A escrita, até mesmo para os escritores mais profícuos, tem sido fonte de sofrimento e de prazer. Esse misto de sensações é reforçado ...

O mal-estar na escrita

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A escrita, até mesmo para os escritores mais profícuos, tem sido fonte de sofrimento e de prazer. Esse misto de sensações é reforçado devido a uma visão romântica do talento e da inspiração para processos artísticos, numa concepção de que escrever está mais relacionado a dom do que a trabalho, como se a labuta com as palavras diminuísse o artesão. É à ideia de artesania que nos voltaremos, a partir das reflexões do psicólogo Robson Cruz em suas obras “Bloqueio da escrita acadêmica – caminhos para escrever com conforto e sentido” (Artesã, 2020); “O mal-estar na escrita acadêmica: um problema político” (Parábola, 2024) e “Zen e a arte da escrita acadêmica” (Artesã, 2025).

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Um dos grandes problemas da produção textual é considerar o texto como produto que já virá perfeito, sem ser necessário reescrevê-lo, submetê-lo a constantes refeituras e leituras feitas pelo próprio autor e por agentes externos, professores, revisores, críticos especializados. Na primeira obra de Cruz, ele aponta que Freud escrevia regularmente, dedicava-se ao estudo de sua língua materna e outros idiomas, convivia com seus dramas e tramas, com auxílio de autores diversos. Isso contribuía para que escrevesse com mais segurança. Quase toda sua obra foi construída em torno do gênero ensaio, cuja denominação é autoexplicativa.

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Sigmund Freud (1856–1939), médico austríaco e fundador da psicanálise, trabalha em sua escrivaninha ▪ Londres, 1938 ▪ Foto: Freud Museum
Escrever passa por esse processo de ensaiar repetidas vezes até que a execução se dê satisfatoriamente. Diversos autores já afirmaram que não se publica um texto/livro – abandona-o. Sim, chega uma hora que precisamos deixá-lo ir, retirá-lo da gaveta ou dos milhares de arquivos dispersos. Com isso, não se defende que seja tudo publicado. Moacyr Scliar dizia que a lixeira era uma grande aliada do escritor, apesar de muito poder ser reciclado. O que não serviu a um texto pode ser aproveitado em outro.

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Moacyr Scliar (1937–2011), escritor, médico e cronista brasileiro, autor de romances, contos e textos marcados pelo interesse pela cultura e pela condição humana. ▪ Div.
Sobre o âmbito acadêmico, Robson descontrói em “O mal-estar na escrita acadêmica” a ideia de que os estudantes terem ingressado nas universidades representa domínio suficiente de leitura e escrita para o trabalho que será exigido nesse espaço. Afirma que, assim como outros bens distribuídos desigualmente, os letramentos também fazem parte daquilo a que todos deveriam ter direito, mas poucos obtêm, de fato. O acesso à cultura letrada ainda persiste como um problema político, sendo um privilégio de poucos e abarcado por discursos nos quais a meritocracia impera para pôr vendas sobre os olhos
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de quem pode mudar essa realidade.

Em “Zen e a arte da escrita acadêmica”, o autor retoma a ideia de “bancar” a imprecisão como forma de seguirmos adiante em nossos projetos de escrita e de autoconhecimento, processos intimamente interligados. Nas palavras de Cruz:

“Talvez a defesa da escrita imprecisa faça mais sentido se a tratarmos também como uma psicoterapia da escrita acadêmica, visto que o conhecimento mais valioso num consultório de psicologia clínica é aquele que se constrói via uma linguagem vacilante e imprecisa. Qualquer psicoterapeuta bem formado sabe disso. Apenas quando o paciente se liberta das certezas que tem sobre si mesmo e se interessa por aquilo que é impreciso em sua linguagem, é que as possibilidades para a mudança psicológica surgem”.
Entre a linguagem acadêmica e a elaboração na clínica, o processo ocorre de maneira oposta, porque na academia espera-se do pesquisador/estudante muitas certezas, mas esse suposto
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Robson Nascimento da Cruz, psicólogo, professor e pesquisador brasileiro, dedicado ao estudo da vida acadêmica, da escrita e da história da psicologia. ▪ Fonte: PUC/RS
saber frequentemente se reveste de arrogância e de opressão a quem entende a dúvida como um processo salutar e lícito na construção do saber.

Ainda em “Zen”, aborda-se a relação do corpo na escrita, lembrando-nos do quanto a utilização das mãos e da postura corporal diante do texto são relevantes para o efeito psicológico na escrita. O ritmo e o som da digitação, o bailar dos dedos, a respiração consciente, tudo isso e outros aspectos têm influência na confecção textual.

Robson Cruz há anos se dedica ao estudo de escrita criativa no meio acadêmico, aos sofrimentos psíquicos oriundos desse contexto e como a política gerencia esses sintomas. É psicólogo, professor da Puc-Minas. Seus textos merecem ser lidos por muitas pessoas que sofrem desse mal-estar na escrita, para compreensão de que não necessariamente precisamos nos livrar dessa angústia, mas aprender a escrever com ela, sem romanceá-la, conciliando as múltiplas sensações do processo criativo.

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