A poesia de Hildeberto Barbosa Filho, em No Fim de Todas as Coisas, inscreve-se num território de rara densidade existencial, onde o tempo, a morte, a memória e o silêncio se tornam não apenas temas, mas verdadeiros operadores ontológicos da linguagem. Trata-se de um livro que não busca respostas, mas aprofunda a pergunta essencial: o que resta quando tudo se desfaz?
Desde o título, o poema anuncia sua vocação metafísica. “O fim” não é apenas o encerramento cronológico da vida ou da história, mas o ponto-limite da consciência, onde o
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Em No Fim de Todas as Coisas, a poesia nasce daquilo que sobra - restos, ruínas, fragmentos. O eu lírico não canta o apocalipse espetacular, mas o apagar lento, o desgaste invisível que corrói o mundo por dentro. O fim aqui não é estrondoso; é silencioso.
Essa escolha estética confere ao poema uma força singular: a tragédia não grita, respira baixo. O tom é de recolhimento, como se o poeta escrevesse à beira do indizível, consciente de que cada verso se aproxima perigosamente do silêncio absoluto.
A palavra poética, nesse livro, sabe-se precária. Hildeberto escreve como quem desconfia da própria linguagem, e justamente por isso a utiliza com rigor extremo. Não há ornamento gratuito. Cada imagem cumpre uma função ontológica: dizer o mundo no instante em que ele se desfaz.
Arte: Christian Valdemar Clausen, 1905
A consciência do sujeito poético é trágica - não no sentido do desespero, mas no sentido clássico: há lucidez sem redenção. O poema reconhece que não há transcendência garantida, nem salvação metafísica assegurada. O que existe é o homem diante de sua própria finitude, tentando ainda assim nomear o mundo antes que ele se cale.
Essa postura aproxima Hildeberto de uma linhagem existencial que passa por Camus e Heidegger, mas transfigurada pela sensibilidade poética. O ser não é conceituado; é sentido. A filosofia se encarna na imagem, no ritmo, na pausa.
Se tudo termina, resta a palavra - ainda que ferida, incompleta, provisória. Em No Fim de Todas as Coisas, a poesia assume o papel paradoxal de último abrigo humano, mesmo sabendo que também ela está condenada.
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Há, nesse ponto, uma ética da escrita: escrever não para vencer a morte, mas para olhá-la sem disfarces. A poesia torna-se gesto de dignidade diante do nada - uma recusa ao silêncio absoluto, mesmo sabendo que ele vencerá.
Estrutura e musicalidade
Formalmente, o texto sustenta uma musicalidade contida, quase litúrgica. O ritmo é pausado, reflexivo, favorecendo o peso semântico das palavras. Os cortes de verso funcionam como respirações existenciais, como se cada pausa fosse uma pequena meditação sobre o fim.
A economia verbal intensifica o impacto poético. O leitor é convocado não a consumir o poema, mas a habitá-lo. A leitura exige lentidão - virtude rara no tempo contemporâneo - e recompensa com profundidade.
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Hildeberto Barbosa Filho constrói, assim, uma poesia madura, filosófica e profundamente humana. Seu verso não busca deslumbramento; busca verdade. Não deseja aplauso; deseja escuta.
No fim, o que permanece não é a esperança fácil, mas algo mais raro; a lucidez que aceita o mundo mesmo quando ele falha.
Trata-se de uma obra que confirma o poeta como uma das vozes mais sólidas da poesia paraibana e brasileira contemporânea, capaz de unir pensamento, emoção e rigor formal numa escrita que resiste ao tempo - justamente porque reflete sobre ele.
Parceira
Acordo todo dia com a morte a meu lado. Sei que a morte passou a noite comigo. A Morte passou a vida comigo. Não morra, agora, poeta, diz a morte. Quero os epitáfios da poesia. Viva comigo ou sem mim.
Acordo todo dia com a morte a meu lado. Sei que a morte passou a noite comigo. A Morte passou a vida comigo. Não morra, agora, poeta, diz a morte. Quero os epitáfios da poesia. Viva comigo ou sem mim.











