Há quem imagine que somente o humano acometido da “loucura” da criação literária é capaz de promover a usinagem das palavras com a ...

Seriam os escritores melancólicos ou os melancólicos escritores?

escritores literatura melancolia escrita melancolica
Há quem imagine que somente o humano acometido da “loucura” da criação literária é capaz de promover a usinagem das palavras com a matéria da universalidade, por ser ele, com essa insanidade, vetor de estranhamentos que desencadeiam mudanças profundas nos semelhantes e, por consequência, no mundo, porque está em si
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J.H. Fragonard, 1769 ▪ Louvre
o germe que o devora a si próprio e, ao mesmo tempo, concebe o futuro das gentes.

Sob essa perspectiva, não deveria haver escritores sãos, não nesse sentido de loucura criativa. Apesar de que nem todos os insanos são escritores, parece óbvio.

Sigmund Freud, aparentemente, consolida esta assertiva quando professa: “Pode-se afirmar que o homem feliz jamais fantasia, mas o insatisfeito sim” (2014). Insatisfeito no sentido de incompleto, insano, acometido dessa loucura, diga-se, sagrada, como anunciou o poeta Arthur Rimbaud.

Freud compreende a fantasia como o elemento que encapsula, de afetos, o processo de criação literária, como, de resto, a criação artística. Diz ele, quando claramente relativiza sobre o processo criativo e expõe a dualidade
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inconsciente/realidade, como magma dessa realidade particular do criador (dichter):

O poeta (escritor) suaviza o caráter egoísta do sonho noturno por meio de modificações e ocultações e nos suborna com o prazer puramente formal, isto é, estético, proveniente da exposição de suas fantasias.
FREUD, O poeta e a fantasia
Eis o que também sinaliza o escritor argentino Ernesto Sabato, quando fala do “fanatismo” do autor com respeito ao seu processo de criação literária:

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"É preciso ter uma obsessão fanática, nada deve antepor-se a sua criação, deve sacrificar qualquer coisa a ela. Sem esse fanatismo, nada de importante pode ser feito."
O próprio Sigmund Freud se expressa, em outro momento (ao receber o Prêmio Goethe, Frankfurt, 1930), numa rendição ao processo criativo que identifica no autor de Fausto:

Goethe sempre valorizou altamente Eros, nunca tentou minimizar seu poder, seguiu suas expressões primitivas e mesmo licenciosas com não menor atenção do que suas manifestações mais sublimadas.
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Johann Wolfgang von Goethe (1749–1832), escritor, poeta, dramaturgo e pensador alemão, autor de Fausto, obra que atravessa toda a sua vida intelectual. ▪ Arte: J.E. Schumann ▪ Goethe Museum, Düsseldorf, Alemanha.
Massaud Moisés refere-se de modo particular ao território onde o poeta (escritor) garimpa seu trabalho criativo, que remete a um processo igualmente insano, mas visto de um modo lacaniano, objeto de um gozo, resultante de um “câncer” da linguagem. Massaud reporta-se a um determinado "reino de caos, anarquia, alogicidade, de sensações vagas, difusas, ainda não verbalizadas, impermeável ao mundo exterior, salvo na medida em que abriga os arquétipos, analogias profundas entre o inconsciente individual e coletivo" (MOISÉS, Criação literária; poesia).

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Massaud Moisés (1929–2018), crítico literário e professor da USP. ▪ Imagem: Academia Paulista de Letras.
"O sonhador oculta cuidadosamente aos outros suas fantasias, porque tem motivos de se envergonhar delas... se as comunicasse, não produziria com tal revelação prazer algum...". Novamente Freud, que arremata esclarecendo, em definitivo: “Em compensação, quando o poeta nos põe em presença de seu divertimento... sentimos um elevado prazer... Como o poeta o consegue é seu mais íntimo segredo.”

A diferença está fortemente evidenciada. O escritor trabalha com a mesma matéria com que mineram os seus semelhantes. Mas apenas ele, o autor, é capaz de transformar essa matéria em prazer estético e estranhamento. O homem “comum” não parece ter essas habilidades, ou, se as tem, não demonstra ter ciência de tê-las e, ainda mais, de utilizar esse instrumental, e talvez não tenha como aprender. Sua sina, se assim se pode chamar, é ser “apenas” leitor (e reinventor), ou nada. Há, portanto, uma profusão de pistas que levam ao desespero da condição humana como sua realidade imanente.

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Arte: Oscar Ghiglia, 1908
Mas somente aqueles realmente acometidos do mal da dor do mundo serão capazes de traduzir em obra o que se inscreve na contemporaneidade e na alma de uma gente. Eles são possuídos pelo “espírito” da fantasia. Mas, enquanto os homens comuns usam a fantasia como simples devaneio, os criadores utilizam-na como combustível para mover a fornalha da concepção literária.

Um demônio do qual não se escapa, e do qual só se sobrevive expondo as vísceras de sua angústia, tão pessoal e, simultaneamente, tão universal, através de sua expressão mais legítima que a manifestação literária permite como holocausto e como salvação. Mas também como redenção. Porém,
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Roland Barthes (1915–1980), crítico literário e pensador francês. ▪ Imagem: Collège de France
o que justifica a existência desse contingente de indivíduos que, graças ao seu sacrifício pessoal, apresentam-se como condutores de uma horda?

Essa pergunta parece remeter diretamente a um dos pilares do pensamento de Roland Barthes (Análise estrutural da narrativa), para quem as narrativas (a criação literária/poética) estão presentes em todos os povos, em todos os tempos, em todas as aldeias.

As narrativas, postula Barthes, começam com a própria história da humanidade. O ato de narrar acontecimentos e de contar histórias acompanha o homem desde a antiguidade; ou seja, não há gente sem uma linguagem e uma prática de narrativa. É da natureza humana:

A narrativa está presente em todos os tempos, em todos os lugares, em todas as sociedades; a narrativa começa com a própria história da humanidade; não há, em parte alguma, povo algum sem narrativa; todas as classes, todos os grupos humanos têm suas narrativas, e frequentemente estas narrativas são apreciadas em comum por homens de cultura diferente, e mesmo oposta...
Considerando verdadeira sua afirmação, pode-se entender a narrativa como um imperativo da aventura humana. Narrativa aqui compreendida como uma sequência articulada de acontecimentos, enredo, personagens, tempo, espaço e narrador, que induz a uma compreensão a partir desses elementos essenciais e que encontram eco no leitor/ouvinte, quando a mensagem completa o ciclo que se inicia com a criação da narrativa e se completa
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Walter Benjamin (1892–1940) filósofo e ensaísta alemão. ▪ Fonte: Wikimedia
com o entendimento ou a interpretação de seu conteúdo.

Para Walter Benjamin (Magia e técnica, arte e política), seguindo a inscrição de Roland Barthes, o homem encontrou na arte de contar histórias a possibilidade de trocar experiências, uma faculdade que teria interferido na evolução da espécie humana. E identifica, inclusive, uma de suas características marcantes, afirmando que as narrativas mais importantes são “as que menos se distinguem das histórias orais contadas pelos inúmeros narradores anônimos”. Nessa linha de raciocínio, o citado estudioso se expressa:

A alegoria é o único, e muito poderoso, divertimento que se oferece ao melancólico. É certo que a pomposa ostentação com que o objeto banal parece emergir das profundezas da alegoria logo dá lugar ao seu desconsolado rosto quotidiano; é certo que à entrega meditativa do doente (melancólico) ao pormenor isolado e a coisas menores se segue a desilusão.
Finalmente, Marie-Claude Lambotte, palmilhando a melancolia a partir de pressupostos psicanalíticos na obra de Freud, Klein, Winnicott e Lacan, irá afirmar que o estado de perda do melancólico é consequência
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Marie-Claude Lambotte, filósofa e psicanalista belga. ▪ Div.
do "desfalecimento do olhar materno" (LAMBOTTE, O discurso melancólico: da fenomenologia à metapsicologia). E ainda pondera que as neuroses narcísicas, onde capitula a melancolia, são marcadas pela perda da autoestima, do interesse pelo mundo exterior e por uma falha, ou ferida, própria à constituição narcísica do sujeito (LAMBOTTE, La mélancolie. Études cliniques).

A partir dessa perspectiva, surge a fragilidade do eu, dispondo o sujeito melancólico em vulnerabilidade com o vazio, o que resultaria num impulso criativo para as artes, ou mais especialmente, para a criação literária.

Freud irá tratar do tema em vários de seus ensaios sobre literatura, mas num texto sobre “Escritores criativos e devaneios”, resultado de uma conferência em 1907, e que antecedeu Escritos sobre literatura: o poeta e o fantasiar, ele irá enfrentar a questão do mecanismo de criação literária, a partir de um processo de sublimação, quando observa quantos eventos dolorosos na primeira infância podem levar o
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Arte: Auguste Baud-Bovy, S.XIX. ▪ Musée Carnavalet, Paris
escritor a produzir texto que, em vez de causar dor a quem lê, provoca, na verdade, um prazer estético. Algo como uma elaboração criativa a partir de um elemento que devasta o sujeito, mas se exterioriza em forma de satisfação:

Quando o escritor criativo nos apresenta suas peças, ou o que julgamos ser seus próprios devaneios, sentimos um grande prazer, provavelmente originário da confluência de muitas fontes. Como o escritor o consegue constitui seu segredo mais íntimo. A verdadeira ars poetica está na técnica de superar esse nosso sentimento de repulsa, sem dúvida ligado às barreiras que separam cada ego dos demais.
No ensaio O poeta e o fantasiar, o pai da psicanálise irá abordar uma das características desse sujeito que fantasia, assumindo que as fantasias são desejos insatisfeitos e, aí, sua estreita relação com o sonho. Então ele afirmou: "Poder-se-ia dizer que o feliz não fantasia nunca; só o faz o insatisfeito". E ainda, como cada fantasia exteriorizada (através da criação artística) constitui, na verdade, a satisfação de um desejo, “uma correlação da realidade insatisfatória”.

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Arte: Ivan Kulikov ▪ Galeria de Arte, Murom, Rússia
Uma vez enfrentada essa possibilidade, abre-se a porta para o estreitamento da relação entre melancolia e sublimação. Dentro dessa percepção, se a pulsão de morte conduz à destruição, também pode ser uma possibilidade de reconstrução. É nesse ponto que o texto de Lambotte remete mais diretamente a Lacan.

Lacan, no Seminário VII, que trata da ética da psicanálise, ao abordar a sublimação, descarta a religião como mecanismo capaz de satisfazer a composição desse vazio. Embora reconheça a
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Jacques Lacan (1901–1981), psicanalista francês. ▪ Fonte: Wikimedia
religião como uma forma sublimada, prefere o arcabouço oferecido pela criação artística, pela capacidade de manter esse vazio, que é inerente ao sujeito e, apesar do sofrimento, também oferece uma perspectiva de prazer:

Toda arte se caracteriza por um certo modo de organização em torno desse vazio. Não creio que seja uma fórmula vã, malgrado sua generalidade, para orientar aqueles que se interessam pela elucidação dos problemas da arte, e penso dispor dos meios para lhes ilustrá-lo de maneira múltipla e muito sensível.
O professor Luiz Costa Lima (Melancolia: literatura), apesar de tratar com prudência essa associação entre melancolia e criação literária, irá observar como podem ocorrer estreitas relações, quando avalia a condição do artista em sua interface com sua obra:

Ao artista é possível criar sob a condição melancólica: havê-la vivido ou estar sob a
USP
sua iminência o leva a manter-se sensível à condição que o leva a criar. Então, a falta de sentido para a vida e para o mundo, provocadora dos diversos tipos e graus de melancolia, tanto pode provocar o ensimesmamento ou o desvario, quanto a procurar conceber a constituição do que o envolve, ou ainda, eventualmente, as duas coisas.
É possível encontrar essa mesma abordagem em vários trabalhos produzidos no Brasil, que procuram compreender a relação entre literatura e melancolia. Um deles, da pesquisadora Gláucia Regina Vianna, que, em sua dissertação sobre “Estados melancólicos: o poder da criação nas ruínas da memória”, também postulou na mesma linha de Luiz Costa Lima:

Consideramos que o homem, premido pelos estados melancólicos, pode deixar testemunhos de sua travessia pelo estado de trevas que
CNPq
possam ser endereçados ao contexto social. Nessas produções fica evidente a utilização de recursos que se apresentam como um raio de luminosidade na escuridão: a lembrança de uma voz, de um odor, de um sabor, de uma textura e outros tantos fragmentos de memória que o sujeito lança mão nessas condições, em uma aposta na vida e no amor, uma luz na escuridão.
VIANNA, Memória e melancolia: o poder da criação em estados de ruínas
Todo esse encadeamento de observações psicanalíticas autoriza especular se os escritores, ou mais especialmente os dichter (de que fala Freud), são sujeitos, talvez em sua maioria, de viés melancólico e propensos à criação literária. O que, obviamente, não quer dizer, no sentido inverso,
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que todo melancólico seja um escritor ou uma pessoa inventiva.

De qualquer forma, é lícito, diante do exposto, registrar o que grafou Erasmo de Rotterdam, em Elogio da loucura, talvez não nesse contexto, mas com uma expressividade que se torna um imperativo consignar:

A mente humana, enfim, é feita de tal modo que a ficção a domina muito mais do que a verdade.
Talvez ainda mais, se o sujeito melancólico impõe necessariamente um timbre melancólico em sua obra. Esse último questionamento remete às palavras de Julia Kristeva, quando postula, na abertura de seu Sol Negro:

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Para aqueles a quem a melancolia devasta, escrever sobre ela só teria sentido se o escrito viesse da melancolia. Tento lhes falar de um abismo de tristeza, dor incomunicável que às vezes nos absorve, em geral de forma duradoura, até nos fazer perder o gosto por qualquer palavra, qualquer ato, o próprio gosto pela vida. Esse desespero não é uma versão que pressuporia capacidades de desejar e de criar, de forma negativa, claro, mas existentes em mim.
Mas a indagação persiste: seriam os escritores melancólicos ou os melancólicos escritores?

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