Todos los seres
tendrán derecho
a la tierra y a la vida,
y así será el pan de mañana
el pan de cada boca,
sagrado,
consagrado,
porque será el produto
de la más larga y dura
lucha humana.
Pablo Neruda. Oda al pan
Há certos livros que me atraem pelo título, outros pela capa e há aqueles que só considero válidos após a leitura. Pão com sabor de poesia: crônicas e (talvez) argumentos (João Pessoa: Selinho Editorial, 2025) me cativou pelo título e pela capa, uma capa que remete ao tempo das padarias de bairro, padarias à moda antiga.
Quanto ao título é uma mescla de duas coisas agradáveis ao paladar ( pão) e ao espírito ( poesia). Mais uma vez um livro/presente dos amigos Yó e Cláudio Limeira. Eles conhecem o meu gosto literário e não iriam me presentear com qualquer livro, mas com um livro que sabiam que eu iria gostar.
O pão vai além de sua função de alimento básico em todas as culturas e civilizações, é um dos símbolos mais universais da humanidade, está presente nas religiões, na literatura, nas artes. Na Igreja Católica, o pão é tão divino que se associa ao próprio corpo de Deus. A famosa oração Pai Nosso bendiz o pão com estas palavras: “ O pão nosso de cada dia nos dai hoje ...” . Há vários exemplos da presença do pão nos milagres de Cristo, um deles é o da multiplicação dos pães e dos peixes narrado pelos quatro evangelistas: Mateus, Marcos, Lucas e João. É um dos símbolos mais ricos e recorrentes, representa tanto o sustento físico como o próprio Jesus Cristo que se autoproclama: “Eu sou o Pão da Vida”.
Na cultura hebraica, o pão é tratado com reverência e possui ritos específicos, eles usam o pão ázimo que não utiliza o fermento – o Matzá, conhecido também como o “pão da aflição” porque está associado à fuga dos judeus para o Egito, e o Chalá, um pão trançado e muito macio, enriquecido com ovos e mel, geralmente servido durante o Shabat.
Na tradição árabe, o pão representa partilha e hospitalidade. Eles produzem o Sírio que é achatado, fininho, muito apropriado para recheios. Para os árabes, o pão é um alimento sagrado e não deve ser jamais desperdiçado, eles ainda fabricam o Pão Folha (Markook ou Lavash), extremamente fino, é assado em chapas de ferro e serve para enrolar carnes e vegetais.
Na literatura, o pão está presente em muitos poemas. A “Ode ao pão”, de Pablo Neruda, que aparece como epígrafe deste texto, é um bom exemplo de louvor a este alimento que tem sua origem nas eras mais remotas da humanidade. Manuel Bandeira escreveu o poema “Trem de ferro” que, de forma onomatopaica, se utiliza da palavra pão. Na primeira estrofe, para imitar o barulho do trem, o poeta usou palavras simples como café e pão:
Café com pão
Café com pão
Café com pão
Manuel Bandeira. Trem de ferro
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O café e o pão integram a primeira refeição de muitas pessoas, às vezes só o café e o pãozinho, nada mais. Certamente, em muitos lares do bairro de Jaguaribe, nos anos 1960, o pão não vinha ainda com sabor de poesia, ali morava um menino, filho do dono da pequena padaria Senhor dos Passos, que conduzia sacolas de pão e fazia a entrega do substancioso e desejado alimento para várias famílias do bairro. Recordando essa fase da infância, o poeta transformou tudo em poesia.
João Batista de Brito, professor, cronista, escritor e crítico de cinema e literatura. ▪ Foto: O. Nascimento, via Wikimedia (adapt.)
João Batista de Brito é professor, uso o verbo no tempo presente porque seus ensaios são verdadeiras aulas, trazem lições primorosas, aposentou-se da universidade, mas continua dando aulas através de seus textos. É um poeta/cronista/contista/memorialista/cinéfilo/tradutor “atento à linguagem do mundo e do outro”, como bem afirmou a romancista Marília Carneiro Arnaud.
Na Apresentação do livro Pão com sabor de poesia: crônicas e (talvez argumentos) o escritor revela que os textos que se seguem não foram escritos para compor um livro, veiculados na sua página semanal do Facebook, ele teve a impressão de que logo seriam esquecidos, mas leitores e amigos sugeriram que reunidos poderiam resultar em livro. Não resistiu à tentação e capitulou.
A primeira parte, que denominou de crônicas, tem um viés autobiográfico. Restaram dúvidas quanto à denominação da segunda. Preferiu “(talvez) Argumentos”, por considerar que os textos agrupados nesse segundo momento estariam mais próximos de “textos para serem filmados”. Assim se cumpriu a profecia sugerida por um leitor mais arguto. Versado em técnicas de composição de filmes, ele explica as diferenças entre roteiro e argumentos e considera que escreveu esses textos
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com o espírito de um roteirista novato. Modéstia exagerada do escritor.
Nas crônicas, a cidade de Santa Rita, onde nasceu, é seu locus amoenus. O bairro de Jaguaribe, onde veio morar ainda criança, é descrito de forma muito poética: “Foi lá que formei minha personalidade e, no meu imaginário de idoso, ele perdura como espaço mágico e mesmo poético” (p. 24).
Antes da família se transferir para o bairro de Jaguaribe, morou no centro da cidade, na rua Amaro Coutinho, paralela à Beaurepaire-Rohan. Achava o lugar muito feio, ruas sem calçamento, terrenos baldios, um lugar desolado e suplicava a Tóia, a irmã mais velha, residente em Santa Rita, que o levasse de volta para Santa Rita. Depois veio a mudança para Jaguaribe. O pai abriu uma padaria e por vinte cinco anos Jaguaribe foi sua morada de fato e de afetos.
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Os primeiros anos foram difíceis, com doze anos já trabalhava, ajudando o pai na padaria, na realidade uma “gangorra”, era como se chamava padaria de pobre como explicou sua mãe, coube ao menino entregar o pão em mercearias do bairro e em algumas residências. Bem cedo da manhã, saía com várias sacolas de pano branco penduradas em torno do seu corpo franzino. Esses sacos pendurados davam-lhe um “jeitão ridículo” e os meninos do bairro logo o apelidaram de Papai Noel. O trabalho era cansativo, mas havia a recompensa no final da semana: a mesada que lhe garantia acesso aos cinemas do bairro.
O menino que aprendeu a trabalhar desde cedo revelou, no ensino médio, propensão para as letras, especialmente para línguas. Ainda estudante do Liceu já dava aulas de inglês. A cinefilia começou na infância e se estendeu pela vida afora.
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Destaco duas crônicas dentre as trinta e seis selecionadas: As canções que minha esposa esqueceu e Não gosto de heróis. A primeira pela afetividade que envolve o texto quando o cronista se refere às canções cantadas pela esposa nos bons tempos e o período em que a memória se tornou “mortiça” e as músicas já não lhe chegavam mais inteiras em seus lábios. Houve penosas tentativas de resgatar sua memória através da música. Muito emocionante esta parte.
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Justifico a escolha da segunda porque sou também atraída pelos anti-heróis e anti-heroínas. Gosto muito de Madalena que desafiou o marido Paulo Honório ao tentar subjugá-la. Impossível impor ideias a uma mulher que sabe realmente o que quer. A empregada Vitória, personagem secundária de Graciliano, ganha minha simpatia por sua simplicidade e por esta passagem poética do livro: (Vitória) “Nunca embarcou, sempre viveu em Maceió, mas tem na ponta da língua as embarcações de todas as companhias.”. Lia, no jornal, com muita atenção, os nomes dos navios que chegavam e saíam do porto de Maceió, certamente tinha o sonho de um dia viajar em um daqueles navios.
Passando para a segunda parte do livro, (talvez) argumentos são 35 textos que levam o (a) leitor(a) viajar por filmes , romances, contos, cartas, uma delas endereçada ao Senhor Santiago, o Bentinho do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis. Uma carta cheia de indignação pela injustiça cometida contra a inocente Capitu.
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João Batista de Brito tem muitas histórias ainda para contar, esperamos que sua pena, caneta ou computador surjam mais crônicas, contos ou (talvez) argumentos para delícia dos seus inúmeros leitores e leitoras.