Sempre colecionei histórias sobrenaturais. Não por aquela curiosidade de quem passa a noite procurando fantasma para ter assunto no c...

Quando Deus manda as formigas?

Sempre colecionei histórias sobrenaturais. Não por aquela curiosidade de quem passa a noite procurando fantasma para ter assunto no café da manhã, mas porque algumas histórias, quando escutadas com o coração desarmado, ajudam a conservar uma coisa que anda muito maltratada neste mundo: a esperança.

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Não consigo imaginar que o homem seja apenas matéria com prazo de validade, uma combinação provisória de cálcio, água, carbono e boletos bancários, destinada a desaparecer sem deixar mais vestígio do que um copo d’água evaporado ao sol. Há pessoas de extraordinário caráter que não precisam acreditar numa vida futura para serem boas. Conheço algumas. São exceções admiráveis. Para a maioria de nós, entretanto, a convicção de que a existência não termina no túmulo pode funcionar como uma espécie de freio moral numa estrada onde há gente dirigindo sem carteira, sem juízo e, sobretudo, sem medo de atropelar o próximo.

Entre os relatos que guardo, há um que me foi contado por uma conhecida, viúva de um pastor. O episódio ocorreu quando seu marido ainda exercia o pastorado e enfrentava, como tantos homens que lidam com gente, não apenas o pecado alheio, mas também a falta de educação alheia, que é uma espécie de pecado com diploma de grosseria.

Certa vez, durante um culto, um homem levantou-se e começou a atacá-lo diante de todos. Não sei se era inveja, ressentimento, raiva ou simplesmente aquela velha disposição humana para falar mal de alguém quando se tem a oportunidade. O homem desancou o pastor de todas as maneiras. E o pastor, em vez de devolver a agressão na mesma moeda, limitou-se a responder, entre um ataque e outro:

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Glória a Deus.
O sujeito continuou.
Glória a Deus.
Mais um insulto.
Glória a Deus.

Até que o agressor, talvez decepcionado porque não conseguira fabricar uma briga que lhe desse razão, declarou que não ficaria ali ouvindo aquelas “besteiras”, levantou-se e saiu do templo como quem acabara de vencer uma guerra que somente ele havia declarado.

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Pouco depois, porém, a vida daquele homem começou a tomar outro rumo. Primeiro veio uma coceira. Depois, feridas. As feridas cresceram, abriram-se, sangraram e começaram a produzir secreções. Médicos levantaram hipóteses terríveis. Falaram em doenças graves, investigaram possibilidades, tentaram tratamentos. Nada resolvia. O diagnóstico permanecia incerto e o sofrimento aumentava a cada dia.

Chegou a um ponto em que as roupas ficavam coladas ao corpo, a cama se deteriorava com o sangue e os humores das feridas, e a própria casa exalava o cheiro podre daquelas coisas que a medicina ainda não consegue resolver.

Então aconteceu algo que talvez seja mais importante do que todas as chagas. O homem percebeu que precisava pedir perdão. Não podia ir à igreja. Sentia vergonha. Estava fisicamente abatido, ferido, exalando um odor que tornava difícil até permanecer perto dele. Pediu, então, por intermédio da mulher, que o pastor fosse à sua casa.

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E o pastor foi. Não foi para dizer “eu avisei”. Não foi para recordar diante da família que o outro o havia humilhado publicamente. Não foi para fazer uma pequena cerimônia de vitória moral, dessas em que o sujeito perdoa o inimigo, mas faz questão de que o inimigo saiba que foi perdoado. Foi simplesmente para perdoar. Conversou com ele, orou por ele e entregou aquela vida às mãos de Deus.

No dia seguinte, as feridas começaram a secar. O quadro mudou completamente e o homem acabou restabelecido.

Não sei explicar o episódio. Acho que nem tudo precisa ser explicado para produzir uma transformação moral. Pode-se discutir a doença, o diagnóstico, a remissão espontânea, a medicina, a psicologia, a coincidência. Tudo isso é legítimo. O que não se pode negar é que aquele homem saiu de uma situação de ódio para uma situação de arrependimento e reconciliação. E talvez esse seja o verdadeiro milagre. Há doenças que aparecem na pele e há outras que aparecem na alma. Algumas têm nome científico. Outras se chamam orgulho, ressentimento, inveja, crueldade.

Mas a história não terminou aí. Depois que o pastor morreu, sua mulher ficou viúva e precisou enfrentar outro tipo de provação: a esperteza de um inquilino que confundiu viuvez com fragilidade e aluguel atrasado com direito de propriedade.

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O homem resolveu simplesmente não pagar mais e declarou que não sairia da casa. Ela argumentou que aquilo não era correto. Ele respondeu, com a serenidade moral de um assaltante de diligência, que, correto ou não, a casa agora era dele.

Há momentos em que discutir com determinadas pessoas é uma atividade intelectualmente semelhante a ensinar latim a uma porta. Ela, então, fez o que lhe pareceu mais sensato: entregou o problema a Deus. E foi aí que entraram em cena as formigas. Não uma ou duas, dessas que aparecem na cozinha para verificar se alguém deixou cair açúcar. Foi uma verdadeira mobilização popular. Um exército de formigas invadiu a casa.

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Comiam os mantimentos. Subiam pelas paredes. Entravam na cama. Atacavam durante a noite. A família não conseguia dormir. O homem tentou venenos, dedetizações, produtos de todos os tipos. Nada funcionava.

As formigas pareciam ter recebido uma missão e, como certas repartições públicas, não aceitavam suborno. Desesperado, o inquilino finalmente arrumou suas coisas e abandonou a casa.

Os vizinhos avisaram a viúva. Ela foi até lá. Quando chegou, a casa estava vazia e as formigas haviam desaparecido.

Se Deus realmente enviou aquelas formigas, há de se reconhecer que o departamento celestial de reintegração de posse possui métodos bastante originais. Mas a questão mais séria não está nas formigas. Está na mulher. Ela poderia ter se vingado. Poderia ter ameaçado, humilhado, amaldiçoado o homem. Poderia ter passado noites planejando a desgraça de quem a prejudicara. Em vez disso, entregou o problema a Deus e confiou. Isso não significa que toda injustiça será resolvida por uma invasão de insetos. Seria uma conclusão perigosa e juridicamente complicada. Nem significa que devemos cruzar os braços diante do mal, abandonando as responsabilidades humanas, as leis e a justiça. Significa outra coisa. Significa que talvez não seja necessário carregar dentro de nós o veneno daqueles que nos ferem.

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Há uma justiça que desconhecemos e um tempo que não controlamos. O homem pode escapar da testemunha, do juiz, do vizinho, do tribunal e até da própria consciência durante algum tempo. Mas ninguém escapa inteiramente daquilo que faz de si mesmo. É por isso que acredito que a vida não termina no instante em que o coração deixa de bater. Acredito que alguma coisa permanece. E essa crença, para mim, não é licença para desprezar a vida presente; é justamente o contrário. Se a existência continua, cada gesto ganha uma importância ainda maior. A palavra que humilha, o perdão que liberta, a mão que ajuda, a injustiça que cometemos, o bem que fazemos quando ninguém está olhando: nada disso é verdadeiramente perdido.

Talvez por isso eu colecione essas histórias. Não para provar que o sobrenatural existe. Coleciono-as para lembrar que o bem não é uma ingenuidade.

Que perdoar não é ser fraco. Que não precisamos devolver toda pedrada. Que a vingança costuma fazer do ofendido uma cópia moral do ofensor. E que, quando já não sabemos o que fazer diante de uma injustiça, podemos ao menos evitar que ela nos transforme em gente pior.

Quanto às formigas, deixo-as em paz. Afinal, depois de uma história dessas, convém não comprar briga com elas. Vai que alguma delas tenha contatos.

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