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Certas coisas “calam” a alma, e uma desesperança preenche, subitamente, o espaço que recriamos, dia -a -dia, para existir. Após assistir ...

Certas coisas “calam” a alma, e uma desesperança preenche, subitamente, o espaço que recriamos, dia -a -dia, para existir. Após assistir a um vídeo que me foi encaminhado pela professora e ambientalista Renata Bonfim, já fiquei assustado. Aquilo que eu remoía, previa, sentia, se configurou verdade. O abismo humano, aquele que antecede a erosão objetiva da terra devastada, se estendeu pelas encostas de Domingos Martins. Hoje passei pelo local do registro das primeiras imagens do desmatamento. É muito maior do que as imagens mostram, e olha que as fotos e o vídeo retratam, de forma clara e objetiva, a tragédia ecológica. Mas as imagens não foram capazes de traçar os limites precisos da desolação que me atingiu. Pois não tem limite o homem com sua vulgaridade e torpeza. Derruba-se aqui, ali, e seu entorno. E o limite é a morte. A busca da felicidade, do paraíso terrestre, da fuga da Covid nos grandes centros… A falta de incentivo para a preservação, o parcelamento dos terrenos familiares e necessidade de capitalização… Eis alguns dos argumentos. E o meio ambiente? A flora, a fauna, a água, o clima…. E a certeza de que haverá vida e a beleza será preservada apesar de nós? O que somos? Assistimos e comentamos? O que fazemos? Passamos no Mundo. Mas o que deixamos? Sejamos responsáveis e nos unamos para impedir, protestar e combater o que está ocorrendo no município de Domingos Martins e demais municípios da serra do Espirito Santo ... do Brasil, pois a Mata Atlântica é frágil e depende de todos nós.


GRITOS PELO VERDE

Não interrompa o cotidiano das serpentes, elas não buscam nos homens o seu veneno.


 
 

 
Verdes Versos I
O escrito, o exposto, essas meias verdes verdades, já não se escondem atrás de máscara.
Kioto
A redoma estilhaçada faz frágil o ser antropocêntrico. A névoa, agora, é cinza de morte. A hora se apresenta túrgida de desassossego. O suor que nasce e evapora do febril pensante é quente, como no Holocausto de ontem. A vidraça, o vapor, a névoa, sobretudo o calor, fundem o metal encantado de Wall Street, em pleno Sol de meio-dia. É o céu um espelho partido, forjado por todos os alquimistas que acenderam o fogo da ambição. O girassol torporoso, refugia-se entre as pétalas que não tombaram ao orvalho ácido do alvorecer. Ele é incapaz de encarar a verdade deste Sol. O que dizer dos seres ignotos que se admiram nos espelhos das nuvens... Onde está a cuspideira, para que eu possa comemorar a soberba humana? Homem, mosaico de fluidos, senhor dos pensamentos dúbios e incoerentes, não tardes esperando que tua racionalidade te dê o norte. Ouve os ociosos que, perdidos entre estrelas, anteveem o simples fim. A rosa oriental que nasceu aos pés do cogumelo de poeira, já era rubra, ao brotar. Hoje, ganhou um toque tropical, está mais encarnada, herança diária dos inocentes exangues, que teimam em nascer, à margem do mundo globalizado. Os seres débeis já se esvaem na fumaça que escreve números em todo o céu. E o principal protagonista não lê os escritos das ondas, que, insistentes, desistiram de lavar as areias e passaram a deixar os seus escritos, nas memórias de uma geração.
Verdes Versos II
Nada menos humano, menos carnal que o verde. Pútrida carne verde dos abandonados em valas. O que é verde o corpo despreza. Catarro, pus, vômica sinônimos de morte. A pele que ainda respira quando verde agoniza. De verde apenas os seres de nosso pobre imaginário. Nada mais vida, mais sentimento que o verde.
Morte verde
Gostaria de que o final do ciclo dos sóis visíveis me encontrasse bestando a apreciar bromélias.
Pensamento
A transparência dos fatos macula-se com a palavra. Como se a busca pelo caos fosse brindada com louvor e êxtase.
Entropia
Em algum momento, antes do fim absoluto, o homem enfim olhará suas mãos sujas com a poeira do caos.
Vegetariano
“O esquecimento jamais devolve seus reféns” Fabrício Carpinejar Somos formigas demais para o verde que resta. A escada de Tistu já não existe mais, perdeu-se no fogo verde. Ele, felizmente, está salvo, é um anjo... Legou-nos a metáfora de seu toque, mas nessa fila de ir e vir só a pele interpreta e julga o que o olhar não entende. Somos deuses demais para o verde que resta. Pode chorar ingazeira, pois não se volta do esquecimento. O tropel segue polvilhando cinzas sobre o cobre do entardecer, e a consciência não segue os passos de seus atos. Afinal, criamos Deus à nossa imagem, temos a chave da vida. Somos dementes demais para o verde que resta.
Apocalipse verde
O mar afoga as colinas onde até anteontem os passos deixavam [ marcas de certezas. Os três ou quatro versos que eu deixei voltaram ao sal. Já não restam vogais, somente rastros na rocha dos tempos. Rezar não adianta; na cruz – poleiro dos derradeiros papagaios –, os musgos viçosos sobrevivem. O VERBO partiu e levou consigo o pecado. O mundo suspira aliviado o retorno à solidão.
O verde psicografado
Certa vez, psicografei um beija-flor morto na morna manhã da sensatez. Ele me confirmou que a turba renovará o erro de sempre. – O desespero do luar está em teus olhos, disse-me ele. Diz-me, rapaz, és capaz de ver quantas perspectivas na falsa inércia de um tronco?... Acreditas mesmo que um coração pode ser o centro do Universo?...
Poema à morte da ingazeira
Morre de pé o verde, até que a inexorável gravidade trace seu rumo definitivo: partir para o esquecimento.
Hóstia verde
Vó Bela! O homem é assim: cultiva a ausência do verde, e, quando este finalmente falta, vende o que resta aos idólatras. Benditos os iconoclastas derrubadores do ídolo verde! Vó Bela! Será que chegará o dia em que tomaremos em nossas bocas uma folha verde como hóstia?
Ofertório
Certas bocas não vestem bem as palavras.

ATENÇÃO
VAMOS COMBATER O DESASTRE AMBIENTAL!
(clique aqui para assinar)

      Íntimo Ondas guardadas, não devolvem o gosto de sal aos lábios despidos de lembranças. Deixados sós, o...

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Íntimo
Ondas guardadas, não devolvem o gosto de sal aos lábios despidos de lembranças. Deixados sós, os lábios, não se desviam do destino. Mas o súbito tranco da cancela dos dentes intimida o deslizar da língua.

Abençoados os que se aconchegam no desencanto (a relva sob a bruma é mais úmida) Abençoados os de paixão ardente (o labirinto ...

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Abençoados os que se aconchegam no desencanto (a relva sob a bruma é mais úmida) Abençoados os de paixão ardente (o labirinto é a única certeza de um abrigo) Abençoados os que relembram e sorriem (a possibilidade de atalhos é um fluir da memória) Abençoados os ausentes (a distância é um consentimento à perfeição) Abençoados os que se perdem no desmedido (o que cabe não transborda) Abençoados os que carecem das unhas (o arrepio é uma dádiva no desespero)

I Minha terra é uma ilusão da linguagem. Tenho de meu esse rastilho de palavras que pressinto atadas aos calcanhares. Se o...

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I
Minha terra é uma ilusão da linguagem. Tenho de meu esse rastilho de palavras que pressinto atadas aos calcanhares. Se o desfaço, perde-se o encantamento das vivências cerzidas. Sei que as mãos ensaiam obscenidades entre dois espelhos. Quero mesmo criar algumas reentrâncias na estrutura dos olhares. Mas olhos extraviados não ardem

    Saudade, esse poro transpirando para dentro da memória um infinito perdido que simplesmente fica naquele lugar que pinica...

 
 
Saudade,
esse poro transpirando para dentro da memória um infinito perdido que simplesmente fica naquele lugar que pinica e diz do cheiro dos que me amaram antes que eu pudesse perceber que existe a ausência

Eu criaria um Céu se nele coubessem as minhas asas, Mas os sonhos dos homens que recolho, que abraço, precisam de um mundo que se ...

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Eu criaria um Céu se nele coubessem as minhas asas, Mas os sonhos dos homens que recolho, que abraço, precisam de um mundo que se expande aos limites do descabido Por isso a queda no inominável da ausência, a frustração de me vender ao vento, de tombar perante o branco da página, do não escrito,

O punhal tem duas faces: a que brota e a que geme. Eis a porção do falso que constitui a verdade... Se disser tudo, rest...


O punhal tem duas faces: a que brota e a que geme.
Eis a porção do falso que constitui a verdade...
Se disser tudo, restará apenas a última mentira.
Rente ao chão, toda mentira resvala na inutilidade.
A verdade é incomunicável e não se fixada em palavras.
Entendo a sujeira como um vício da realidade.
Por mais que insista, os dias são mais irônicos que as palavras.

Vida e morte são o continuar dos passos o ir e vir para não se sabe onde. A única diferença é que, no fim, não se poderá mais...

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Vida e morte são o continuar dos passos o ir e vir para não se sabe onde. A única diferença é que, no fim, não se poderá mais contar os passos.... A vida é mais irônica que as palavras. Mais do que a vida a certeza e inumeráveis escombros.

      I Minha terra é uma ilusão da linguagem. Tenho de meu esse rastilho de palavras que pressinto atadas aos calcanhares. Se o d...

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I
Minha terra é uma ilusão da linguagem. Tenho de meu esse rastilho de palavras que pressinto atadas aos calcanhares. Se o desfaço, perde-se o encantamento das vivências cerzidas. Sei que as mãos ensaiam obscenidades entre dois espelhos. Quero mesmo criar algumas reentrâncias na estrutura dos olhares. Mas olhos extraviados não ardem no lugar comum em que me perco...

Quo Vadis Sou um devoto de pernas tortas, um desequilíbrio me preenche, uma crença na embriaguez (Um tom de cor que não percebem...

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Quo Vadis
Sou um devoto de pernas tortas, um desequilíbrio me preenche, uma crença na embriaguez (Um tom de cor que não percebem os olhos claustrofóbicos) Conforme os cartazes, não existo, uma impossibilidade me percorre como um sangue incolor

Pompei Revisito o silêncio das trevas. Sonhos adormecidos, desfeitos por gestos que precedem a consciência. Sigo nos séculos,...

Pompei
Revisito o silêncio das trevas. Sonhos adormecidos, desfeitos por gestos que precedem a consciência. Sigo nos séculos, interrompido no ventre da mãe. Restos calcinados, dispersos, estremados, entrecortados pelo espanto. O céu sabe das cinzas. Sempre soube... E aproveitou-se da inocência dos que não me conheceram para dizer que me negaram a existência

MANUAL COM QUESTÕES PARA UM AUTORRETRATO Por que vc tentou se suicidar? Sou artista, trabalho com fragmentos.   Por qu...

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MANUAL COM QUESTÕES PARA UM AUTORRETRATO

Por que vc tentou se suicidar? Sou artista, trabalho com fragmentos.
 
Por que vc se desculpa? Pelo vício de armar arapuca.   Por que vc exagera tanto? Não quero morrer com quebranto.   Por que vc chega tão cedo? Para ter um pouco de sossego.   Por que vc gosta de álcool? Pela chatice de ser sensato.   Por que vc recorre a Deus? Não se admire do que faz um ateu.

MANUAL DE QUESTÕES ELEMENTARES SOBRE ENGENHARIA DOMÉSTICA   O que de perene resta da rupestre arte de equivocar-se? Seria f...

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MANUAL DE QUESTÕES ELEMENTARES SOBRE ENGENHARIA DOMÉSTICA
 
O que de perene resta da rupestre arte de equivocar-se?
Seria flagelo o silêncio  ou equívoco de enganar-se? Morre-se por tentar ou ignora-se para salvar? Pode ser a morada mórbida  como um claustro? Abrir a porta — metáfora  ou ato de desespero? Seria a paixão fonte de saudade e motivo de erro? O mínimo é indispensável ou vale mais o exagero?  O que se atira para fora  é sobra ou esperança? Na sanha dos corpos escreve-se uma aliança?

Alguma coisa chamada cor Quem cismou de pintar de rosa as nuvens pôr de sol do outono? E ver o azul se disfarçando em cinz...

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Alguma coisa chamada cor
Quem cismou de pintar de rosa as nuvens pôr de sol do outono?
E ver o azul se disfarçando em cinzas na crepuscular despedida do que já foi manhã.

A parte metade A parte metade, de todo inteira, (esse canto chão de meu ócio) é a música que visto, meu quarto ...

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A parte metade
A parte metade, de todo inteira, (esse canto chão de meu ócio) é a música que visto, meu quarto de despir mentiras. Parte partida, fosca pela sujeira do repisar o pó; fosso cavado para assentar a paz. (metade é medida sem desespero, recanto de passagem, cobertor dos atropelos.)

Quando do último grande embate na faixa de Gaza, era o ano de 2009, escrevi os primeiros 3 poemas abaixo e inclui, de última hora, no meu ...

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Quando do último grande embate na faixa de Gaza, era o ano de 2009, escrevi os primeiros 3 poemas abaixo e inclui, de última hora, no meu livro “Rascunhos do absurdo”.

Outros momentos críticos ocorreram, e escrevi mais alguns poemas motivado pela crise humanitária na terra de origem de minha família.

Hoje, uma nova crise se instala na região. Muito triste ver o extremismo se instalando, novamente com força, no Mundo.

Escrevi o último poema, agora com uma mensagem de esperança. Compartilho com os amigos deste espaço literário dedicado à palavra.
A praça
Estaria reservado no escaninho dos deuses tão impensada tormenta? Movimento primevo: revoada dos pombos. Quebrado o instante, brancas penas restaram na praça. Crianças absortas, festejando o dia, imaginaram dragões e fadas. Anciões se entreolharam e cismaram do céu... Ato contínuo: zunido, estrondo, perplexidade. Malfadado encontro: pó e silêncio. Os primeiros gritos, embotados pela poeira do subentendido. O som antecipou a imagem suspeitada. Fez-se a desolação nos rostos que se ergueram. Os primeiros gestos, lentos, não acompanharam o frenesi do pensamento. Desespero. – Como é possível minar tanta água desses rostos de areia? Coube ao acaso a seleção dos fortes (que recolheram os corpos). Ao poema, cabe despejar sobre o chão, e na cara dos facínoras, uma resma de dúvidas. De algum ponto, cabe o recomeço.
Sonho no absurdo
Para Mahmoud Darwich
Não tirem do poeta a visão; podem condená-lo à loucura do mergulho no poema sem fim.
I O poeta sabe a textura exata do sonho. E por perceber que os números são símbolos que poderiam arrastar seu povo, foi o primeiro a se equilibrar nos destroços. Não azulava as dúvidas com preces e entendia a sujeira como um vício da realidade. Caminhando em silêncio, observou que a ausência de espaço não havia poupado nem mesmo as sombras. Homens desencontrados cruzaram o limite da incerteza e bradavam: – Não pedi esse conflito. Mas, na dúvida, deixo a arma engatilhada! Nunca foi do poeta o primeiro momento... II Aos primeiros que o ouviram disse: – Se abuso daqui à esquina de minha casa, perco o controle do dia. – A vida é ritual de pontes. Vejo triste, que entre o dito e o pensado ficou uma ponte tombada. – Hoje massacraram nossas verdades, e enxergamos o abismo. Choraram juntos a mais temida das mortes. III O poeta sente o absurdo do tempo humano. O homem aquietará. E juntos, todos os ponteiros deixarão de ter sentido. É do homem, buscar refúgio nos dias. IV Nos escombros, na esquina antes sem luz, sentaram as crianças. Diante delas o poeta circundou com o dedo seu corpo na areia. Com um salto surpreendeu-as com a facilidade que superou o limite de sua prisão. O poeta percebe o momento exato do nascimento do sonho. Não se ruminam os sonhos. eles se costuram e crescem...
Céu de bombas
Não interrompa o cotidiano das serpentes elas não buscam nos homens seu veneno.
Por que choras por mim meu pai? Cumpri com o que me coube nessa Gaza de feras. Em cada criança morta, sacrificada, um objetivo insano. Despeço-me do dia sob flashs e bombas. Uma fome doentia molhou teu corpo com meu sangue. Estrelas dos profetas cruzaram os céus e pulverizaram os créditos de minha infância. A ambição de poder comeu meu destino. Com a força, roubaram-me o sorriso. Meu pai, nem sei perguntar por quê. Não tive tempo para me nutrir de ódio. Pensando bem pai, que às lágrimas partam. Transpareças a indignação em teu rosto nas telas indiferentes do Mundo. Sobretudo, crê pai, crê no triunfo do olhar de tua filha, fosco de morte, voltado para esse lindo céu, reluzente de bombas, nessa noite de um domingo de fúria.
PACÍFICO
Ser o vento desperdiçando a força  nas folhas mortas                             (Um passo, ou outra maneira                                              de deslizar na existência)    E ao saber o nome das pedras atiradas, demovê-las da urgência de sangue.

NÃO SE USAM MAIS PÉS PARADOS Não se usam mais pés parados. E o traço desfeito, o arrebol da estrada, o sentido de um bilhet...

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NÃO SE USAM MAIS PÉS PARADOS
Não se usam mais pés parados. E o traço desfeito, o arrebol da estrada, o sentido de um bilhete ao vento, são insultos, farsas. (A poesia rege as cordas despercebidas do Mundo; é a brisa incógnita sobre o Leviatã.) Cobramos por tudo, inclusive pelo silêncio dos mortos.

O que gela O que gela na madrugada a mão que contorna, na névoa densa, o círculo do Mundo? Assustada, a fala pe...

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O que gela
O que gela na madrugada a mão que contorna, na névoa densa, o círculo do Mundo? Assustada, a fala perde-se, alçada aos equívocos do Céu. E nela, a amada a pele, tardam os pelos rijos: orvalho e desespero. O que gela na madrugada é a corda rota, a derradeira gota de suor da morte interrompida. O que gela, e o amanhecer retarda: a paralisia da mandíbula, o couro macerado na fuga. Os livros
Os livros são meu celeiro de devaneios. Onde adormeço na dobradura do tempo pênsil -, no desfiladeiro de um cotidiano que nos semeia no nada. Os livros abraçam minha loucura atordoada pelo semblante de homens dignos, sóbrios e austeros, óbvios e dissonantes. Os livros me permitem compartilhar silêncios, dissolver urgências, contagiar os dias com angústias bem-vindas. Os livros me batem me chamam de homem e me despem, na cara, sádicos. Cronópio
Sou o fiel depositário de um torrão de açúcar. Guardei um tanto de giz entre as unhas (pó de palavras) e essa lasca de marfim do túmulo profanado dos paquidermes. Isso basta, na trégua precária, no gargalo desse vulcão que hiberna em estado de flor. Polvilho as relíquias, pois ignoro a espessura das trevas. O inverno é longo, o bastante para que a neve reaja a esses rudimentos de liberdade extinta. Haverá um tempo de degelo, águas e correntezas; de uma outra dimensão por detrás dessa moldura vazada. Caronte aguarda o sal da terra. Os demônios (e os cronópios) sempre souberam que para o sobrevivente a primeira qualidade do sonho é ser corruptível. Celebração
Rolam seixos, nuvens rasantes montes vazam da escuridão como uma promessa. antecipam os passos, Satélites tombam do céu em pane riscos rubros ao vento, incapazes de rastrear o corpo em transe, despido de sofrimento. (O disfarce da órbita é desviar-se do óbvio.) Latitudes e longitudes não reconhecem minha insignificância desapego. Encerraram-se as buscas e suas obtusas formalidades. Os cafés estão lotados, as ruas perversas distendidas, os corações famintos. Desço as encostas que permanecerão indiferentes; busco as cinzas contemporâneas e os cipós atlânticos. Do horizonte de um azul cambiante chega a esquadra de helicópteros de papel lançados do edifício antigo trazendo meus olhos. A serenidade possível, sem um deus, não está ao alcance dos eus idealizados, mas no sujeito cuspido e escarrado, despido de deslumbramento marcado. Tédio
Certa profundidade se demora nos olhos fechados. Sim, pesa o tempo, e cada pálpebra ressente o fulgor esquecido. O brilho repousa cada vez mais. - ontem - O nada é um cansaço que dá sono.

"Fosse o pó o essencial da escultura, a matéria valeria mais que a arte, e o vazio seria a verdade celebrada por todos". ≗ Jorg...

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"Fosse o pó o essencial da escultura, a matéria valeria mais que a arte, e o vazio seria a verdade celebrada por todos". ≗ Jorge Elias Neto "Assim, os sacrifícios, e os Sacrifícios do altar, e as esmolas de qualquer espécie, que são oferecidas para todos os mortos, para os muito bons, são ações de graças”. ≗ Santo Agostinho

Não sou eu quem me navega, Quem me navega é o mar. É ele quem me carrega Como nem fosse levar. Paulinho da Viola / Timoneiro Sou um poe...

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Não sou eu quem me navega, Quem me navega é o mar. É ele quem me carrega Como nem fosse levar.
Paulinho da Viola / Timoneiro Sou um poeta pretensioso. Meu desejo não é deixar registrado um poema. Quero que meu legado seja uma palavra.