Alguém sabe a diferença entre bolacha e biscoito? Não? Pois bem, a bolacha e o biscoito vão aparecer ao fim deste causo sem que desfaç...

Só chá, sem mais nada?

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Alguém sabe a diferença entre bolacha e biscoito? Não? Pois bem, a bolacha e o biscoito vão aparecer ao fim deste causo sem que desfaçamos esta dúvida. Mas primeiro tenho que apresentar Zezinho Gafanhoto.

José A.L.S. era o que poderíamos chamar de comilão de mão cheia; ou melhor, de boca cheia. Tinha, acreditem, um apetite voraz, o que justifica plenamente a alcunha. É o que precisam saber dessa criatura. Então, agora, feita essa resumida apresentação do protagonista, vamos ao causo.

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Dona Maricotinha era comadre de Zé e, num daqueles feriados que acontecem na quinta-feira e espremem o calendário, proporcionando um fim de semana prolongado, ela, que era pessoa das mais animadas, marcou um pagode para o seu quintal. Nosso Zé estava devidamente convidado, já que ninguém sabia, como ele, dar uns tapas no pandeiro. Vieram também Tiaguinho no violão de sete cordas, Tião Rapadura no cavaco, Dito Cabeça no violão, Arlindo no tamborim e Matilde Perna Grossa no reco-reco. Estava completa a turma de pagodeiros da melhor qualidade e sempre sob o comando da nora de Maricotinha, no caso, ela, a Matilde do reco-reco. Essa era a turma e mais alguns agregados.

Nossa anfitriã pegou no batente desde cedo, abastecendo o fogão à lenha que ficava debaixo de um puxadinho. O rega-bofe estava marcado para as três da tarde, mas às dez o pagode já estava a todo vapor.

Roda de samba sem uma cerveja gelada, sem uma cachacinha para espantar os capetas e sem tira-gosto não é pagode que se preze. Assim, quando a cantoria começou a esquentar, já saiu um prato de torresmo, depois o sarapatel, não
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demorou o queijo de coalho temperado no azeite e orégano, porção de fritas para ninguém botar defeito e por aí foi: Dona Maricotinha abastecendo o apetite daquela turma boa de samba e melhor ainda no quesito apetite. Nosso Zezinho Gafanhoto não se fez de rogado e, mais do que todos ali, quando dava uma folga para o pandeiro, estava mastigando, e sempre generoso nas porções. Era um limpa-trilhos, nada enjeitava aquele estômago sancho. As garrafas também foram esvaziando e nosso amigo já havia entornado umas quatro da “loira” quando Dona Maricotinha anunciou que a buchada estava pronta.

Bem, agora imaginem, depois de tudo isso, uma buchada de bode. Acompanhando, arroz no alho, feijão preto temperado com louro e carne de charque e um mocotó que saíra da panela de pressão para dar um reforço ao cardápio. Imaginem...

Juntaram as mesas e o povão não perdeu tempo. Todo mundo fazendo seu prato, e os garfos logo entraram no exercício de suas funções. Conversa animada entre uma garfada e outra, e ainda sobrava um tempinho para uma bicada nos copos de cerveja e nos da “marvada”.

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Zezinho Gafanhoto foi um dos primeiros a encher sua gamela. Quando todo mundo se servia de uma trouxinha de buchada, nosso amigo colocou no prato logo cinco para não ter trabalho depois, três conchas de feijão, quatro de arroz e completou aquela montanha com dois nacos de mocotó e, em seguida, enfiou o beiço naquela gororoba.

Todo mundo ali comentando o apetite de Zezinho: “Deixa um pouco pra gente”. “Como é que isso cabe dentro de você, Zezinho?”. “Só quero saber como é que isso tudo vai sair”. E por aí seguiam os comentários, enquanto nosso comilão, sem se importar com o que diziam, ia mandando ver.

Mas, de repente, começou a suar frio, pediu licença e saiu ligeiro para os sanitários. Não chegou lá, caiu no corredor que ligava a cozinha da casa ao banheiro. Ficou sentado, sôfrego, como se estivesse esperando a morte. Matilde Perna Grossa deu o alarme.

— Gafanhoto tá passando mal. Tá lá no corredor. Não consegue nem falar.

Foi um corre-corre danado, gente abanando o pobre, Arlindo já ligou para o SUS pedindo uma ambulância. Dona Maricotinha preparou um chá de carqueja com boldo e foi servir para o coitado.

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— Tome esse chá, compadre Zezinho, precisa maneirar no apetite. Assim você morre, homem.

Zezinho recolheu o que lhe sobrava de forças e perguntou:

— O que é isso, comadre?

— Chá de boldo com carqueja, toma que você melhora.

— Mas tomar chá assim, sem uma bolacha, sem um biscoito...

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