Melancolia
— Sempre esta melancolia,
estas sobras de um dia triste.
Estou assim, hoje.
Procuro alguma coisa atrás das coisas.
Não tenho pena das sobras...
É nelas que permaneço inteira.
Eu que
me sinto tantas.
Ser tantas
também é uma forma de inteireza.
E o medo?
E o fracasso?
Penso:
fracasso é uma porta
que não se abre para fora.
Por isso, sou obrigada a entrar em mim,
nesse lugar sem mapas,
onde tudo o que não consegui ser
continua vivendo.
Silêncio...
O silêncio não é vazio.
Tem raízes, nervos, respiração.
O meu silêncio recolhe palavras
como quem recolhe migalhas sobre a mesa
depois de um grande banquete.
E me alimento do que sobra de mim,
das lembranças, dos amores imperfeitos,
das palavras que chegaram tarde,
das perguntas que envelheceram sem resposta.
O que sobra não é pouco.
É o que resistiu à vida.
E isso basta?
Nunca basta.
Mas é justamente essa insuficiência que me mantém viva.
Olho para dentro e encontro papéis escritos, casas abandonadas, noites insones, afetos sem destino, voos interrompidos e uma menina que ainda me chama pelo nome.
Há tanta coisa perdida em mim,
escondida da mulher que me torno.
Enquanto houver uma pergunta,
ainda não terminei.
Não sou feita apenas do que conquistei,
mas do que me escapou;
não somente do que fui,
mas do que carrego;
não apenas da voz,
mas desse secreto silêncio
que permanece
quando todas as palavras se recolhem.
Talvez escrever seja salvar as sobras,
ou talvez escrever seja descobrir
que nunca houve sobras.
Havia vida.
3.9.26
Melancolia — Sempre esta melancolia, estas sobras de um dia triste. Estou assim, hoje. Procuro alguma coisa atrás das coisas. N...
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