Consta-me que, ao dirigir-me ao nosso ilustre monarca, o "Vossa Majestade" exigiria tratamento na terceira pessoa do singular; no entanto, em se tratando dessa figura de tão nobres predicados, fá-lo-ei nesta missiva usando a segunda pessoa do plural, por ser, a meu ver, mais elegante e respeitosa. Então, à carta.
À Vossa Majestade Imperial, Dom Pedro II, Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil
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Ah, Majestade, como a nação ficou órfã desde que vós embarcastes no *Alagoas* rumo à Europa, no trágico 17 de novembro de 1889, levando convosco a imperatriz, filha, genro e netos. Nunca mais a nação se recuperou desde a traição de que fostes vítima. Os alfarrábios de história teimam em não descrever a ignomínia daquele marechal que, à noite, vos jurava fidelidade e, na manhã seguinte, foi tirado dos pijamas para a farsa da Proclamação da República.
Nem imaginais que, ainda hoje, a caserna, a despeito da predominância de honradez na tropa, nos momentos em que a mãe Pátria está aflita, deixa escapar alguns Deodoros, que surgem escondidos sob as estrelas pregadas nas platinas de suas túnicas para se entregarem à prática de suas perfídias.
Vós sonhastes que, ao completardes vosso reinado e tiverdes passado o comando da nação à vossa herdeira Isabel, já teríamos conquistado o merecido reconhecimento entre as nações. Preparastes o alicerce onde edificaríamos o Brasil que vós vislumbrastes e que alguns de nós ainda creem ser possível existir.
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Majestade, permiti-me voltar no tempo para que fiqueis ciente da admiração deste vosso súdito por vós. Aliás, este sentimento é uma das motivações que me levaram a rabiscar estas linhas.
Creio ser bom alvitre dizer-vos ser de meu conhecimento que vosso pai, nosso primeiro Pedro, ao partir para ser o D. Pedro IV de Portugal, deixou-vos aos cuidados de José Bonifácio, com quem ele vivia às turras, mas sabia que vosso preceptor era homem de honra, de princípios e de invejável formação intelectual. Creio que os valores morais que nortearam vossa vida herdastes também desse bom homem e de vossa genitora, a arquiduquesa Maria Leopoldina da Áustria. Pouco sois capaz de recordar de vossa mãe, que nos deixou nove dias depois que vós completastes o primeiro ano de vossa vida.
Depois de Bonifácio, que perdera a vossa tutela em 1833, Manuel Inácio de Andrade Souto Maior, marquês de Itanhaém, assumiu o cargo de vosso tutor. Tivestes, desde então, a prestimosa Maria Carlota, condessa de Belmonte, como aia, que dedicou a vós carinho e atenção de uma mãe. Vós, ainda nos verdes anos, a chamáveis carinhosamente
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de "Dadama" e assim a tratastes mesmo já adulto. Sei que não esquecestes do negro alforriado Rafael, veterano da Guerra da Cisplatina, que vosso pai, ao partir, deixou com a missão de proteger-vos, o que este valoroso homem fez até o fim de seus dias.
Assim, Majestade, não é difícil deduzir que Bonifácio, Manuel Inácio, Maria Carlota e Rafael, mais a herança de sangue que tivestes da arquiduquesa, moldaram vosso caráter.
Fostes uma criança que mais se entregou aos livros do que aos folguedos infantis. Daí vossa erudição e vosso apreço pelas artes, pela ciência, pela natureza e, o que julgo ser de vital importância, tivestes uma visão empreendedora, incomum no século em que vivestes.
Quanto ao vosso reinado, deixou-nos legados que foram fundamentais para a construção de nossa identidade como nação! Preservastes e ampliastes nossas fronteiras, construístes ferrovias, trouxestes o telégrafo, modernizando as comunicações. Criastes a navegação a vapor, integrando regiões. A vós devemos o desenvolvimento da cultura cafeeira. Vencestes guerras e debelastes revoltas. Por outro lado, em vosso reinado fomos agraciados com conservatórios e museus, e procurastes modernizar nossa educação; vimos as artes florescerem.
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Não me foge à memória o adágio: "Dizei-me com quem andais e direi quem sois". Pois, Majestade, cuidastes de acercar-vos de gente da melhor qualidade: Graham Bell, Charles Darwin, Victor Hugo, Friedrich Nietzsche, Richard Wagner e Louis Pasteur. Estes são homens notáveis que tinham por vós profunda admiração e respeito.
Fostes leitor contumaz e abraçastes a cultura como um dos pilares para a edificação de uma nação. Éreis fluente em francês, latim, grego, alemão, italiano e espanhol. Tivestes conhecimento do russo, hebraico, sânscrito e até do nosso tupi-guarani. Fostes motivo de orgulho para nossa brasilidade nos países que visitastes, um gigante de nossa diplomacia. Cada fala vossa engrandecia-nos perante o mundo civilizado.
Ali, no Paço de São Cristóvão, no palácio onde vivestes, não permitistes cativos a serviço da corte. Cultivastes a simplicidade, a parcimônia e não usastes o erário público para uso próprio ou para comprar alianças.
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Éreis pela abolição, mas tivestes que enfrentar a sanha das elites, que quiseram fazer-vos refém; sabiamente, porém, fostes costurando a libertação até que vossa filha assinou a lei que não permitiria a continuidade dessa mácula em nossa história. Pagastes com o trono vossa decisão.
Ah, Majestade, perdoai-me se algum equívoco histórico cometi nesta missiva. Não me fiz historiador por formação. Apenas venho, por meio desta, trazer a voz de milhares de patrícios que sentem falta do vosso exemplo, que, se seguido por nossos dirigentes, devolver-nos-ia um precioso bem que tememos estar-nos escapando para sempre: a Esperança.
Da Parahyba do Norte
Outono do bicentenário do vosso nascimento Vosso súdito, L.A.P.