Tal como Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade era – é – considerado um burocrata perfeito. Sério, responsável, metódico e organizado, foi tudo isso, enquanto funcionário público, sem forçar a natureza, pois até na vida privada era assim, com a vida pessoal e também a do seu tempo devidamente fichada, catalogada e arquivada; de tal modo que seus estudiosos pouca dificuldade têm para acessar informações e outros registros importantes sobre suas biografia e obra. Nesse perfeccionismo, creio até que ultrapassou Machado como ícone da burocracia brasileira.
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A sua passagem pelo Ministério da Educação abrange o período do Estado Novo de Vargas e isso até hoje tem custado ao poeta muitas cobranças, principalmente por parte de fundamentalistas ideológicos que insistem em lhe atribuir suposta colaboração com a ditadura varguista. Mil vezes o poeta explicou que serviu ao amigo Capanema e não ao ditador, e que suas funções eram exclusivamente administrativas e não de caráter político. Mas adiantou? Claro que não, pois como convencer quem não admite ser convencido? Cabeça dura é terra impenetrável, sabemos. Mas o fato é que o poeta tirou de letra essa patrulha e seguiu tranquilo na vida e na obra; da mesma forma que logo desligou-se sem remorso do Partido Comunista,
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Já sua temporada no IPHAN não teve essa chateação. Ali teve plenas condições de colaborar com iniciativas pioneiras de preservação arquitetônica e cultural de monumentos históricos brasileiros, até então sujeitos à indiferença oficial e à degradação decorrente. Nesse sentido, pode-se afirmar que Rodrigo Melo Franco de Andrade acertou em cheio ao levar o poeta para o IPHAN, repartição que combinava muito com ele e seu temperamento, e na qual talvez trabalhasse anonimamente cercado por burocráticos arquivos de aço, como se isolado do mundo.
Em várias entrevistas, Drummond jamais repudiou seus tempos de funcionário público; pelo contrário, sempre se referiu à sua experiência na burocracia estatal como positiva. Em 1985, falando ao cronista Humberto Werneck para a revista Isto É, ele afirmou expressamente: “Eu tenho duas experiências fundamentais na minha vida: a de jornalista e a de funcionário público”. Outro depoimento, desta vez à sua filha Maria Julieta: “Eu tinha o sentido de Serviço Público”.
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Incontáveis escritores brasileiros foram funcionários públicos. Ainda hoje o serviço público é visto como uma atividade compatível com a literatura. Os exemplos são inúmeros: Euclides da Cunha, Graciliano, Cyro dos Anjos, Lygia Fagundes Telles, Afonso Arinos de Melo Franco, Guimarães Rosa, José Lins do Rego e Josué Montello, para citar apenas alguns. A quantidade de diplomatas escritores é imensa e as universidades públicas abrigam uma multidão de escribas. Drummond, que não queria ser fazendeiro nem farmacêutico, viu nas repartições, assim como nos jornais, o seu refúgio ideal. Creio que ser funcionário público, no sentido exclusivamente burocrático da palavra, não chega a ser propriamente uma vocação para ninguém, mas também não constitui uma maneira muito desagradável de ganhar a vida; existem piores, muito piores.
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Ó burocratas!
Que ódio vos tenho, e se fosse apenas ódio…
É ainda o sentimento
da vida que perdi sendo um dos vossos.









