A cena é horrenda, degradante! Portas e janelas arrombadas. O teto caindo em pedaços. Todos os cômodos visíveis estão imundos.
Lixo espalhado por todos os cantos, paredes enegrecidas, chão imundo. Dejetos e restos de comida espalhados pelo chão. Completo abandono.
Falo, com muita tristeza, do vídeo realizado pelo diligente jornalista Kubitschek Pinheiro. Trata-se da filmagem do prédio da antiga sede do Esporte Clube Cabo Branco. Registra a decadência total do clube, que foi tão importante para a minha geração.
Imagens atuais da sede onde funcionou o antigo Esporte Clube Cabo Branco ▪️ Instagram: Kubitschek Pinheiro (Reels)
Nada daquilo lembra o passado de glória daquele que foi o melhor clube da capital. E que eu e meus irmãos tivemos a oportunidade de frequentar, junto com o nosso pai, Francisco Espínola.
Embora desde os 10 anos já frequentasse a sede esportiva de Miramar, a sede central passei a frequentar na minha juventude, a partir dos 13–14 anos.
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Em seu restaurante, eu pude, pela primeira vez na vida, sentir ar-condicionado. Ainda sinto o cheiro característico. E foi lá que, pela primeira vez, eu comi lagosta ao termidor e pêssegos em compota ao creme de chantilly! Experiência que me acompanhou até os dias de hoje.
Andar pelo clube me era prazeroso. Lembro-me de que, uma tarde, eu vinha correndo do café e pulei por sobre uma cadeira, na entrada da sala de xadrez. Levei um quedaço ao enganchar o pé na cadeira.
Assistindo a tudo isso estava o célebre dermatologista Dr. Arnaldo Tavares, que disse:
“Você num nega que é filho de Chico Espínola!”
Fiquei morto de encabulado!
A sala de xadrez era o nosso quartel-general. Lá encontrávamos os amigos enxadristas, batíamos papo e de lá íamos assistir a um filme, no Cine Rex (em frente), no Plaza ou no Municipal, todos no centro da cidade.
Antigo Cine Rex, no centro histórico de João Pessoa ▪️ Facebook: @curtajoaopessoa
O xadrez era muito bem frequentado. Dentre outros, lembro-me de alguns personagens. Além do Dr. Arnaldo Tavares, tinha os irmãos Paraguay, Fernando e Ferdinando; Dr. Herul Sá; Arnaldo Carneiro Leão; Seu Lyra, do Foto Lyra; Romero Peixoto; Rogério Klüpell; Wilberto Trigueiro; Zezinho Tavares; Máximo Serpa; Bosco DelaBianca; Frank Lins (um craque!); os Mestres Chiquinho Cavalcanti e Luismar Brito; Sebastião; Ivo Bichara; Anchieta Antas; Petrov Baltar; Flávio Libânio; e o meu pai, Francisco Espínola.
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Às vezes, eu me arriscava até o primeiro andar, onde havia a sinuca e a ala dos reservados do carteado. Esta ala do clube era rica de lendas, histórias de fortunas perdidas, de viciados que apostavam as esposas, após terem perdido tudo o que tinham, e tentavam resgatar a fortuna. Era o que diziam.
Um episódio clássico foi a demonstração de raiva de um perdedor. Ele abriu a janela e arremessou o baralho justo no momento em que passava abaixo a procissão do Senhor Morto. Os religiosos e os fiéis assistiram horrorizados a uma chuva de cartas de todos os naipes sobre o andor! O bispo classificou como um escândalo, cobrando depois uma atitude do Cabo Branco.
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Já os do Clube Cabo Branco, estes eram doidos refinados, letrados, elegantes, empresários ou bem-assalariados. Mas geralmente tão doidos quanto os de fora.
Havia também figuras folclóricas, engraçadas, dotadas de bom humor, que participavam das rodas que começavam nas salas, atravessavam as janelas e completavam-se nas calçadas.
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Outra dessas figuras era Biu Caveira, o saudoso jornalista Marcos Tavares. Outra figura que se destacava era o amigo Budú.
Budú contava estórias fantásticas, inimagináveis e inacreditáveis, que sempre se concluíam com a descrença escancarada dos ouvintes. Mas sempre muito divertidas. Uma delas foi que ele havia fumado, na praia de Tambaú, um cigarro americano “à prova d’água!”
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Narro a seguir uma dessas estórias. O excelente filme *“Fogo, o Salário da Morte”*, de José Bezerra e W. J. Solha, foi filmado na cidade de Pombal, alto sertão paraibano. Conta a história de um pistoleiro que matava por contrato.
Excelentes roteiro e fotografia, o filme começa com o pistoleiro (interpretado por Solha) percorrendo as ruas de Pombal, segurando um jornal que contém um revólver. Tudo isso com os créditos simultaneamente sendo apresentados, com música de fundo.
Primeiro longa-metragem de ficção produzido na Paraíba, em 1970, dirigido por Linduarte Noronha
Ao chegar ao local, o pistoleiro demora um pouco, como que assistindo ao jogo. Quando este termina, o pistoleiro pergunta:
“O Sr. é o fulano de tal?” (e diz o nome do personagem do Sr. Edgar).
Quando este responde que sim, o pistoleiro empunha a arma e “mata” o Sr. Edgar com três tiros.
Essa é a cena do filme. Mas, no Clube Cabo Branco, as más línguas divulgaram uma versão diferente. Pois não é que disseram que o personagem morreu por causa de Budú?!
O que circulou no clube foi o seguinte. O pistoleiro perguntou:
“O Sr. é o PAI DE BUDÚ?!”
“Sim”
BAM-BAM-BAM! Esse era o Cabo Branco da nossa juventude. Fez parte da nossa história, por isso é que eu me horrorizei com a situação arruinada atual do prédio do clube.
Pelo visto, brevemente estará no chão. Então não haverá mais nenhum indício daquilo que foi o nosso Clube Cabo Branco. Só restarão as nossas lembranças, que morrerão conosco, não sobrando vestígios para as gerações seguintes.
Triste. Muito triste...
N.E.: Veja aqui o vídeo mencionado pelo autor, postado no Instagram do jornalista Kubitschek Pinheiro.
















