Mostrando postagens com marcador Sandra Trombetta. Mostrar todas as postagens

Estupefata diante de nossa nova chegada a Marte, me detive nas inacreditáveis imagens do planeta vermelho. Ainda com os pequenos seres ve...

literatura paraibana astronomia marte imagens alta resolucao universo reflexoes vida morte auto ajuda
Estupefata diante de nossa nova chegada a Marte, me detive nas inacreditáveis imagens do planeta vermelho. Ainda com os pequenos seres verdes na memória, marcianos da fantasia humana, me deparei com a impactante realidade do vizinho orbe: um deserto de pedras e areia, de uma beleza atávica, imemorial, bem alinhado com os estranhos momentos que vivemos.

Nestes tempos de quarentena, além das dores, a espontânea expressão musical vem unindo o globo em torno do malfadado vírus. Em diversas for...

sandra trombetta musica na psicanalise

Nestes tempos de quarentena, além das dores, a espontânea expressão musical vem unindo o globo em torno do malfadado vírus. Em diversas formas e espaços, a nobre arte tornou-se fiel companheira na épica experiência que vivemos. Em seu conjunto, doença e música poderiam compor um filme de Quentin Tarantino, qual Django Livre, em que o conhecido diretor une cenas de atônito terror a belas e inusitadas melodias – retrato exato da pluralidade de sentimentos que nos assola.

A música daquele domingo... arrancou-me para o mundo do sonho
No pedaço do mundo onde habito não tem sido diferente. A partir das apresentações de um talentoso vizinho, que nos presenteou com o som de seu violino, a pracinha em frente ao meu edifício virou palco de generosas apresentações. Um palco estranho, é bem verdade, já que os ouvintes continuam entocados em suas varandas, dando a falsa impressão de que não existe plateia.

Em um domingo de abril foi a vez de uma cantora lírica, que, entre populares e clássicas, fez entoar Puccini através de sua melodiosa voz. Fui dormir adolescente, cantarolando Nessum Dorma em minha mente, e naquela noite não quis saber de notícias tristes ou estatísticas assustadoras. Acordei na madrugada ainda com um recanto de sossego dentro de mim, e lembrei que a música costuma ser definida como dois sons entre um silêncio. Um som contínuo, sem o intervalo do silêncio, será qualquer coisa como um barulho; mas não será música. E somente então percebi o quanto eu estivera mergulhada na busca incessante da informação, ou da compreensão, sem me permitir o precioso intervalo do sonhar e do silêncio.

A psicanálise nos ensina que o sonhar, aquele que produzimos quando estamos dormindo, mas também aquele que nos permitimos ao mergulhar numa bela canção ou num pequeno devaneio, é condição para que possamos mentalmente assimilar a realidade, modificando-a no que for possível, aceitando-a no que tiver de inexorável. Assim como na arte da música, o nosso pensamento produtivo precisa do intervalo do sonhar para acontecer. A realidade sem este intervalo também é apenas barulho, ficamos cegos de tanto vê-la, e por mais que a informação se acumule dentro de nós ela não se transformará em matéria para o aprendizado, para as decisões e escolhas que a vida nos impõem, para o crescimento.

A música daquele domingo, por sua beleza e inusitada inserção, ao modo de Tarantino, arrancou-me para o mundo do sonho amenizando-me o peso do vivido, restituindo-me o espaço do pensamento e permitindo, inclusive, que me debruçasse sobre o papel do computador para escrever estas linhas.

*Variações de uma psicanalista sobre a quarentena


Sandra Trombetta é psicanalista, membro da Sociedade Psicanalítica do Recife