Imagine caminhar por uma floresta aparentemente exuberante. Os rios transbordam, os animais circulam e os pássaros, anjos dos galhos, são acariciados pelas folhas. Tudo parece vivo.
Mas, quando se observa melhor, descobre-se que as árvores estão ocas. Permanecem de pé, cobertas de verde, mas perderam por dentro aquilo que lhes permitia resistir, seu cerne.
GD'Art
Os partidos se transformaram em monoculturas, muitas vezes sem cerne, habitadas pelos mesmos bicudos e pelas mesmas moscas-brancas. Em cada lado, reproduz-se um pensamento único, cultiva-se a obediência e elimina-se qualquer voz que cresça fora do alinhamento estabelecido.
Numa monocultura, a paisagem pode parecer organizada, mas sua fragilidade está justamente na uniformidade da plantação e na facilidade com que os parasitas se proliferam. Uma doença, quando chega, encontra árvores semelhantes e se espalha sem resistência. Na política, as doenças são o fanatismo pelos mitos e a tolerância seletiva com a corrupção: todos enxergam, mas poucos enfrentam o problema quando ele nasce no próprio lado.
Quando todos precisam pensar da mesma maneira, a crítica deixa de ser instrumento democrático e passa a ser tratada como traição.
GD'Art
Entretanto, as práticas do poder não foram transformadas na mesma velocidade. Mudaram os governos, mas muitas relações de conveniência permaneceram enraizadas.
Lula, deputado constituinte, ajudou a alimentar a expectativa de renovação e contradição. Anos depois, afirmou que haveria no Congresso “uns trezentos picaretas com anel de doutor”. A frase, transformada em canção pelos Paralamas do Sucesso, atravessou o tempo.
A ironia é que o sistema denunciado por ele se tornaria, posteriormente, parte das alianças necessárias aos seus próprios governos. Nesse ambiente ocorreram o mensalão e, posteriormente, as irregularidades investigadas na Petrobras, conhecidas no debate público como petrolão. A denúncia dos “picaretas”, portanto, não impediu a convivência política com muitos deles.
GD'Art
Fernando Henrique Cardoso estabilizou a moeda e ampliou as privatizações. Ao mesmo tempo, seu governo ficou marcado pelas denúncias de compra de votos para a aprovação da emenda da reeleição e por subvenções via estatização para membros da família. Não se comprovou a participação pessoal do presidente, mas a suspeita permaneceu como uma rachadura no discurso de modernização institucional.
GD'Art
Dilma Rousseff herdou avanços, contradições e uma base parlamentar sustentada por acordos frágeis. Seu impeachment, em 2016, dividiu o país entre quem reconheceu a existência de crime de responsabilidade e quem enxergou uma ruptura conduzida pelo Congresso. Independentemente da interpretação, a queda aprofundou a polarização e transformou adversários em inimigos permanentes.
Michel Temer assumiu prometendo estabilidade, mas seu governo também foi envolvido por denúncias e investigações. Entre elas, esteve o inquérito sobre um decreto relacionado ao setor portuário e a empresas atuantes no Porto de Santos. Mais uma vez, o poder surgia cercado por relações cuja proximidade exigia explicações públicas.
GD'Art
A promessa de romper com o passado acabou cercada pelas mesmas perguntas sobre patrimônio, poder e interesse privado, começando por livrar o filho, senador recém-eleito, de um processo de rachadinha e lavagem de dinheiro.
O mito golpista terminou preso por não admitir a derrota e tentar um golpe de Estado atabalhoado.
Voltam os PeTralhas. Com a volta de Lula, a floresta não recuperou automaticamente o seu cerne. Vieram à tona as investigações sobre descontos associativos indevidos nos benefícios do INSS. Aposentados e pensionistas descobriram que pequenas parcelas haviam sido retiradas de seus pagamentos sem autorização. O escândalo atravessou diferentes períodos administrativos e mostrou que a exploração dos mais vulneráveis pode sobreviver às mudanças de governo.
O caso do Banco Master acrescentou outra camada a essa paisagem. A liquidação extrajudicial da instituição pelo Banco Central e as apurações relacionadas às operações de crédito, inclusive no mercado de consignados, voltaram a despertar
GD'Art
A polarização recolhe mensalão, petrolão, emenda da reeleição, impeachment, Porto de Santos, joias, INSS e Banco Master e despeja tudo no mesmo saco. Depois, cada lado retira apenas aquilo que incrimina o adversário. O que compromete o próprio grupo é relativizado, esquecido ou justificado como necessidade política.
Petralhas e bolsolóides, apelidos que revelam a agressividade dos próprios campos, passaram a cultivar suas monoculturas. Cada grupo possui seus mitos, seus inimigos e suas versões convenientes da história. Os partidos deixaram de formar cidadãos para fabricar seguidores. Não se discute o que aconteceu; discute-se quem tem autorização para contar o acontecido.
O mais triste dessa floresta não é apenas a decadência das instituições. É a destruição da gentileza. Amizades são rompidas, famílias se afastam e qualquer divergência se converte em ofensa.
GD'Art
Não peço desculpas a bolsolóides nem a PeTralhas e afirmo: há raízes podres que contaminam mais do que o solo, e há pragas que se propagam nas monoculturas. Essas expressões, entretanto, designam comportamentos políticos, não pessoas condenadas a permanecer para sempre dentro de um curral partidário.
Não se trata apenas de metáforas botânicas; é a descrição de um país entregue a práticas que reproduzem os mesmos padrões.
Desde escândalos antigos, do mensalão às promessas constitucionais não cumpridas, percebe-se uma continuidade de farsas. Há trinta anos, palavras e cargos circulam como notas verdes que se acumulam nas copas, enquanto quase nada devolvem ao solo que as sustenta.
As ervas daninhas que eu condeno não são pessoas nem filiações partidárias; são modos de agir: oportunismo, clientelismo, violência institucionalizada, alianças devastadoras com forças milicianas e com figuras cuja conduta pública desabona qualquer pretensa lisura.
GD'Art
Não peço desprezo cego por grupos humanos; peço análise crítica e ação. Mudar pelo voto continua sendo o caminho, embora a repetição das mesmas escolhas produza a sensação de uma via sem saída. Muitas árvores apodreceram e tombaram sobre eleitores que já não reconhecem alternativas entre as opções oferecidas.
A solução não é arrancar tudo indiscriminadamente, mas reconstituir os solos: restaurar a pluralidade, fortalecer as instituições para que funcionem, exigir ética pública e garantir responsabilização. Precisamos interromper a lógica da monocultura política que nivela a diversidade e transforma o território democrático em pasto para aproveitadores.
GD'Art
Uma floresta necessita de diversidade, sombra, raízes profundas e árvores de diferentes tamanhos. A democracia também.
Quando restam apenas duas monoculturas disputando território, o pensamento empobrece, a ética definha e a sociedade perde a capacidade de reconhecer seus próprios erros.
Talvez seja necessário que o vento volte a balançar os galhos. Não o vento autoritário que devasta a floresta, mas aquele que derruba folhas mortas e abre espaço para o novo.
A tormenta necessária é o pensamento crítico: aquele que não protege corruptos de estimação, não confunde investigação com culpa e não chama de perseguição toda sentença que atinge o próprio lado.
A floresta brasileira permanece de pé, mas o verde das copas já não consegue esconder o vazio de muitas árvores. O vazio não será preenchido por salvadores, mitos ou partidos tratados como religiões. Será preciso recuperar a memória, a responsabilidade e a capacidade de discordar sem abandonar a humanidade.
Caso contrário, continuaremos admirando as copas enquanto a podridão avança, pedindo votos nos cruzamentos, nos sinais, nas telas e nos palanques, sempre vestida de falsa renovação.
















