Amigos residentes nesta cidade convenceram-me a levá-los ao sítio onde havia me criado. Isso foi há cinco décadas, talvez. Mas as lem...

Ainda é possível sonhar

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Amigos residentes nesta cidade convenceram-me a levá-los ao sítio onde havia me criado. Isso foi há cinco décadas, talvez. Mas as lembranças de agora, quando as relembro, são agradáveis.

De tanto escutarem badalações a respeito da terra onde nasci, desejaram conhecê-la. O lugar é de massapê vermelho, apropriado para o cultivo de cana e fruteiras, que as louceiras usam para o fabrico de suas panelas e jarros, com pastagem verde e vento espalhando a vegetação pelos córregos, um brejo agradável de se olhar em qualquer época do ano. A dupla aceitou enfrentar uma estrada estreita e esburacada para conhecer o sítio Tapuio, em Serraria, que, naquela época, não tinha estrada asfaltada.

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No sítio onde morávamos, no período de 1950 a 1960, mais do que nos tempos atuais, bastava estender o olhar em redor de casa para estar em contato com o verde e observar roçados em campos esparsos. O contato com a natureza sempre foi gostoso e saudável em Tapuio. O silêncio nos aproximava de Deus e nos trazia lembranças de amigos distantes, tão caros e desejosos de estarmos perto.

Nesta terra, o vento sempre suave, naquele tempo e agora, nos faz lembrar do mar de maré baixa, com a música das ondas imitando o balançar das palmeiras, de um lado para o outro, lento a mexer-se.

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Meus amigos contaram como era a vida na cidade do Rio de Janeiro, causando admiração o fato de o filho somente ter ouvido o galo cantar quando tinha 15 anos, depois que fez uma viagem a uma fazenda durante excursão escolar. Tudo conhecia superficialmente, feito em fábrica, em película cinematográfica. Agora talvez fosse mais fácil, porque existem os dispositivos eletrônicos conduzidos na palma da mão que nos transportam a um mundo distante.

Certa vez, chegaram ao sítio de tio Pedro Mendes, nosso vizinho, em Serraria, uma família de cariocas, galegos descendentes de outras raças vindas do estrangeiro, grandalhões. Turistas ocasionais. Molengas ao montar nos cavalos, tolos ao ver a molecada trepando nas mangueiras feito saguins. Enquanto permaneceram no sítio, tudo queriam conhecer, queriam praticar os nossos brinquedos. Andar a cavalo e tomar banho no açude. Cismaram em aprender a fazer farinha de mandioca.

O velho Pedro Mendes, carrancudo ao atender certos pedidos, amoleceu vendo aquela gente tão besta, chegada do Rio de Janeiro com seu irmão Augusto Mendes. Mandou funcionar a casa de farinha. Foi um dia de alegria para os visitantes.

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Comeram beiju cozido durante a farinhada. Tapioca no leite de coco e pé de moleque quentinho. Jogavam punhados de farinha quente na boca, lambuzando a cara com a goma seca.

Davam enormes gargalhadas. Um magote de abestados.

Tudo era novidade para eles. Cavar a terra para o plantio de inhame, preparar leirões destinados à maniva, debulhar feijão, moer milho no moinho manual para o cuscuz e pilar café — tudo isso desejavam realizar. Faziam-no com muito prazer.

O tempo passou e, falando dessas aventuras, amigos pessoenses desejaram conhecer o sítio da minha infância. Foi quando lembrei dos cariocas recepcionados pelo tio Pedro. Estes mostravam alegria sem tamanho. Uma das moças, a mais entusiasmada, desejava caminhar pelos campos, conhecer a bagaceira do engenho de Antônio Carvalho, porque tinham lido os romances de José Lins do Rego e o emblemático livro de José Américo de Almeida, A Bagaceira. Acho que meus amigos ficaram contentes com a visita que possibilitei realizar.

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Tantos anos depois, imagino Sofia, nos fins de tarde, caminhando pelas veredas de Tapuio, repletas de flores silvestres, cabelos loiros compridos sem marrafa, cobrindo os ombros, o vento lambendo seu corpo fino e a plantação de milho e feijão brotando da terra úmida pelas chuvas de março. Eu me sentindo como Carlos de Melo, que andava com Maria Alice pelos arredores dos engenhos, como está no romance Banguê, de José Lins.

Cada mulher, cada pessoa com seu jeito de curtir a vida. As mulheres sensíveis curtem música e poesia, gostam de estar na natureza. A natureza sabe agradecer a essas pessoas que gostam de cultivar o perfume de cada recanto onde existe um capão de mato, riachos e vazantes.

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