Tal como Machado de Assis , Carlos Drummond de Andrade era – é – considerado um burocrata perfeito. Sério, responsável, metódico e or...

O amanuense que não era Belmiro

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Tal como Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade era – é – considerado um burocrata perfeito. Sério, responsável, metódico e organizado, foi tudo isso, enquanto funcionário público, sem forçar a natureza, pois até na vida privada era assim, com a vida pessoal e também a do seu tempo devidamente fichada, catalogada e arquivada; de tal modo que seus estudiosos pouca dificuldade têm para acessar informações e outros registros importantes sobre suas biografia e obra. Nesse perfeccionismo, creio até que ultrapassou Machado como ícone da burocracia brasileira.

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As duas principais experiências burocráticas do poeta se deram no âmbito do Ministério da Educação e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN. No primeiro, exerceu o importante cargo de chefe de gabinete do ministro Gustavo Capanema, seu amigo pessoal, cuja confiança no itabirano era tanta que até lhe permitia assinar documentos oficiais imitando sua assinatura. No IPHAN, também sob a chefia de outro amigo, Rodrigo Melo Franco de Andrade, ajudou a consolidar o órgão em seus começos. Nessas duas atividades consumiu décadas, até se aposentar, prestando relevantes serviços ao país.

A sua passagem pelo Ministério da Educação abrange o período do Estado Novo de Vargas e isso até hoje tem custado ao poeta muitas cobranças, principalmente por parte de fundamentalistas ideológicos que insistem em lhe atribuir suposta colaboração com a ditadura varguista. Mil vezes o poeta explicou que serviu ao amigo Capanema e não ao ditador, e que suas funções eram exclusivamente administrativas e não de caráter político. Mas adiantou? Claro que não, pois como convencer quem não admite ser convencido? Cabeça dura é terra impenetrável, sabemos. Mas o fato é que o poeta tirou de letra essa patrulha e seguiu tranquilo na vida e na obra; da mesma forma que logo desligou-se sem remorso do Partido Comunista,
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após constatar o dogmatismo emburrecido de seus camaradas estreitos. Não por coincidência, algumas obras suas de nítido caráter político-progressista foram publicadas nesse período em que trabalhou com Gustavo Capanema, o que, por si só, prova o não alinhamento ideológico de Drummond com o autoritarismo então vigente.

Já sua temporada no IPHAN não teve essa chateação. Ali teve plenas condições de colaborar com iniciativas pioneiras de preservação arquitetônica e cultural de monumentos históricos brasileiros, até então sujeitos à indiferença oficial e à degradação decorrente. Nesse sentido, pode-se afirmar que Rodrigo Melo Franco de Andrade acertou em cheio ao levar o poeta para o IPHAN, repartição que combinava muito com ele e seu temperamento, e na qual talvez trabalhasse anonimamente cercado por burocráticos arquivos de aço, como se isolado do mundo.

Em várias entrevistas, Drummond jamais repudiou seus tempos de funcionário público; pelo contrário, sempre se referiu à sua experiência na burocracia estatal como positiva. Em 1985, falando ao cronista Humberto Werneck para a revista Isto É, ele afirmou expressamente: “Eu tenho duas experiências fundamentais na minha vida: a de jornalista e a de funcionário público”. Outro depoimento, desta vez à sua filha Maria Julieta: “Eu tinha o sentido de Serviço Público”.
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Esta frase diz tudo, pois esse sentido é exatamente o que diferencia o bom do mau funcionário; o servidor responsável do relapso. Assim como Machado de Assis e tantos outros, Drummond se colocava verdadeiramente a serviço do público, na mais pura e alta expressão da palavra.

Incontáveis escritores brasileiros foram funcionários públicos. Ainda hoje o serviço público é visto como uma atividade compatível com a literatura. Os exemplos são inúmeros: Euclides da Cunha, Graciliano, Cyro dos Anjos, Lygia Fagundes Telles, Afonso Arinos de Melo Franco, Guimarães Rosa, José Lins do Rego e Josué Montello, para citar apenas alguns. A quantidade de diplomatas escritores é imensa e as universidades públicas abrigam uma multidão de escribas. Drummond, que não queria ser fazendeiro nem farmacêutico, viu nas repartições, assim como nos jornais, o seu refúgio ideal. Creio que ser funcionário público, no sentido exclusivamente burocrático da palavra, não chega a ser propriamente uma vocação para ninguém, mas também não constitui uma maneira muito desagradável de ganhar a vida; existem piores, muito piores.

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A figura do funcionário público está presente em vários poemas drummondianos. O pesquisador Fábio Lins de Lessa Carvalho fez um excelente garimpo nessa seara e publicou-o no livro Drummond e a Administração Pública (Editora Forum, Belo Horizonte, 2025), que recomendo. Entretanto, sobre o tema, destaco o poema “Escravo em Papelópolis”, que consta do livro póstumo do poeta, Farewell ( Editora Record, Rio de Janeiro, 1996), livro esse tido como uma espécie de testamento, por ter sido o último organizado por Drummond. Transcrevo-o a seguir, endossando, na qualidade de também amanuense a vida inteira, cada palavra desse pequeno e definitivo desabafo, que diz tudo:

Ó burocratas! Que ódio vos tenho, e se fosse apenas ódio… É ainda o sentimento da vida que perdi sendo um dos vossos.


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