Sempre colecionei histórias sobrenaturais. Não por aquela curiosidade de quem passa a noite procurando fantasma para ter assunto no café da manhã, mas porque algumas histórias, quando escutadas com o coração desarmado, ajudam a conservar uma coisa que anda muito maltratada neste mundo: a esperança.
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Entre os relatos que guardo, há um que me foi contado por uma conhecida, viúva de um pastor. O episódio ocorreu quando seu marido ainda exercia o pastorado e enfrentava, como tantos homens que lidam com gente, não apenas o pecado alheio, mas também a falta de educação alheia, que é uma espécie de pecado com diploma de grosseria.
Certa vez, durante um culto, um homem levantou-se e começou a atacá-lo diante de todos. Não sei se era inveja, ressentimento, raiva ou simplesmente aquela velha disposição humana para falar mal de alguém quando se tem a oportunidade. O homem desancou o pastor de todas as maneiras. E o pastor, em vez de devolver a agressão na mesma moeda, limitou-se a responder, entre um ataque e outro:
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O sujeito continuou.
Glória a Deus.
Mais um insulto.
Glória a Deus.
Até que o agressor, talvez decepcionado porque não conseguira fabricar uma briga que lhe desse razão, declarou que não ficaria ali ouvindo aquelas “besteiras”, levantou-se e saiu do templo como quem acabara de vencer uma guerra que somente ele havia declarado.
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Chegou a um ponto em que as roupas ficavam coladas ao corpo, a cama se deteriorava com o sangue e os humores das feridas, e a própria casa exalava o cheiro podre daquelas coisas que a medicina ainda não consegue resolver.
Então aconteceu algo que talvez seja mais importante do que todas as chagas. O homem percebeu que precisava pedir perdão. Não podia ir à igreja. Sentia vergonha. Estava fisicamente abatido, ferido, exalando um odor que tornava difícil até permanecer perto dele. Pediu, então, por intermédio da mulher, que o pastor fosse à sua casa.
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No dia seguinte, as feridas começaram a secar. O quadro mudou completamente e o homem acabou restabelecido.
Não sei explicar o episódio. Acho que nem tudo precisa ser explicado para produzir uma transformação moral. Pode-se discutir a doença, o diagnóstico, a remissão espontânea, a medicina, a psicologia, a coincidência. Tudo isso é legítimo. O que não se pode negar é que aquele homem saiu de uma situação de ódio para uma situação de arrependimento e reconciliação. E talvez esse seja o verdadeiro milagre. Há doenças que aparecem na pele e há outras que aparecem na alma. Algumas têm nome científico. Outras se chamam orgulho, ressentimento, inveja, crueldade.
Mas a história não terminou aí. Depois que o pastor morreu, sua mulher ficou viúva e precisou enfrentar outro tipo de provação: a esperteza de um inquilino que confundiu viuvez com fragilidade e aluguel atrasado com direito de propriedade.
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Há momentos em que discutir com determinadas pessoas é uma atividade intelectualmente semelhante a ensinar latim a uma porta. Ela, então, fez o que lhe pareceu mais sensato: entregou o problema a Deus. E foi aí que entraram em cena as formigas. Não uma ou duas, dessas que aparecem na cozinha para verificar se alguém deixou cair açúcar. Foi uma verdadeira mobilização popular. Um exército de formigas invadiu a casa.
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As formigas pareciam ter recebido uma missão e, como certas repartições públicas, não aceitavam suborno. Desesperado, o inquilino finalmente arrumou suas coisas e abandonou a casa.
Os vizinhos avisaram a viúva. Ela foi até lá. Quando chegou, a casa estava vazia e as formigas haviam desaparecido.
Se Deus realmente enviou aquelas formigas, há de se reconhecer que o departamento celestial de reintegração de posse possui métodos bastante originais. Mas a questão mais séria não está nas formigas. Está na mulher. Ela poderia ter se vingado. Poderia ter ameaçado, humilhado, amaldiçoado o homem. Poderia ter passado noites planejando a desgraça de quem a prejudicara. Em vez disso, entregou o problema a Deus e confiou. Isso não significa que toda injustiça será resolvida por uma invasão de insetos. Seria uma conclusão perigosa e juridicamente complicada. Nem significa que devemos cruzar os braços diante do mal, abandonando as responsabilidades humanas, as leis e a justiça. Significa outra coisa. Significa que talvez não seja necessário carregar dentro de nós o veneno daqueles que nos ferem.
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Talvez por isso eu colecione essas histórias. Não para provar que o sobrenatural existe. Coleciono-as para lembrar que o bem não é uma ingenuidade.
Que perdoar não é ser fraco. Que não precisamos devolver toda pedrada. Que a vingança costuma fazer do ofendido uma cópia moral do ofensor. E que, quando já não sabemos o que fazer diante de uma injustiça, podemos ao menos evitar que ela nos transforme em gente pior.
Quanto às formigas, deixo-as em paz. Afinal, depois de uma história dessas, convém não comprar briga com elas. Vai que alguma delas tenha contatos.














