Em 16 de junho do próximo ano (2027) ocorrerá o centenário de nascimento de Ariano Suassuna, patrimônio humano e cultural da Paraíba, ...

O centenário de Ariano

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Em 16 de junho do próximo ano (2027) ocorrerá o centenário de nascimento de Ariano Suassuna, patrimônio humano e cultural da Paraíba, de Pernambuco e do Brasil. É uma data importantíssima, sob todos os pontos de vista, e não poderá passar em branco. Os poderes públicos podem até ignorá-la, o que não surpreenderia num país que costuma subvalorizar as coisas da cultura, mas à sociedade civil não será dado esse direito, sob pena de abdicarmos, de vez, dos altos valores da nação e de nossa própria identidade nacional.

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Ariano – e tantos outros ícones semelhantes – é o lado bom do Brasil, aquele de que podemos nos orgulhar, sem restrições. É a personificação luminosa de uma nacionalidade ainda relativamente jovem, de pouco mais de cinco séculos, em vários aspectos ensombreada por defeitos e vícios agravados nos últimos tempos, contrariando a tese otimista da evolução social. No Brasil das últimas décadas, como se sabe e se sente, temos andado para trás em muitas áreas, principalmente no que se refere à moralidade pública, gravemente infectada pela corrupção generalizada, que se espalha desde os Poderes do Estado até as células mais modestas da sociedade. Todo mundo quer levar vantagem, todo mundo quer se dar bem, todo mundo quer passar o outro pra trás, todo mundo quer ficar rico, não importa como – e rápido –, todo mundo quer ficar impune. Um país que se baseia em tais princípios comportamentais nefastos não tem futuro, é óbvio; no entanto, neles nos atolamos cada vez mais – e não há luz no fim do túnel.

Daí a relevância de um Ariano. E de outros brasileiros que orgulham a raça e que precisam ser festejados, como forma de compensar o deserto moral que assola o país. Um Ariano sozinho vale por milhares, principalmente por aqueles poderosos que todo dia protagonizam escândalos na imprensa, na TV e nas redes sociais. Uma gente sem caráter e sem nenhum valor, que nos envergonha e nos deprime. O jurista Joaquim Falcão, em recente entrevista, lembrou
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a necessidade de o Brasil não esquecer o próximo centenário de Ariano. É a preocupação legítima de um carioca/pernambucano e deve ser também a nossa, pelo menos dos paraibanos de boa vontade, para além das ultrapassadas querelas que dividiam perrepistas e liberais. Ariano pertence à Paraíba como um todo, a Pernambuco e ao Brasil.

Nascido em pleno Palácio da Redenção, em fins do governo de seu pai, o presidente João Suassuna, Ariano logo cedo foi com a família para o Recife, após o traiçoeiro assassinato, no Rio de Janeiro, do seu genitor, em 9 de outubro de 1930, no vendaval que varreu a Paraíba e o Brasil após a morte violenta do presidente João Pessoa e poucos dias antes da eclosão da chamada Revolução de 30, que levaria Getúlio Vargas ao poder. Tempos difíceis para todo mundo, vitoriosos e vencidos. Estes, em não poucos casos, preocupados antes de tudo com a própria sobrevivência física, ameaçada por paixões incontroláveis, individuais e coletivas. Dona Rita Suassuna, previdente, achou por bem deixar a terra natal, naqueles momentos hostis, e ir para a capital pernambucana tentar a vida, levando consigo a prole indefesa. Tempos ásperos que marcaram profundamente o clã Vilar Suassuna, como tantos outros em situação parecida.

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No Recife, ele construiu sua vida intelectual e profissional, com brilho desde o começo, até alcançar alturas que o colocaram quase que ao nível do outro gigante recifense, de glória incontestável: Gilberto Freyre. E, se digo quase, é porque o senhor de Apipucos correu o vasto mundo, do qual colheu aplausos e reconhecimentos unânimes, enquanto o nosso Ariano, tal como Machado de Assis e um pouco como Drummond, sendo avesso aos aviões, preferiu ficar restrito às fronteiras nativas, que lhe bastaram.

Freyre e Suassuna, morando na mesma urbe, dividiram a liderança intelectual do Recife da segunda metade do século passado, sem se hostilizarem. A seu modo e em certa medida, a obra de Ariano seguia os princípios do Manifesto Regionalista de Gilberto Freyre, pode-se afirmar. E, numa coisa particular, mas significativa, foram praticamente idênticos: escolheram para morar autênticas e antigas casas pernambucanas, nas quais recolheram preciosos acervos de arte e de antiguidades, dignos de museus. O Solar de Apipucos era mais senhorial em sua arquitetura imponente de casa-grande nordestina, mas a residência de Ariano não ficava atrás, em termos de tradição e beleza.

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Solar de Apipucos, casarão do século XIX, antiga casa-grande do Engenho Dois Irmãos adquirido por Gilberto Freyre em 1940, para sua moradia com a esposa, Magdalena, a partir de 1941 ▪️ FGF /// GD'Art
Temos quase um ano inteiro para prepararmos a celebração do centenário desse grande paraibano. Não há, portanto, desculpas para omissões. Imagino que o Recife celebrará dignamente esse centenário ilustre. Se a Paraíba quer reivindicar como seu esse filho imenso, trate de fazer por onde, pois Pernambuco não brinca em serviço.

Viva Ariano!

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