Existe uma espécie de cegueira muito particular que atinge apenas aqueles que julgam enxergar demais, uma afecção da vista social qu...

A santa lucidez dos loucos de cavalaria

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Existe uma espécie de cegueira muito particular que atinge apenas aqueles que julgam enxergar demais, uma afecção da vista social que transforma o cinza do conformismo na única cor aceitável para a vida. Quem se recusa a aceitar esse tom pasteurizado e decide marchar em direção ao horizonte, exigindo que cada ser humano tenha direito ao pão na mesa e ao céu sobre a cabeça, é imediatamente diagnosticado com a doença da utopia. A sociedade é rápida em apontar o dedo,
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A Vigília de Dom Quixote ▪ Arte: H. Daumier, 1855 ▪ Museu de Bâle, Suça
como os aldeões das planícies secas da Mancha, rindo e sussurrando que ali vai mais um pobre diabo que perdeu o juízo por ler histórias demais.

O diagnóstico de loucura sempre foi o remédio mais barato que a mediocridade encontrou para desacreditar a coragem.

No século vinte, mais precisamente em 1943, o psicólogo americano Abraham Maslow organizou as vontades humanas em seu influente artigo sobre a motivação. Décadas mais tarde, consultores de gestão desenhariam a famosa pirâmide para ilustrar essa teoria cartesiana, fixando na base o sustento mais bruto e essencial: a comida no prato, a água para a sede, o descanso para o corpo moído e a casa que nos protege do vento da noite. Segundo esse veredito acadêmico, ninguém pode subir os degraus da dignidade sem antes garantir que o estômago não esteja urrando de fome, dizendo-nos que é impossível sonhar com o topo, onde moram a estima e a realização, sem a base firme.

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Abraham Maslow (1908–1970), psicólogo norte-americano, conhecido por seus estudos sobre motivação e desenvolvimento humano. Propôs uma hierarquia das necessidades humanas, frequentemente representada como uma pirâmide, que abrange necessidades fisiológicas, segurança, vínculos sociais, estima e autorrealização.
A teoria de Maslow é lógica e bonita, mas esquece que o espírito humano tem a péssima mania de não caber em esquemas bem desenhados.

É nesse ponto que a figura magra e solene de Dom Quixote, concebido pela genialidade de Miguel de Cervantes no início do século dezessete, rompe a arquitetura do psicólogo e desmonta a pirâmide com uma só investida de lança. Obviamente, o autor espanhol jamais ouviu falar de teorias psicológicas modernas, pois vivia o seu próprio tempo de transformações e crises na Espanha imperial. No entanto, os grandes clássicos da literatura são atemporais exatamente por isso: eles capturam a essência humana muito antes que a ciência tente explicá-la,
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Dom Quixote ▪ Arte: H. Daumier, S.XIX ▪ Col. particular
servindo como uma espantosa alegoria que atravessa os séculos sem perder a força.

Se olharmos para o fidalgo através dos óculos dos pragmáticos, veremos apenas um homem velho, usando uma bacia na cabeça e montado em um cavalo esquelético que mal para em pé. Pelas regras do mundo e pelas leis da pirâmide, aquele homem faminto deveria estar preocupado apenas com a sua subsistência mais básica, buscando um prato de sopa e uma cama de palha. No entanto, o cavaleiro ignora a própria fome, salta por cima da necessidade fisiológica mais primária e escala diretamente para o topo da existência, movido unicamente pelo desejo ardente de instaurar a justiça na terra. Quem luta por um mundo onde as pessoas possam viver com o mínimo de dignidade é alguém que tenta garantir que a base da pirâmide não seja um privilégio, mas um direito de todos.

Não há ingenuidade em desejar que o trabalhador tenha o seu pão e a sua paz; o que há é uma lucidez tão cristalina que chega a cegar os olhos acostumados à penumbra da desigualdade. Chamam de utópico o sujeito que se indigna com a miséria alheia, como se a indignação fosse um surto psicótico e a aceitação da miséria fosse o topo da saúde mental. Os moderados, confortavelmente instalados em suas rotinas mornas, olham para os idealistas com uma condescendência venenosa, rotulando de fantasia o que na verdade é a mais urgente das necessidades humanas.
Exigir que cada pessoa tenha o mínimo para sobreviver e o máximo para florescer é a única proposta política e humana que faz algum sentido racional.
Quando um indivíduo decide levantar a voz para defender o direito de seu semelhante caminhar de cabeça erguida, ele não está fora de si, está apenas escutando o chamado mais profundo da própria consciência.

A loucura real não reside em sonhar com um mundo justo, mas em conseguir dormir em paz sabendo que o mundo ao lado desmorona em ruínas.

Dom Quixote transformava moinhos de vento em gigantes ferozes não porque não soubesse o que era uma pá de madeira girando com a aragem do tempo. Ele transformava o cotidiano medíocre porque se recusava a aceitar que a vida se resumia a moer grãos para o sustento de senhores invisíveis. Para o cavaleiro, a verdadeira opressão era aceitar o mundo como ele era, sem tentar impor a ele a beleza dos ideais de cavalaria, onde os fracos eram protegidos e os opressores devidamente combatidos. Ao ver no gigante um inimigo a ser vencido, Quixote projetava no açoite do vento a injustiça abstrata que precisa ser enfrentada, mesmo que as pás do sistema nos joguem violentamente no chão e nos deixem o corpo marcado de poeira e dor.

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Dom Quixote e os Moinhos de Vento ▪ Daumier ▪ Instituto de Arte de Chicago, EUA
Quantas vezes os defensores da dignidade humana não foram derrubados pelas pás dos moinhos da burocracia, do preconceito e do poder econômico?

Caem, sangram e se levantam, porque o que os move não é a ilusão de uma vitória fácil, mas a impossibilidade moral de permanecer deitados na omissão. Sancho Pança representa o pragmatismo da sobrevivência, o homem da base da pirâmide que olha para o céu e enxerga apenas a chuva que vem vindo, preocupado com o alforje e com o vinho que esquenta ao sol. Mas até mesmo o escudeiro termina contagiado pela febre sublime do seu senhor, provando que a esperança é uma infecção divina que nenhum antivírus social consegue erradicar totalmente. Sancho descobre, ao longo das estradas poentas, que existe uma fome que a carne não sacia,
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Sancho Pança ▪ Daumier, c.1870 ▪ Belvedere, Viena
uma sede que nenhuma água de poço consegue aplacar, que é a fome de ter uma causa pela qual valha a pena caminhar.

As necessidades do corpo são urgentes, mas as necessidades da alma são as únicas que nos distinguem das bestas de carga.

Dizer que um homem só pode exercer suas potencialidades depois de ter todas as suas necessidades básicas supridas é uma meia-verdade que aprisiona os pobres no rés do chão. Se aceitarmos essa lógica passivamente, decretaremos que a arte, a filosofia, a poesia e o direito ao sonho são mercadorias de luxo reservadas exclusivamente a quem já tem a mesa farta. O idealista rebenta essa gaiola conceitual ao provar que a luta pela dignidade física caminha lado a lado com a busca pela elevação espiritual, sem ordem de chegada e sem prioridades que apequenem o ser humano. Não se combate a fome apenas para que o corpo continue funcionando como uma máquina biológica, combate-se a fome para que aquele corpo possa abrigar um ser humano capaz de pensar, criar e transformar o mundo.

A esperança não é um sentimento passivo que senta na calçada e espera o futuro acontecer por milagre.

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Sancho Pança ▪ H. Daumier, c.1870 ▪ Belvedere, Viena
A esperança é uma ferramenta de trabalho, um instrumento afiado e perigoso que corta o tecido da realidade presente para costurar um amanhã mais respirável. Aqueles que marcham por direitos sociais, por escolas dignas, por pratos cheios e por oportunidades iguais não estão flutuando em nuvens de algodão; estão com os pés fincados na lama mais dura do cotidiano. É preciso uma dose cavalar de lucidez para olhar para a miséria e não se acostumar com ela, para enxergar no rosto de quem está na miséria não uma estátua de dor, mas um ser portador de um potencial infinito que o sistema insiste em sufocar. A verdadeira loucura é a apatia que vê a injustiça como um dado da natureza, tão inevitável quanto a chuva ou o nascer do sol.

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Dom Quixote e Sancho Pança ▪ H. Daumier, c.1870 ▪ Courtauld Instituto de Arte, Londres
Quando o sistema rotula o humanista de ingênuo, está apenas tentando neutralizar a ameaça que a sua coragem representa para o status quo.

Se o idealista for apenas um louco inofensivo, a sociedade pode se dar ao luxo de rir dele e trancá-lo no quarto dos fundos da história. Contudo, se a sociedade perceber que aquele "louco" está na verdade totalmente lúcido, a estrutura estremece, porque a lucidez é terrivelmente contagiosa e tem a péssima mania de incendiar as mentes adormecidas. Dom Quixote sabia disso melhor do que ninguém ao afirmar que não havia maior loucura no mundo do que deixar-se morrer assim, sem mais nem menos, sem que ninguém nos matasse além da própria tristeza e do desespero de não ter tentado.

A história da humanidade não foi escrita pelos prudentes que ficaram em suas casas contando as moedas do conforto.

A dignidade é o ar respirável sem o qual a jornada humana se transforma em uma mera sentença de prisão com trabalho forçado.
Foram os chamados loucos que abriram caminhos na selva da ignorância, que ergueram os hospitais, que aboliram a escravidão e que desenharam as declarações dos direitos que hoje tomamos como garantidos. Foram os seres carregados de uma esperança quase infantil que peitaram os imperadores e disseram que nenhum ser humano nasceu com selim nas costas para ser montado por outro. Eles olharam para a pirâmide de Maslow não como uma prisão inviolável, mas como uma montanha que precisava ser escalada a qualquer custo, nem que fosse com as mãos sangrando e com os pés descalços. A dignidade não é um prêmio que se concede ao final da vida como consolo por ter suportado a dor de existir.

Ela é o ponto de partida, o ar respirável sem o qual a jornada humana se transforma em uma mera sentença de prisão com trabalho forçado. Exigir que cada pessoa tenha o mínimo para sobreviver e o máximo para florescer não é um delírio poético, é a única proposta política e humana que faz algum sentido racional. Se a razão nos leva a aceitar a barbárie como algo natural, então
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Dom Quixote ▪ H. Daumier, c.1870 ▪ Museu de Arte de Zurique
prefiro mil vezes a santa e bendita loucura que enxerga cavalos alados onde os medíocres só veem mulas de carga.

No final da obra-prima de Cervantes, o velho fidalgo recupera a dita razão no leito de morte, abandona a cavalaria e volta a ser o sensato e aborrecido Alonso Quijano.

Aquele momento de sobriedade forçada não é uma vitória do bom senso, mas a tragédia mais profunda de todo o livro, pois com a sanidade morre também a vontade de transformar o mundo. Morrer são e conformado é a derrota definitiva, enquanto viver "louco" e em luta constante é a única forma digna de permanecer vivo na memória dos tempos. Que nos deixem, portanto, com a nossa aparente insensatez, com as nossas lanças empunhadas contra a desigualdade e com o nosso amor desmedido pelo destino de cada ser humano.

Não nos tirem a ilusão de que este mundo tem conserto, pois é exatamente essa lucidez disfarçada de loucura que ainda impede a Terra de se apagar por completo.

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