Dedico ao médico e amigo Manoel Jaime Xavier,
que me deu o tema
Os cafés, pode-se dizer, são instituições universais: encontramo-los em quase todos os lugares. Se não existissem, precisariam ser inventados, assim como os bares, pois são lugares civilizadores, onde as pessoas se encontram, nativos e forasteiros, para o mais delicioso
Fotografia: Macadam13
dos afazeres: jogar conversa fora. E lá os solitários também acham guarida, pois podem cultivar a solidão e, ao mesmo tempo, observar o movimento do mundo, contemplação preferida dos que são – ou estão – sozinhos. Por isso, aqui e além, os cafés são portos seguros para sedentários e viajantes, uma pausa no tempo e um descanso. Prestam serviços de utilidade pública, principalmente na área da saúde mental, razão pela qual deveriam receber dos poderes constituídos algum tipo de incentivo fiscal e de reconhecimento social. São tão importantes, para a coletividade, quanto os templos religiosos, os hospitais, os mercados e as escolas. E não exagero.
Não por esnobismo (Deus me livre!), mas por constatação, quando falo em cafés, associo-os logo a Paris, cidade, talvez mais que qualquer outra no mundo, que os possui às centenas, talvez aos milhares, e os cultiva como verdadeiros patrimônios da cultura nacional. É impressionante o número e a variedade de cafés parisienses, cada qual com a sua personalidade, a sua história, a sua clientela fiel. Alguns até mesmo centenários, testemunhas do complexo século XX, com suas mudanças comportamentais, as suas guerras, suas conquistas e
Café Deux Margots (Paris), fundado em 1884 ▪️ Fotografia: Cheng-en Cheng
retrocessos. E não poderia ser diferente, se pensarmos bem, numa cidade que cultua a gastronomia como arte, fazendo do ato de comer e beber, aparentemente simples, não uma necessidade, nem uma obrigação, mas um refinado prazer, ao alcance de qualquer um. A indústria do turismo consagrou particularmente dois cafés da Cidade-Luz: o Flore e o Deux Magots, coincidentemente localizados de frente um para o outro, em Saint-Germain-des-Prés, bairro icônico da boemia e da intelectualidade local. Neles, escritores, artistas e políticos se encontravam para conversar – e até para trabalhar, a exemplo dos incontornáveis Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Neles, o turista anônimo, mas bem informado, quer ter a oportunidade de sentar à mesa na calçada e degustar uma taça de vinho ou uma xícara de café, com direito à inevitável foto, prova material do privilégio.
No Rio de Janeiro, são os botecos que fazem as vezes dos cafés ao estilo parisiense. Por ser uma cidade litorânea num país tropical e por ter uma população pitorescamente informal, o Rio fez dos botecos as instituições municipais por excelência. Lá o freguês vai de bermuda e camiseta e também de roupa de banho, na ida ou na volta da praia. Lá a pedida é o chope bem gelado, acompanhado de petiscos antológicos. Em São Paulo, cidade de clima e hábitos mais favoráveis aos cafés, não os vejo tão abundantes como em Paris, mas existem em quantidade e qualidade admiráveis, não raro acoplados a bistrôs, o que se explica pelo gosto dos paulistanos por restaurantes.
GD'Art
Aqui na aldeia, pode-se afirmar que os cafés chegaram tarde, mas para ficar. Não muito à moda europeia, com mesas nas calçadas, em razão do clima pouco propício na maior parte do ano, mas em ambientes climatizados e geralmente atraentes do ponto de vista das instalações e dos cardápios. Aos poucos, estão fidelizando clientes e se tornando um hábito individual e social que civiliza e moderniza os nativos, cada vez mais. Marcar um encontro num café é algo que já se integrou ao cotidiano dos aldeãos mais descolados. Nesse sentido, os cafés nos aproximam e nos educam, ao mesmo tempo. Com eles – e neles –, sentimo-nos menos provincianos.
Nosso doutor Manoel Jaime, homem viajado e culto, cultiva os cafés com muito gosto, os daqui e os do mundo afora. Na aldeia, ele vai muito ao D’Avellar Bakery, sem exclusão de outros menos badalados. Se pensarmos bem, concluiremos que os cafés combinam bem
Manoel Jaime Xavier ▪️ GD'Art
com ele, com sua discrição, seus bons modos, seu comedimento. Não será nunca um homem de boteco e assemelhados, por exemplo. Até por isso, os cafés são bem-vindos à aldeia: para acolher aqueles e aquelas que preferem um certo recolhimento como atmosfera propícia às conversas.
Há cinquenta anos, um certo professor paulistano pediu rescisão de seu contrato com a UFPB sob o inusitado argumento de que a aldeia não tinha restaurantes e ele gostava de comer bem (como todo paulistano). É verdade. Há apenas meio século, nossa velha urbe não dispunha de bons lugares para se comer fora – e, na verdade, nem mesmo de lugares ruins. Éramos atrasados de doer nesse setor – e em muitos outros. Mas, felizmente, evoluímos nessa área – e em outras também. Nesse sentido, civilizamo-nos um pouco – ou muito, quem sabe. Progresso não é só isso, claro, mas também é isso. O fato é que hoje não nos faltam boas opções de cafés. Cultivemos neles, portanto, como bem disse o poeta, a saudável, indispensável e prazerosa arte do encontro.