela para superar o tempo, superar o que não compreendia. Aceitar... Aceitar... Aceitar. Talvez algum dia incorporasse o sentido desta aceitação.

— Do livro “Tempo de contar telhas" a ser lançado pela autora

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