Dizem os físicos que o tempo só corre para a frente, mas a psique humana ignora solenemente as leis da termodinâmica. Há dias em q...

O eco do tempo no peito: Reflexões sobre a saudade

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Dizem os físicos que o tempo só corre para a frente, mas a psique humana ignora solenemente as leis da termodinâmica. Há dias em que a gravidade interior opera ao contrário, puxando o peito para trás, numa dobra invisível do calendário onde o passado deixa de ser arquivo para se tornar presença física. O peito pesa e esvazia ao mesmo tempo, um paradoxo que os filósofos tentam decifrar há milênios, a psicologia chama de memória afetiva e a sociologia trata como o eco coletivo do pertencimento.
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Arte: Charles Gogin, S.XX ▪ Herbert Museum, Coventry, GB
Mas nenhuma dessas gavetas teóricas consegue represar a experiência bruta do reencontro com o que não está mais lá.

A psicologia explica que a mente é uma máquina de fabricar continuidades. Quando o elo se rompe, seja pela distância, pela finitude ou pela brevidade da vida, o cérebro tenta preencher as lacunas com projeções e imagens antigas. É o esforço neurótico e poético de manter vivo o que já virou poeira. Já no campo social, vivemos enredados na necessidade visceral de vínculo: a cidade que muda suas fachadas, o bairro que perde seus cheiros originais, a ausência da voz que um dia foi refúgio. O indivíduo, desorientado nas metrópoles aceleradas, busca sem cessar um ancoradouro de pertença para não se dissolver no anonimato do presente.

A filosofia, por sua vez, nos lembra que somos feitos de faltas. Desde os gregos, a consciência de existir traz embutida a dor do exílio, essa eterna impressão de estarmos longe de uma pátria original. Não se trata apenas de sentir falta de algo, mas de perceber que a própria estrutura do nosso ser é moldada pelo que perdemos pelo caminho. É o traço invisível da maré que subiu, banhou a areia e recuou, deixando para
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Arte: Antonio Ciseri, S.XIX ▪ Masi, Lugano, Suiça
trás a marca d'água na pele.

Hoje, bastou o aceno de uma melodia, os acordes nostálgicos de Coração do Agreste, na voz inconfundível de Fafá de Belém, para que toda essa estrutura teórica ruísse e desse lugar a uma urgência quase física. Um impulso incontrolável de regressar aos lugares de memória, como quem busca nas pedras do caminho algum vestígio capaz de estancar um oco profundo que insiste em pulsar.

De repente, a mente exige a presença física das raízes. Dá uma vontade imperiosa de regressar à casa dos avós maternos, lá no bairro das Rocas, resgatando na memória a textura das paredes e o cheiro do café coado à tarde. Dá vontade de pisar novamente na Rua do Motor, onde em 1973 a infância desenhou os primeiros passos sob o olhar atento dos pais. O corpo pede para ir ao cemitério onde descansam os restos mortais do meu pai, não para chorar o fim, mas para buscar a firmeza de um abraço que o tempo não apaga.

O itinerário da memória avança sem freios. Dá vontade de passar diante da Escola Isabel Gondim, ouvindo o eco distante do sinal do recreio e as gargalhadas que ficaram presas
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Arte: Jozef Israëls, 1859 ▪ Newport Museum, Gales
naquele pátio. Apetece andar sem rumo pelas ruas da Cidade Alta, a procura de referências de um passado qualquer de felicidade, rastreando nas esquinas antigas a sombra da pessoa que fomos um dia. E, na urgência do afeto, surge o desejo simples e avassalador de ligar para alguém que amo e já não vejo mais, e conversar por horas a fio, deixando o relógio perder a importância.

Pois, no fundo, caminhar por essas ruas e escutar esses ecos não é um mero exercício de nostalgia, é o desespero manso de quem sabe que não se pode voltar, mas recusa-se a aceitar que tudo terminou. A gente regressa não porque o passado esteja lá nos esperando, mas porque a dor da ausência fica pesada demais para carregar sozinho no presente. Regressar é tocar a ferida com a ponta dos dedos e descobrir que, debaixo da cicatriz, a vida ainda pulsa. É encarar de frente a sombra de quem fomos, a saudade de quem partiu, e perceber, com os olhos rasgados em lágrimas, que só o ato de voltar pode curar o que a partida quebrou, unindo, finalmente, o nó da dor com a luz da esperança:

Regressar é reunir dois lados À dor do dia de partir Com seus fios enredados Na alegria de sentir Que a velha mágoa É moça temporã Seu belo noivo é o amanhã
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Arte: Giovanni Fattori, S.XIX ▪ Galleria d'Arte Moderna, Florença

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