Aqui um causo verídico e, por isso mesmo, acho que deixa de ser causo e não sei exatamente como posso chamá-lo. Seja lá o que for,...

A Turma da Manguaça

Aqui um causo verídico e, por isso mesmo, acho que deixa de ser causo e não sei exatamente como posso chamá-lo. Seja lá o que for, cabe a mim apenas relatar o ocorrido e não ficar com lero-lero discutindo, como dizem, o sexo dos anjos. Vamos então aos personagens e depois ao que se passou.

Os amigos eram quatro: Chiquinho Canivete, Toinho Garrafa, Zé de Dona Carminha e Bastião Preguiça.

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Dona Carminha era esposa de Zé da Borracharia, mas como na borracharia onde Zé trabalhava, ou fingia que trabalhava, havia outro Zé, o nosso acabou ficando conhecido como Zé de Dona Carminha, sua esposa.

Aliás, se o amigo leitor e a querida leitora já conheceram uma mulher brava é porque não conheceram essa Dona Carminha que, como já dissemos, juntou os trapos com o Zé. Era brava e grande, cheia de autoridades, e Zé “cortava um miúdo” com a patroa. Essa senhora não suportava as amizades do consorte; não tolerava esses três chegados do marido, os “fechamentos”: Chiquinho, Toinho e Bastião. Sabem como é: amigo, amigo mesmo é parça, é fechamento.

— Bando de vagabundos, de cachaceiros! Ali não tem um que preste, e você, Zé, vive encangado com eles porque não presta também. A vida não é só jogar truco e encher a cara de cachaça — dizia aquele despotismo de saias.

Essa senhora tinha suas razões. Chiquinho Canivete era pedreiro de ofício, mas não de vontade. Vivia de biscates: fazia um muro aqui, rebocava uma parede acolá, mas, se pudesse, não pegava na colher. Toinho Garrafa tinha emprego do governo, mas estava aposentado por invalidez, pois algum médico da Previdência atestou que ele
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não era bom do juízo. Bastião Preguiça mamava na aposentadoria de uma irmã solteirona. Esse danado nunca trabalhou na vida; nem carteira profissional ele tirou. Zé, como já mencionamos, trabalhava na Borracharia São Cristóvão. Trabalhava? Bem, quase isso; se pudesse, aplicava um “migué” e então a água fervia na caçarola do outro Zé.

Estão vendo que estamos tratando aqui de gente da melhor qualidade. Toda tarde estavam no boteco de Mané Ferradura jogando truco e enchendo a cara. Esse ritual era de domingo a domingo. A jornada só findava quando, tarde da noite, Mané os expulsava a poder de vassourada ou balde d’água.

Mas um dia esses nossos amigos resolveram dar um tempo longe do botequim de Mané, pois, segundo Bastião, o filósofo daquela trupe: “Nada mais insuportável do que um dono de bar depois da meia-noite!”. Resolveram que, aos sábados e domingos, não iriam mais frequentar aquela birosca. Tomaram a unânime decisão de que, aos fins de semana, iriam deixar o carteado para irem pescar. Vara e anzol à sombra da ingazeira, e tomando uma marvada enquanto molhavam a palavra, era tudo de bom.

Foi uma decisão não muito prudente, porque já no primeiro sábado Zé resolveu dar um mergulho no Paraíba. Esse Paraíba do Sul, em tempos idos, era rio caudaloso e devorador de gente. Devorou o Zé, que deu seu mergulho depois de um gole generoso de uma cangibrina e não voltou à tona. Sumiu naquelas águas.

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Todo mundo sabia que ali, na curva da ingazeira, o rio era traiçoeiro. Zé não respeitou e deu no que deu. Quando a polícia e os bombeiros chegaram, os três sobreviventes mal paravam em pé. Bêbados de fazer pena e sequer conseguiam explicar o ocorrido. Fato é que iniciaram buscas rio abaixo e só foram encontrar o corpo enroscado nuns aguapés na tarde do dia seguinte, um domingo.

Dona Carminha quebrou a porquinha, recolheu outras economias e contratou a melhor funerária da cidade para despachar o marido.

Segunda pela manhã, lá estava Zé sendo velado, e foram chegando familiares, conhecidos, curiosos e não tardou que Bastião, Chiquinho e Toinho aparecessem devidamente calibrados, se é que estão me entendendo.

Aproximaram-se do parceiro e ficaram meio desconfiados com a aparência do defunto. A funerária se encarregou de maquiar o Zé, que fora encontrado roxo de dar pena.

— Tá muito pálido. Ele era mais coradinho — comentou Bastião.

— Parece que tava doente — confirmou Toinho.

Chiquinho Canivete rebateu:

— Também pudera! Tá assim porque desde sábado que ele não bebe.

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