Estou com saudade do amigo Joe. Esse camarada só tem um defeito: quase não fala português. O pouco que aprendeu da “última flor do Lác...

O amigo Joe

amizade, migracao, brasil, cultura, saudade, encontros
Estou com saudade do amigo Joe. Esse camarada só tem um defeito: quase não fala português. O pouco que aprendeu da “última flor do Lácio” deve-se ao casamento com Iracema, no tempo em que as Iracemas muito voavam para a América, como na canção de Chico. Casamento de conveniência, digamos assim. Ela precisava do green card e, ele, daquela morena de cintura fina e riso largo. Os dois tiveram um namorico em João Pessoa quando Joe por aqui pôs os pés pela primeira vez.
amizade, migracao, brasil, cultura, saudade, encontros
GD'Art
Numa de suas raras férias, desceu no Rio de Janeiro, onde soube do sol e das praias nordestinas. E para cá rumou.

Encontraram-se numa Tambaú ensolarada, ambos a caminho da água mansa e morna. Ele, numa daquelas bermudas com flores do Havaí. Ela, num biquini de tirar fôlego e juízo. Em menos de uma semana, Joe estava de volta à sua terra e ao seu trabalho. Mas mantiveram correspondência.

Não muito tempo depois, em visita à Disneylândia, Iracema abandonou o grupo com quem estava valendo-se, para tanto, da ajuda de uma antiga colega do Liceu Paraibano que por lá já vivia e em cuja casa ficou até ganhar o suficiente para o aluguel de um apartamentinho. Fazia ali o que não fazia na casa materna: varrer, lavar, esfregar, polir, deixar tudo limpinho, com o pagamento em dólar disposto ao trabalho clandestino e, assim, inferior ao recebido por quem já tinha a situação migratória regularizada. Mesmo assim, deu para comprar um carrinho indispensável à locomoção de bairro em bairro.

amizade, migracao, brasil, cultura, saudade, encontros
GD'Art
O que não andava bem era o aprendizado do inglês, razão da sua mudança, até porque a Flórida, onde se fala espanhol em cada esquina, não é o melhor ambiente para isso. Aprender um idioma é empreitada de curta duração quando você não tem outra alternativa, a não ser praticá-lo.

Mas, a não ser por alguns inconvenientes, o medo da polícia entre eles, as coisas iam relativamente bem. E, então, aconteceu a colisão com o carro de uma americana que desfalecera ao volante. Apavorada, apanhou
amizade, migracao, brasil, cultura, saudade, encontros
GD'Art
os documentos pessoais e do seu veículo, desaparecendo, prontamente, dali.

Logo após isso, Joe recebeu um telefonema dela. “Corra para cá”, orientou-a, provavelmente, com a alma em festa. E nossa heroína atravessou o País no rumo de Michigan, na beirada do Canadá, onde a neve estava pela cintura. Foi quando, pela primeira vez, se sentiu nos Estados Unidos. O casamento, em cerimônia simples e sem convidados, a não ser as testemunhas, dava-se em poucos dias.

Preciso contar que aquela aliança funcionou, legal e emocionalmente. Acho que o amor é filho da necessidade e da carência. Não tiveram filhos, a não ser “Farofa”, o cãozinho por quem morreriam, se preciso fosse.

Conheci Joe, na fazenda da minha sogra, em sua terceira visita à Paraíba e logo gostei dele. Risonho, curioso, conversador, esforçava-se ao ponto da exaustão para ser entendido. Tinha pouco conhecimento do nosso idioma, em virtude da união com Iracema, afilhada da dona da casa.

amizade, migracao, brasil, cultura, saudade, encontros
GD'Art
“Mas isso não é uma família. É uma população”, comentou às gargalhadas, ao saber que a matriarca tinha 16 filhos, 45 netos e 28 bisnetos. Muitos deles estavam naquela recepção. Foi o primeiro dos seus grandes choques culturais. O segundo foi saber que um café da manhã pode conter carne assada, cuscuz de milho, inhame, macaxeira, manteiga e queijo caseiros, leite recém-saído das tetas de vacas e frutas das quais teve prévio conhecimento, em razão das saudades que, vez ou outra, entristeciam Iracema.

“Isso é um paraíso”, comentou. Já tinha consigo a convicção de que o Brasil possui uma das melhores culinárias do mundo. As refeições de beira de estrada, em restaurantes simples do tipo self-service, a ele já dava essa impressão. Aprendeu, aqui, que o almoço sempre deve ir além dos sanduiches, exige cadeira e mesa e intervalo de duas horas antes da retomada do expediente em escritórios, fábricas, ou lojas.

Com a participação de Iracema, que ambos tomamos por tradutora, eu o fiz ver que integramos a lista das dez maiores economias do planeta e que nossa grande desgraça está
amizade, migracao, brasil, cultura, saudade, encontros
GD'Art
na concentração de renda e na consequente prevalência das desigualdades sociais. Ele me respondeu que o sonho americano ficou nos anos de 1950.

Falamos de música, de literatura e de filmes. Surpreendentemente, tínhamos opiniões em comum acerca de várias obras e autores. Como eu, ele adorava “American Graffiti”, “Radio Days” e “Summer of’42”. Fernando Meirelles, o brasileiro que levou o “Cidade Deus” para o mundo, com quatro indicações ao Oscar, era, a seu ver, um dos melhores diretores do cinema, em escala mundial.

Não acho que ele tenha gostado menos das conversas rasas. Ria de orelha a orelha com o tom das discussões do futebol, sem entender muito da coisa. A exemplo de alguns ocupantes da mesa, passou a tratar por “pistoleiro” o Johnnie Walker, selo preto, servido na ocasião. Mas logo o trocou pela aguardente “51”, quando a teve por perto. No dia seguinte, com a festa acabada e a casa mais vazia, eu a ele apresentei uma cachaça brejeira honestíssima, presente do amigo Germano Toscano, com quem visitei um alambique de Guarabira. Nosso Joe experimentou aquilo com estalos de língua. Dois litros. Um ele deveria levar para sua Michigan.

amizade, migracao, brasil, cultura, saudade, encontros
GD'Art
Deveria, mas a garrafa foi esvaziada, ali mesmo, com o auxílio luxuoso de um concunhado que tomava suas doses num ritmo que, prudentemente, eu e Joe não ousávamos acompanhar. Fui o primeiro a abandonar aquela varanda em busca de uma cama. Até hoje eu me pergunto em que idioma aqueles dois travaram uma conversa de quase três horas, ao que me foi dito, sem que um falasse a língua do outro.

É uma citação do saudoso Millôr Fernandes que agora me vem à mente: “Nunca vi uma guerra iniciada por um monte de bêbados”. Tem absoluta razão o genial Millôr: as guerras são coisa dos homens de bem.

COMENTÁRIOS

leia também

Postagens mais visitadas