Imagine caminhar por uma floresta aparentemente exuberante. Os rios transbordam, os animais circulam e os pássaros, anjos dos galhos,...

Florestas de árvores ocas

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Imagine caminhar por uma floresta aparentemente exuberante. Os rios transbordam, os animais circulam e os pássaros, anjos dos galhos, são acariciados pelas folhas. Tudo parece vivo.

Mas, quando se observa melhor, descobre-se que as árvores estão ocas. Permanecem de pé, cobertas de verde, mas perderam por dentro aquilo que lhes permitia resistir, seu cerne.

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Assim também se tornou a política brasileira: uma floresta que ainda exibe muitas siglas, cores e bandeiras, embora produza cada vez menos diversidade. Basta observar a quantidade e a natureza dos processos de investigação envolvendo deputados e senadores.

Os partidos se transformaram em monoculturas, muitas vezes sem cerne, habitadas pelos mesmos bicudos e pelas mesmas moscas-brancas. Em cada lado, reproduz-se um pensamento único, cultiva-se a obediência e elimina-se qualquer voz que cresça fora do alinhamento estabelecido.

Numa monocultura, a paisagem pode parecer organizada, mas sua fragilidade está justamente na uniformidade da plantação e na facilidade com que os parasitas se proliferam. Uma doença, quando chega, encontra árvores semelhantes e se espalha sem resistência. Na política, as doenças são o fanatismo pelos mitos e a tolerância seletiva com a corrupção: todos enxergam, mas poucos enfrentam o problema quando ele nasce no próprio lado.

Quando todos precisam pensar da mesma maneira, a crítica deixa de ser instrumento democrático e passa a ser tratada como traição.

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A abertura política, iniciada ainda durante a ditadura militar e concluída com a redemocratização, despertou a esperança de que o país aprenderia a conviver com o contraditório. A Constituição de 1988 consolidou direitos e instituições.

Entretanto, as práticas do poder não foram transformadas na mesma velocidade. Mudaram os governos, mas muitas relações de conveniência permaneceram enraizadas.

Lula, deputado constituinte, ajudou a alimentar a expectativa de renovação e contradição. Anos depois, afirmou que haveria no Congresso “uns trezentos picaretas com anel de doutor”. A frase, transformada em canção pelos Paralamas do Sucesso, atravessou o tempo.

A ironia é que o sistema denunciado por ele se tornaria, posteriormente, parte das alianças necessárias aos seus próprios governos. Nesse ambiente ocorreram o mensalão e, posteriormente, as irregularidades investigadas na Petrobras, conhecidas no debate público como petrolão. A denúncia dos “picaretas”, portanto, não impediu a convivência política com muitos deles.

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No governo Sarney, a transição democrática conviveu com inflação, fisiologismo e velhas estruturas oligárquicas. Anos depois, a apreensão de R$ 1,34 milhão na empresa Lunus, pertencente a Roseana Sarney e Jorge Murad, mostrou que a redemocratização não havia afastado a suspeita de que o poder público e os interesses familiares ainda dividiam o mesmo terreno. Collor chegou apresentando-se como caçador de marajás. Terminou cercado pelo esquema de PC Farias, pelas despesas da Casa da Dinda e por um processo de impeachment. A árvore que prometia limpar a floresta caiu rapidamente, revelando que a renovação anunciada podia ser apenas outra forma de ocupar o mesmo espaço.

Fernando Henrique Cardoso estabilizou a moeda e ampliou as privatizações. Ao mesmo tempo, seu governo ficou marcado pelas denúncias de compra de votos para a aprovação da emenda da reeleição e por subvenções via estatização para membros da família. Não se comprovou a participação pessoal do presidente, mas a suspeita permaneceu como uma rachadura no discurso de modernização institucional.

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Lula chegou ao governo carregando a história dos trabalhadores e a promessa de modificar as relações entre Estado, mercado e sociedade. Seus dois primeiros mandatos ampliaram políticas sociais, mas foram atingidos por várias denúncias de corrupção, que se tornaram uma das marcas de seus governos e resultaram em condenações no Supremo, bem como pelas irregularidades na Petrobras, posteriormente reveladas pela Operação Lava Jato.

Dilma Rousseff herdou avanços, contradições e uma base parlamentar sustentada por acordos frágeis. Seu impeachment, em 2016, dividiu o país entre quem reconheceu a existência de crime de responsabilidade e quem enxergou uma ruptura conduzida pelo Congresso. Independentemente da interpretação, a queda aprofundou a polarização e transformou adversários em inimigos permanentes.

Michel Temer assumiu prometendo estabilidade, mas seu governo também foi envolvido por denúncias e investigações. Entre elas, esteve o inquérito sobre um decreto relacionado ao setor portuário e a empresas atuantes no Porto de Santos. Mais uma vez, o poder surgia cercado por relações cuja proximidade exigia explicações públicas.

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Bolsonaro apresentou-se como adversário da velha política, embora tenha passado décadas dentro dela, um assecla do baixo clero.

A promessa de romper com o passado acabou cercada pelas mesmas perguntas sobre patrimônio, poder e interesse privado, começando por livrar o filho, senador recém-eleito, de um processo de rachadinha e lavagem de dinheiro.

O mito golpista terminou preso por não admitir a derrota e tentar um golpe de Estado atabalhoado.

Voltam os PeTralhas. Com a volta de Lula, a floresta não recuperou automaticamente o seu cerne. Vieram à tona as investigações sobre descontos associativos indevidos nos benefícios do INSS. Aposentados e pensionistas descobriram que pequenas parcelas haviam sido retiradas de seus pagamentos sem autorização. O escândalo atravessou diferentes períodos administrativos e mostrou que a exploração dos mais vulneráveis pode sobreviver às mudanças de governo.

O caso do Banco Master acrescentou outra camada a essa paisagem. A liquidação extrajudicial da instituição pelo Banco Central e as apurações relacionadas às operações de crédito, inclusive no mercado de consignados, voltaram a despertar
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preocupação com a proteção de aposentados e pensionistas. São apurações distintas, que não autorizam atribuir automaticamente culpa a todos, mas revelam a fragilidade dos mecanismos de controle.

A polarização recolhe mensalão, petrolão, emenda da reeleição, impeachment, Porto de Santos, joias, INSS e Banco Master e despeja tudo no mesmo saco. Depois, cada lado retira apenas aquilo que incrimina o adversário. O que compromete o próprio grupo é relativizado, esquecido ou justificado como necessidade política.

Petralhas e bolsolóides, apelidos que revelam a agressividade dos próprios campos, passaram a cultivar suas monoculturas. Cada grupo possui seus mitos, seus inimigos e suas versões convenientes da história. Os partidos deixaram de formar cidadãos para fabricar seguidores. Não se discute o que aconteceu; discute-se quem tem autorização para contar o acontecido.

O mais triste dessa floresta não é apenas a decadência das instituições. É a destruição da gentileza. Amizades são rompidas, famílias se afastam e qualquer divergência se converte em ofensa.

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A política, que deveria organizar a vida entre diferentes, passou a justificar nossa incapacidade de aceitar a divergência.

Não peço desculpas a bolsolóides nem a PeTralhas e afirmo: há raízes podres que contaminam mais do que o solo, e há pragas que se propagam nas monoculturas. Essas expressões, entretanto, designam comportamentos políticos, não pessoas condenadas a permanecer para sempre dentro de um curral partidário.

Não se trata apenas de metáforas botânicas; é a descrição de um país entregue a práticas que reproduzem os mesmos padrões.

Desde escândalos antigos, do mensalão às promessas constitucionais não cumpridas, percebe-se uma continuidade de farsas. Há trinta anos, palavras e cargos circulam como notas verdes que se acumulam nas copas, enquanto quase nada devolvem ao solo que as sustenta.

As ervas daninhas que eu condeno não são pessoas nem filiações partidárias; são modos de agir: oportunismo, clientelismo, violência institucionalizada, alianças devastadoras com forças milicianas e com figuras cuja conduta pública desabona qualquer pretensa lisura.

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Quando um representante público, seja do Executivo, do Legislativo ou do Judiciário, transforma seu gabinete em terreno para transações suspeitas e se utiliza de laranjas, contratos fantasmas e acordos obscuros, o resultado é sempre o mesmo: sombras que matam árvores sadias, enquanto aquilo que deveria formar uma floresta se transforma em ruína.

Não peço desprezo cego por grupos humanos; peço análise crítica e ação. Mudar pelo voto continua sendo o caminho, embora a repetição das mesmas escolhas produza a sensação de uma via sem saída. Muitas árvores apodreceram e tombaram sobre eleitores que já não reconhecem alternativas entre as opções oferecidas.

A solução não é arrancar tudo indiscriminadamente, mas reconstituir os solos: restaurar a pluralidade, fortalecer as instituições para que funcionem, exigir ética pública e garantir responsabilização. Precisamos interromper a lógica da monocultura política que nivela a diversidade e transforma o território democrático em pasto para aproveitadores.

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Só assim a floresta voltará a respirar, a dar frutos e a abrigar vida, em vez de sustentar copas que enriquecem poucos e empobrecem todos.

Uma floresta necessita de diversidade, sombra, raízes profundas e árvores de diferentes tamanhos. A democracia também.

Quando restam apenas duas monoculturas disputando território, o pensamento empobrece, a ética definha e a sociedade perde a capacidade de reconhecer seus próprios erros.

Talvez seja necessário que o vento volte a balançar os galhos. Não o vento autoritário que devasta a floresta, mas aquele que derruba folhas mortas e abre espaço para o novo.

A tormenta necessária é o pensamento crítico: aquele que não protege corruptos de estimação, não confunde investigação com culpa e não chama de perseguição toda sentença que atinge o próprio lado.

A floresta brasileira permanece de pé, mas o verde das copas já não consegue esconder o vazio de muitas árvores. O vazio não será preenchido por salvadores, mitos ou partidos tratados como religiões. Será preciso recuperar a memória, a responsabilidade e a capacidade de discordar sem abandonar a humanidade.

Caso contrário, continuaremos admirando as copas enquanto a podridão avança, pedindo votos nos cruzamentos, nos sinais, nas telas e nos palanques, sempre vestida de falsa renovação.

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