Vivemos na era da rápida informação, na qual se pode dizer ou publicar qualquer coisa com apenas um clique. Basta criar uma conta, faz...

Saúde e ciência na era das falsas curas

Vivemos na era da rápida informação, na qual se pode dizer ou publicar qualquer coisa com apenas um clique. Basta criar uma conta, fazer um vídeo ou uma postagem, publicar e... voilà! Em poucos segundos, as visualizações começam a surgir. E isso, de certa forma, passou a ser um grande problema, principalmente quando a veracidade dos fatos nem sempre pode ser comprovada.

GD'Art
Um bom exemplo é a história de Maria de Lourdes, mulher forte e batalhadora, que desde cedo teve que trabalhar para ajudar no sustento da casa e, mais tarde, de seus cinco filhos. Agora, aos 67 anos, é viúva e aposentada. Mora em uma casinha simples. Todos os dias pela manhã, toma seu remédio para diabetes e, depois, passeia com seu cachorro Guigo numa pequena praça perto de casa, por recomendação de seu médico. Em seguida, toma seu café da manhã calmamente, e assim segue seu dia, sempre monitorando sua glicemia antes e após cada refeição.

Um dia, navegando pela internet, Maria encontrou um anúncio que dizia: “Siga essa receita caseira e, em trinta dias, você estará livre da diabetes”. Ela abriu a página, que parecia ser de um site de notícias conhecido, e assistiu a um vídeo de um médico chamado Dr. Lucas Melo, que dizia ser especialista em diabetes, com diploma em Harvard. No vídeo, ele explicava que a diabetes seria causada, na verdade, por um verme silencioso que habitaria o pâncreas e que 98% das pessoas o possuiriam. Ao contrário do que os médicos alopáticos e a indústria farmacêutica tentariam nos fazer acreditar, dizia ele, nenhum dos remédios convencionais realmente funcionaria, pois eles não combateriam a causa raiz do problema.

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Em suas supostas pesquisas, o Dr. Lucas teria descoberto uma erva capaz de combater esse “verme diabético”. Após inúmeros experimentos, chegou à fórmula do suplemento Glicovita, composto por coenzima Q10, extrato de chá de amora e extrato de algas marinhas, capaz de eliminar o verme e livrar o paciente da dependência dos medicamentos convencionais para sempre.

No mesmo site, Maria leu vários comentários elogiando o produto. Um deles dizia: “Segui todas as recomendações do Dr. Lucas e, em pouco tempo, minha glicemia voltou ao normal. Obrigada, Dr. Lucas!”. Outro afirmava: “Essa receita salvou minha vida! Minha glicemia estava em 170 mg/dL e, depois do produto, ficou em 78 mg/dL”. Tentada pela promessa de cura, Maria decidiu comprar o suplemento, escolhendo o pacote com cinco frascos que estava na “promoção”, custando “apenas” R$ 419,99.

Em poucas semanas, o suplemento chegou à sua casa e ela começou a tomá-lo. Seguiu rigorosamente as recomendações do vídeo e abandonou a metformina, acreditando que bastaria tomar cinco gotinhas do Glicovita por dia para, em um mês, ficar livre da doença. Também parou de passear com o cachorro, pois acreditava que sua saúde já estaria controlada, e deixou de se consultar com seu médico, Dr. Alexandre.

Celyn Kang
Maria passou a medir sua glicemia diariamente e começou a notar valores cada vez mais altos, especialmente após as refeições, além de sentir dores de cabeça e náuseas. Enviou um e-mail à empresa fabricante do suplemento, e a resposta que recebeu foi que esses sintomas seriam “normais”, pois significariam que a “toxina diabética” estaria sendo eliminada do corpo. A atendente ainda recomendou que ela comprasse mais dois frascos, para completar o tratamento. Convencida, Maria continuou.

Três meses se passaram. Em uma tarde de domingo, seu filho Otávio a encontrou desmaiada em casa e correu com ela para o pronto-socorro, levando o frasco do suplemento consigo. Procurou o Dr. Alexandre, que mediu sua glicemia: 250 mg/dL. Surpreso, o médico perguntou se Maria havia parado de tomar a metformina. Ela confirmou, relatando o suplemento milagroso e o Dr. Lucas. Com um olhar preocupado, o médico respondeu:

— Maria, esse produto nunca poderia curar sua diabetes. Você caiu em um golpe, e isso quase custou sua vida.

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Ao procurar informações sobre o tal “especialista”, descobriu-se que nada existia — nem registro médico, nem formação, nem diploma. Maria ficou em observação durante a noite e, no dia seguinte, com a glicemia normalizada, pôde ir para casa.

A cura, infelizmente, nunca veio. E ficou a lição: não acreditar em promessas milagrosas da internet.

Como Maria, milhares de pessoas caem nessas falsas curas — promessas fáceis, vazias e perigosas. Quem não quer se curar de forma natural, sem efeitos colaterais, e “livre da indústria”? As propagandas são feitas para atrair, como isca. O “médico” de jaleco, supostamente formado em Harvard. Os comentários “de clientes satisfeitos”. Tudo cuidadosamente montado.

Mas, nesse tipo de propaganda, quase sempre:

▪️ O “médico” é um ator. ▪️ Os depoimentos são falsos ou fabricados por IA. ▪️ A página imita jornais conhecidos para inspirar confiança. ▪️ Não há estudos, nem evidências, nem testes. ▪️ Em 2024, inclusive, uma reportagem do G1 expôs um caso exatamente assim.

Vale lembrar: suplementos não curam doenças. São classificados pela Anvisa como alimentos. A única medicina que funciona é aquela que foi estudada, testada e comprovada.

Como disse o jornalista inglês John Diamond — mais tarde popularizado por Richard Dawkins:

“Não existe medicina alternativa. Existe apenas medicina que funciona e medicina que não funciona.”

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  1. Gostei do texto, Raissa! Achei muito bem articulado e a diagramação, ótima!

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