“A solidão é fera, a solidão devora…” Para mim, a solidão não é fera nem devora: é companhia. É aconchego, colo e escuta — e, m...

Sobre minha solidão

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“A solidão é fera, a solidão devora…”
Para mim, a solidão não é fera nem devora: é companhia. É aconchego, colo e escuta — e, muitas vezes, necessidade. Nunca me senti abandonado, esquecido ou sem rumo por escolher o isolamento em certos momentos. Ao contrário: é nesse estar só que organizo pensamentos, decanto afetos e reencontro o eixo.

A solidão me devolve clareza, afina os sentidos e me ensina a habitar o tempo sem pressa. Gosto de estar só porque, quando estou só, estou inteiro. Há dias em que o apartamento vira refúgio: uma cerveja estupidamente gelada, queijos, azeitonas, amendoins, castanhas. A música entra sem pedir licença — e fica. MPB que me atravessa: Zé Ramalho, Chico Buarque,
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Belchior, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Gilberto Gil, Ney Matogrosso, Chico César, Zeca Baleiro, Adriana Calcanhoto, Maria Bethânia, Marisa Monte, Martins, Seu Pereira. E o rock brasileiro que ensinou gerações a pensar e sentir: Cazuza, Frejat, Renato Russo, Engenheiros do Hawaii, Rita Lee. Ao fundo, o rock que cruza fronteiras e décadas: Pink Floyd, Led Zeppelin, Rod Stewart, Scorpions, Guns N’ Roses, Freddie Mercury, Beatles, Rolling Stones, Dire Straits.

Nesses momentos, não há carência: há presença. O silêncio vira linguagem, e a escuta de mim mesmo se torna um exercício de liberdade. É nesse intervalo do mundo que escrevo meus poemas, leio bons livros — sobretudo os de autores paraibanos, como Aldo Lopes, Ana Adelaide, Ana Daviana, Ana Paula Cavalcanti, Annecy Venâncio, Augusto dos Anjos (o maior de todos), Hildeberto Barbosa Filho, José Nunes, Juca Pontes, Lau Siqueira, Lucas Arroxelas, Marília Arnauld, Maria Valéria Rezende (paulista/paraibana), Mirtizi Lima Ribeiro, Neide Medeiros, Políbio Alves, Sérgio de Castro Pinto, Tião Lucena, dentre outros — e cultivo a autonomia de sentir sem depender do ruído alheio.

Estar só me ensina a não exigir do outro o que preciso aprender comigo. Dá-me equilíbrio emocional, senso de limite e uma forma mais honesta de afeto. Essa solidão não me falta: ela me completa e me contempla. Não me vejo como um lobo solitário. Gosto de pessoas — algumas — desde que
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Raniery Abrantes com o neto, Heitor ▪️ Acervo do autor
respeitem meus silêncios e meus espaços. A solidão, para mim, não rompe vínculos; ela os qualifica. Quem aprende a estar só chega aos encontros sem fome, sem cobrança, sem medo do vazio.

Também gosto de estar com os filhos e o neto, com a namorada, com os amigos, com a família. Dos papos aleatórios, das trocas sinceras, das convergências, das divergências (desde que sadias), das confidências que só a intimidade permite. Aprecio a presença quando ela vem sem apegos exagerados, sem cobranças de constância, sem a obrigação de ocupar todos os espaços. Estar com o outro, quando se sabe estar só, é escolha consciente — não refúgio nem dependência.

Por isso, nunca me senti abandonado nos braços da solidão. Há solidões que ferem, esmagam, adoecem. A minha não. A minha abriga, fortalece, amadurece. É nela que me reconheço, me sustento e sigo.

Mil pensamentos me envolvem, envelheci no caminho, achei-me num pergaminho, recordações me absorvem. Poemas em mim se movem por labirintos em vão. E, se canto esta canção, é pra dizer a verdade: ancorei minha saudade no porto da solidão.

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  1. Quanta sensibilidade e clareza nesta prosa poética. Uma aula sobre saber se enxergar e se amar na solitude. Parabéns!

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