Desde muito cedo concebi o trabalho como o meio supremo de realização humana. Nunca coonestei a ociosidade que, na minha concepção, é a fon...

O ódio e o ócio

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Desde muito cedo concebi o trabalho como o meio supremo de realização humana. Nunca coonestei a ociosidade que, na minha concepção, é a fonte de todas as degenerescências. Não acredito que alguém possa crescer na preguiça, justificada pela falta de iniciativa que faz tudo certo para dar errado.

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É que o tempo é inclemente com a indolência. Tudo na vida podemos recuperar; menos o tempo. Recuperamos dinheiro perdido, amor e, na maioria das vezes, a saúde. Agora, tempo perdido...

Duvido, ao se tirar a sorte grande, numa loteria da vida, fazer o ontem voltar a ser hoje, ou antecipar o amanhã.

Não acredito que falte trabalho, mas iniciativa. A terrificante pandemia que vem assolando o mundo catalisou no Brasil a concepção da flexibilização do trabalho, através das tecnologias interativas. No entanto, isso não é novidade, haja vista que qualquer aluno de graduação em Sociologia, em meados da década de 80 passada, estudava que se estava entrando em um novo modo de produção.

A Covid-19 é o tiro de misericórdia na concepção anacrônica do trabalho formal patrocinado pelo Estado que, mesmo com salários aviltantes ou generosos para alguns, dava argumento para se falar do Governo, ou seja, culpar alguém pela própria incapacidade. É que novas relações de trabalho rebentaram abrindo novas oportunidades nas esferas do e-commerce e do comércio exterior, por exemplo.

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As novas relações trabalhistas exigem iniciativa e são refratárias a qualquer privilégio gerador de vitimismo ou coitadismo, que muitas vezes induzem à preguiça, ao conformismo, à falta de autoestima e, via de consequência, ao ódio dos ressentidos. Paternalismo exacerbado mata o idealismo, catalisa a depressão, a ansiedade e produz castração psicológica.

Por outro lado, o tecnicismo exacerbado e alienante redunda no individualismo egoísta e na falta de solidariedade. Tem gente que se orgulha de ter 5 mil seguidores numa rede social. Quero saber se entre estes, oito irão segurar o caixão. É a supina ironia da valorização da exterioridade do aparente, efêmero e fantasioso, em detrimento da interioridade que trucida a consciência com o encontro consigo mesmo. Um forte lutador de artes marciais pode, facilmente, vencer um idoso leigo. Quero ver é este vencer a si próprio, superando as limitações e pulsões advinda da dor chamada vida.

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É aí que se vê que a redenção ou a condenação está dentro de si mesmo, pois somos juiz, promotor e advogado de nós mesmos. Disso ninguém foge. Daí hoje a valorização tão grande da administração das emoções ou educação dos sentimentos. O ócio impede a máxima socrática de se conhecer a si mesmo e, assim sendo, estimula o ódio vitimista que procura no próximo a causa da infelicidade de uma vida transmutada num repositório de recalques e frustrações.

É semelhante à velha fábula da cobra e do vagalume, num universo onde o réptil procura a qualquer preço devorar o inseto. Este, revoltado, indaga:

— Você está com fome? Por acaso faço parte da sua cadeia alimentar?

A serpente ressentida e invejosa argumenta:

— Não! Ocorre que você brilha!


Josinaldo Malaquias é pós-doutor em direito, doutor em sociologia e jornalista
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  1. Muito obrigado,Professora Alaurinda e parabéns pela belíssima foto na coluna do Abelardo, hoje (8.7.20).
    Obrigado, Margareth, abraços em você e no Amado Mestre).
    Muitíssimo obrigado doutora Ana Lúcia Pinho.
    Grande abraço, grande Pacelli.
    Nobre acadêmico e imortal Milton Marques, agradeço os seus comentários e, genuflexo, aguardo suas críticas.

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