Era uma vez, num reino muito distante, um Rei que estava com seríssimos problemas de caixa, decidiu convocar os Estados Gerais (clero, nobreza e povo) para encontrar meios de resolver a situação. Bondoso, concedeu ao povo, que representava 98% da população, o direito de ter mais deputados do que o clero e a nobreza. Com prudência, porém, o Parlament (o S.T.F. de lá) decidira que o voto seria tomado por Estado; ou seja, pouco importava o número maior de deputados porque ao final o clero teria um voto, a nobreza outro voto e o povo também teria um único voto.
Desta vez, não teve mais dúvida. O pequeno grupo de amigos mudava mesmo de assunto a cada ingresso seu no Pente de Ouro. À boca daquela noite, o silêncio também se fizera por alguns segundos no ambiente onde punha os pés com frequência idêntica à dos camaradas. A pausa instantânea no bate-papo que ali se travava e, imediatamente, as perguntas lançadas a esmo sobre um tema qualquer denunciavam, claramente, o desvio da conversa. Vinha percebendo isso há coisa de dois meses com incômodo crescente. Falavam mesmo de si.
Para nossos poucos conhecimentos sobre técnica de composição e linguística, a arte de traduzir parece ser uma das atividades literárias mais complexas. Escrever bem, já o é. Ainda que prazeroso, quando conta com a ajuda da inspiração — ferramenta capaz de fazer com que a imaginação e o conhecimento fluam à linguagem de forma tão pura e cristalina quanto a sinceridade de quem a escreve.
Basta a alusão. O prefeito não precisa apertar ainda mais seus olhos, escapulir das urgências, para entrar em forma com a meninada azul e branco da escola mais próxima, como fazia o antigo antecessor Oliveira Lima no tentame de incluir a muda de cássia entre os oitizeiros anosos do paço municipal, na praça Rio Branco. O tentame valeu: oito ou dez anos depois, quando Oliveira Lima se exilou ou foi exilado da política, a cidade-jardim, assim chamada por d. Alice Monteiro em poema de 1922, na Era Nova, seria reconsagrada como “cidade das acácias.” Debalde Lauro Xavier tentava explicar que não era acácia, e sim cássias as que saíram brotando fácil e aos milhares das mãos ou dos dedos verdes do dr. Luiz.
“Ce chien est à moi”, disaient ces pauvres enfants. “C’est là ma place au soleil”, Voilà le commencement et l’image de l’usurpation de toute la terre – Blaise Pascal.
Outro dia me encontrei numa praia de Pacífica recolhendo conchas, pedras miúdas, pedacinhos de corais. Enchia os bolsos, coletando fragmentos do mundo para pôr, secos e limpos, na janela que se abre para os verdes de um jardim que me acostumei a chamar de meu. E nada como o mar não cultivado para me pôr em estado de filosofia, descobrindo razões para pensar nas tolices despercebidas do meu cotidiano.
Quando setembro chegou, trouxe a esperança da Primavera. Uma Primavera solene com recados da natureza para recordar.
Olho a rua e observo nuvens conduzindo expectativas de bons tempos, em muitas direções. Sou um sujeito esperançoso. Espero mudanças que chegam com vento a açoitar as copas das árvores, a entrar pelas frinchas das janelas, com seus recados. Recados que há muito tempo procuro decifrar.
“Deus nos dá pessoas e coisas,
para aprendermos a alegria…
Depois, retoma coisas e pessoas
para ver se já somos capazes da alegria
sozinhos…
Essa… a alegria que ele quer”
– Guimarães Rosa
Véspera da eleição, pós pandemia, afastamento social, país delirante que busca a loucura, o non sense como o caminho, a fartura de mentiras, aliás o controle quase absoluto delas, a tentativa desesperada e suja de compor e vincular como projeto pessoal e de poucos para seus exclusivos benefícios, bem relativos, que acasala política e religião.
21 de SetembroDia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência
A inclusão socioeducacional de crianças e jovens com deficiência se constitui numa das grandes problemáticas a ser enfrentada na sociedade atual. Ao longo da história da humanidade, pessoas com deficiência - notadamente no Brasil - sofreram com as práticas excludentes, tornando-se vítimas de discriminação, o que reflete uma prática corrente na sociedade e nos relacionamentos humanos, fruto da relação de poder e de subalternidade que envolve as classes e os grupos sociais. Apesar de terem sido publicados alguns trabalhos sobre a temática, ainda assim persiste a necessidade de estudos para dar conta da complexidade da mesma.
A psicologia funcionalista interessa-se em pesquisar como o cérebro humano funciona, também quando se trata na adaptação do organismo ao seu ambiente. Nesse sistema, os funcionalistas estudam a mente como um acúmulo de processos que levam a consequências práticas no mundo real. Um dos filósofos e psicólogos norte-americanos que massificava essa corrente psicológica era William James (1842-1910), que dissertava uma relação entre psicologia e religião. Esse tema está analisado em seu livro
Adentro, com pés trocados, este novo livro de José Augusto Carvalho. Faço isto, ao molde dos indígenas da suposta “cipango”, que trocaram o sentido dos seus calçados, para confundir os portugueses que percorreram o Brasil em busca da prata andina, pelo o famoso caminho das antas (Peabirú). Mas, entrar em um livro de linguística com os “pés trocados”, é algo que cabe a um subversivo, a um poeta, algo sempre repisado pelo professor José Augusto Carvalho, em suas conversas com os poetas que o circundaram ao longo da vida.
Edeltrudes reaparece depois de um sumiço de meses. Para quem não sabe, esse é o nome que dei à minha lagartixa de estimação. Durante noites ela cruzou a parede do escritório e ficou me olhando com aquele ar ancestral próprio das lagartixas. Isso aconteceu tantas vezes, que se estabeleceu entre nós uma familiaridade silenciosa, feita de contemplação e mudo espanto.
O mais belo dos arcanjos mostrou o risco da valorização da beleza ao se tornar um ser que insistiu com a ideia do eu, em detrimento do nós, desenvolvendo assim a vaidade pela primeira vez. O nome dele é Lúcifer. Ao se olhar no espelho, achou-se bonito e, como portador da Luz, sentiu-se mais bonito do que os outros. Percebendo-se individuado, quebrou o ritmo da criação, que havia sido concebida como nós.
Gosto sempre de lembrar das coisas positivas que vivi por onde passei. Na direção de A União (1981 – 1982), relembro uma atitude do editor Agnaldo Almeida que demonstra toda sua criatividade e competência profissional.
Políbio Alves não precisa de nenhum título acadêmico para ser quem é. Ele já possui o mais belo e importante dos títulos: ele é poeta, simplesmente poeta, e não necessita ser mais nada nesta vida – nem em outra que venha a haver. Poeta. E aqui não vou entrar em minúcias de crítico literário — que não sou. Não vou afirmar isso ou aquilo sobre sua poesia, sua obra poética, porque de qualquer modo ele é poeta — e isto basta. Pelo menos, para mim.
Foi o escritor norte-americano T. S. Eliot que a descreveu como “o ponto mais alto que a poesia já alcançou e jamais conseguirá alcançar”. Narrada em primeira pessoa e estruturada em cem cantos divididos em três cânticos com 33 cantos cada um (inferno, purgatório e paraíso), além de um cântico de abertura, A Divina Comédia, de Dante Alighieri, é um marco para a língua italiana moderna, utilizando dialetos e coloquialismos do vernáculo toscano e desafiando as convenções do latim tradicional da Idade Média.