O vento que passa pelas árvores facilita a comunicação entre elas. O farfalhar das folhas embaladas pelo vento permite os cantos no c...

Alma das palavras

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O vento que passa pelas árvores facilita a comunicação entre elas. O farfalhar das folhas embaladas pelo vento permite os cantos no coro das árvores; suas falas se interligam na língua das folhas. A Natureza é a grande mestra de tudo que somos, sentimos, pensamos, sonhamos e realizamos.

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Pensar, quando encontrei esse trecho junto das folhas amareladas, em tantas folhas que se espalharam ao longo dos séculos, desde a invenção do livro impresso em papel. Tantos escritos que se multiplicaram em progressão geométrica, numa quantidade impossível de acompanhar desde a impressão da primeira Bíblia. Hoje em dia, precisaríamos de múltiplas existências para acompanhar o que é publicado pelo mundo afora. E ainda temos muita impressão em papel. As livrarias resistem e os autores se multiplicam.

Às vezes, fico pensando nos tempos dos livros de argila, na evolução da escrita desde os primeiros hieróglifos. As coisas pareciam ser menos complexas e cabiam, assim, em registros de poucos signos e símbolos. As representações desde as cavernas envolveram desenhos de rituais e anotações de atividades vivenciadas. Há quem diga que alguns registros de Itacoatiaras são obra de seres extraterrestres. Certo é que existem gravações que parecem mesmo terem sido realizadas através de laser, de tão perfeitas que são. Haja vista as inscrições em baixo-relevo na Pedra do Ingá, na Paraíba. Tema abordado nesse livro.

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As representações ilustrativas, em traços pictóricos, sempre me acompanharam, desde os primeiros desenhos na infância. Essa necessidade de reproduzir as imagens se reflete nas ilustrações que fiz absoluta questão de apresentar junto desses escritos.

Pensando ainda sobre a linguagem escrita, sinto uma limitação na dependência de uma sucessão das palavras, na horizontalidade do tempo. Uma espécie de prisão através da necessária sequência das palavras e dos acontecimentos, mesmo que a totalidade dos eventos se dê de forma simultânea.

Como expressar uma dimensão verticalizante, imanente aos instantes metafísicos da sincronicidade imanente em tudo? A dimensão da poesia, nos seus instantes metafóricos transcendentes, ameniza, em parte, essa angústia literária. Seguimos no exercício da expressão sequencial das palavras, como não poderia deixar de ser, na procura igualmente de buscas verticalizantes, de vivas articulações metafóricas.
Do livro Armário de Memórias, crônicas de sonhos e de desassossegos, disponível na Livraria do Luiz

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