Estou cansado. Chega uma hora em que a gente cansa, cansa de agradar, de fazer e de sorrir. Porque nada motiva a sorrir. E só se deixa de s...

O preço da solidão

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Estou cansado. Chega uma hora em que a gente cansa, cansa de agradar, de fazer e de sorrir. Porque nada motiva a sorrir. E só se deixa de sorrir em duas situações, ou quando o corpo está enfermo ou quando se é esquecido.

Estou no Riacho Seco, estou sozinho. Parei para descansar um pouco, para estirar as pernas, pensar na vida. Esse lugar está situado nos limites das terras que me pertenciam.

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Hoje não tenho mais nada, reparti tudo com meus filhos, os netos e alguns sobrinhos. Dei tudo a eles, a fazenda de muitos hectares, as culturas, o gado, as benfeitorias; restou-me a casa onde moro. Também restou esse pequeno quinhão, o Riacho Seco, que também doei, mas é como se ainda me pertencesse.

Aqui é o único lugar onde a solidão não pode me encontrar.

Quando comprei essa terra, água aqui só existia no inverno. Depois que a seca levantava, era só areia outra vez. Juntei uns homens, represei um trecho, a natureza fez o resto. Quando o gado estava sofrido, a comida escassa, a vazante do Riacho Seco era a salvação.

Em minha volta vejo um sol poente, intenso, com sua luz a inundar as frondosas algarobas. São troncos fortes e grossos que refletem no espelho d´água. Meu cavalo come a rama verde. Ouço o chocalho de algumas reses entocadas no mato próximo. Mais adiante há uma casa, humilde como as pessoas que estão lá dentro; acima vê-se a chaminé com a fumaça a dizer que está próximo o jantar. A mulher sai à porta, pega algumas roupas num varal, entra sem me ver.

Depois falarei sobre essa gente a quem devo muita gratidão. Mas antes permita-me contar minha história.

No dia 14 de agosto de 1963, exatamente duas semanas depois que minha mulher caiu nos fundos da nossa casa e quebrou o fêmur, passando com esse acontecido a viver sofrendo em cima de uma cama, minha vida mudou para sempre. Na verdade, tudo começou a mudar no instante em que a encontrei estirada e imóvel como a pedra onde ela tropeçou.

Se tudo abaixo do céu tem um tempo para começar e outro para mostrar seu fim, então eu imaginei que aquele início de agosto era a anunciação, santa ou não, bendita ou maldita, do nosso destino, meu e dela.

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Além das dores que sentia, sua expressão pressentia medo e angústia. Ela me olhou e eu vi em seus olhos molhados uma tristeza resignada, de quem se entrega à vontade do destino. E era mais angústia do que medo, mais medo do que dores.

Eu gritei por Sebastião, nosso criado e homem de minha confiança. Ele veio e me ajudou a levar Alzira para o quarto, de onde só saiu duas vezes, a primeira para tomar um pouco de sol no jardim do oitão. Era mais para ver se as plantas estavam sendo bem cuidadas como recomendara a Aldenora, também nossa criada e mulher de Sebastião. Queria ver como estavam as roseiras, os botões-de-ouro, os antúrios e as outras flores. Tentamos novamente levá-la ao jardim na manhã seguinte, mas ela não conseguia nem se mexer, de tanta dor que sentia.

Era uma mulher forte, e sofria em silêncio. Mas a hemorragia e a febre aterrorizavam as madrugadas, e não demorou para os pulmões também ficarem comprometidos. Contudo, não lhe faltava amor e cuidado. Aldenora quase nunca deixava Alzira sozinha. Para diminuir o aspecto sombrio do quarto, a cama foi posta ao lado de uma das janelas. Assim, ela recebia ar puro, luz, um pouco de sol, podia ver alguns galhos da romãzeira e um pedaço de céu, para onde olhava quase o tempo todo. Penso que conversava com Deus.

E quem sou eu? Sou um cristão que sempre sentiu a dureza do chão. Vim de uma criação rude, e tive tudo para ser rude porque foi assim que me eduquei. E se tem um ditado que reza que o homem ensina o que aprende, então, por natureza, eu podia ter ensinado rudeza para meus filhos, já que é mais fácil ensinar o ódio, mesmo quando se tem amor. Mas não.

Dei a segurança que nunca tive do meu pai, o cuidado e o afeto que não conheci da minha mãe. Para ela, criar já bastava, porque nem isso meu pai fazia. Vivia em mesa de jogo, varando a noite, perdendo e ganhando, e se revoltando quando perdia. Chegava em casa encharcado de bebida, sem dinheiro, possesso. Aos poucos deu fim a tudo, ao gado, às terras, à nossa dignidade. Sem dinheiro, passamos necessidade. Nossa mãe sofria, mas não deixava de lutar. Era uma luta diária, sem rumo, de sobrevivência.

E um dia perdeu a esperança. Então foi como se ela tivesse morrido, porque o ser humano é assim, só deixa de viver quando perde a esperança. Por isso, nos criar já era tudo para ela.

E depois de crescido, homem já feito, ganhei o mundo. Antes de sair, abracei minha mãe e prometi voltar. Perdi, errei, sofri. As derrotas não me desanimaram, apenas disseram que eu devia ajustar a direção, pois carregava comigo uma certeza, a de que as coisas iam dar certo um dia. E realmente deram certo.

Voltei. Tudo estava do mesmo jeito. Bati à porta. Ouve algum silêncio, depois escutei passos lentos se aproximado. Abriram a janela da frente, e devagarinho. Uma senhora de cabelos prateados, olhar triste, rosto enrugado me olhou, perguntou quem era. Minha mãe chorou quando me reconheceu.

Comprei casa na cidade, ela foi morar comigo, mas contra sua vontade. Vivera muitos anos daquele modo, naquele lugar. Não conhecia outra vida, outra realidade. Meu pai tinha morrido em consequência do álcool; os irmãos, ganhado o mundo, como eu. Restou uma criada, Aldenora, que também passou a residir em nossa casa. Minha mãe criou Aldenora, desde menina; quando envelheceu, ela cuidou da minha mãe, até o último momento, assim como fez com Alzira.

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A fazenda foi uma conquista de vida. Ali tudo foi erguido, pois quando cheguei só havia o descampado, a ventania de agosto, a sequidão de janeiro. Então fiz cercado, comprei bicho, represei tudo o que se podia juntar água. Depois que a casa ficou pronta, fui buscar Alzira na cidade. A gente se casou e veio embora, de lá mesmo da igreja. E vieram os filhos, um a um, e foram cinco, contando quatro homens e uma moça.

Mas voltemos a agosto, ao dia 14, a outra vez em que ela deixou o quarto. Foi quando a levamos para ser sepultada....

Era costume eu estar na cozinha todas as manhãs, bem cedo. Nunca faltava um bule no pé do braseiro do fogão. Tomava uma xícara de café forte, amargo, me encostava na porta que dava para o terreiro, e mirava no mundo lá fora.

Antes era admirando tudo em redor, depois era pensando na vida e no futuro, e no que vi nos olhos de Alzira, e em todas as coisas que me dissera.

Foi de manhãzinha. Ouvi uns passos chegando. E não eram só passos, era um choro padecido.

- Dona Alzira... – disse Aldenora num tom mudo. E não disse mais nada porque a boca trêmula engoliu o resto das palavras junto com as lágrimas que lhe escorriam dos olhos estreitos.

Em seu leito de morte Alzira me falou: “ Você vai dividir tudo em vida. Serão treze semanas de agrados e aprazimento. Depois que entregar tudo, serão mais treze de desatenção. E seu desgosto será tanto que talvez morra antes das treze semanas seguintes. Porque assim será!”

Fiquei tão impressionado com sua anunciação que, duas noites depois, ela tentou abrandar as palavras, já com a voz muito fraca: “ Acalme-se, homem... A velhice e a solidão são o ninho do medo, mas você nunca teve medo de nada. Se fracassar, recomece!”

Alzira morreu sem os cuidados da família.

Só de pensar ver aquele ser definhando sem ter quase nada a fazer para conter a agonia que atormentava as noites longas, foi a pior coisa da minha vida. Na verdade só não foi pior do que as decepções que vieram depois da sua morte, e que somente agora decidi contar.



Acabado o almoço, chamei dois dos meus filhos, e lhes disse que ia dividir tudo em vida. Marquei a data da reunião para treze semanas depois.

- Daqui a treze semanas, pai? Se o senhor vai fazer, por que não faz logo hoje ou amanhã? – acercou-me, apressado, um deles, sem entender o motivo da data. O outro, o mais velho, como não era de falar, franziu a testa e estreitou as sobrancelhas, fazendo a mesma pergunta para si.

Apesar de não ter uma resposta nem mesmo para mim, eu sabia que aquilo seria o correto. Ademais, a experiência chega com os anos. Na mocidade se erra muito, mas na velhice a gente só tropeça com as pernas. Eu fui direto e resoluto:

- Porque eu quero que seja daqui a treze semanas. – E não disse mais nada.

Antes mesmo do anoitecer a família inteira já tinha tomado conhecimento da minha vontade de fazer o testamento, e que a partilha ia ser em vida, e em breve.

- Mas em breve como? Daqui a treze semanas é muito tempo!! – reclamou um neto.

- Quase meio ano – protestou, exagerando uma das noras.

Na manhã seguinte, muito cedo, um outro filho chegou em minha casa.

Do curral, onde eu estava com Sebastião, meu ajudante e vaqueiro, o vi subir os degraus do alpendre. Avisado onde poderia me encontrar, veio em minha direção. Me abraçou, tomou a benção, falou com o vaqueiro e nos ajudou com o trato e a ordenha dos animais.

- O gado está bonito, pai – falou elogioso e empolgado. E perguntou se eu já tinha tomado café. Como lhe disse que ainda não, ele respondeu:

- Que bom, pai. Porque vim para lhe fazer companhia. Vim passar o dia por aqui.

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E durante o café ele avisou que sua mulher e os filhos estavam chegando e que também ficariam na fazenda por todo o dia. Demonstrei alegria com a surpresa da visita, e lhe disse:

- Meu filho, para um velho que vive sozinho, desde o tempo em que sua mãe morreu, e que sozinho senta à mesa para comer, ter a companhia de um filho na refeição - e no meio da semana - é uma boa notícia. Digo no meio da semana porque você e os outros costumam aparecer só nos fins de semana. E ainda mais sua família, que não é muito chegada a mato e a bicho, e só aparece vez ou outra... Vou pedir a Sebastião para matar um capão.

Quando terminou o café, tive uma grata surpresa. Meu filho foi lá fora e voltou com uma bela sela. A minha estava surrada já tinha muito tempo, e havia lhe encomendado uma sela nova. Mas ele sempre se valia de alguma desculpa, e assim minha encomenda ia ficando para depois.

- Como se pode ver, tem bom acabamento e é muito confortável. Quanto custou? – perguntei enquanto já me dirigia ao quarto para pegar o dinheiro e lhe pagar. Mas ele recusou o dinheiro.

- Não, não se preocupe com isso. É um presente.

A primeira semana revelou mais surpresas do que poderia eu esperar. Fui muito lembrado e assistido, e nada mais me faltou, desde a presença quase diária dos meus filhos, até os mimos que só tive mesmo de Alzira.

O tempo corria, as semanas passavam, aproximava-se a data da reunião. Os carinhos e agrados aumentavam. Meus filhos, dedicados e presentes, vinham à minha casa quase todos os dias. Os netos jamais foram tão cheios de afeto e obediência.

- Tome a benção a seu avô! – recomendava, a seus filhos, meu único genro.

As noras passaram a me trazer os biscoitos, doces e bolos que Alzira fazia e que eu muito apreciava.

Muitas vezes, estando eu no alpendre para um cochilo de alguns minutos, ou quando me sentava para estirar as pernas, surgia-me uma nora zelosa com uma xícara de café passado naquele instante e uma fatia de delicioso bolo.

Daí eu ficava a remoer a profecia desditosa e infeliz das treze semanas. Sabia que quando tudo entregasse, tudo perderia; restaria o abandono e a solidão. Pensava na mulher, no que me dissera: “ Acalme-se, homem, pois enquanto tiver valor essa gente vai gostar de você!”

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A fazenda valia muito, pois tinha de tudo: grandes porções de terra, muitas cabeças de gado, água, vazante, campo de algodão, dez motores de agave puxando fibra.

Mas essas coisas não importavam mais porque é chegado um tempo em que a gente cansa de lutar, de correr, de fugir. E porque se entende que não há necessidade para a pressa, e é quando as lembranças são mais fortes do que a esperança. Mas ficar velho não é motivo para deixar de sorrir; ser esquecido, sim. Ia me restar a solidão. E querendo ou não, ela me encontraria.

O tempo foi passando...

Sobre o significado das ‘’treze semanas’’, nem eu mesmo conseguia entender. Mas o próprio tempo cuidou de explicar:

“ Para minha família tanta demora causou ansiedade, espera e paciência; para mim, causou revolta, intolerância, clemência. Alzira entendera que seria o tempo certo para cada lado revelar o que havia em cada coração.”

Por fim, meu espírito benevolente, de pai e de cristão, criou o verniz para confiar nas aparências e acreditar num amor que poderia vencer a barreira dos dias futuros.

Veio a reunião.

Vi uns impacientes e ávidos, vi outros alegres e cobiçosos. Vi almas atentas como apóstolos rodeados por um Cristo em sua última ceia. Diante de todos e entre todos reparti, pedaço a pedaço, todo o meu corpo, o suor, o sangue, a história de uma vida cheia de entraves e de difíceis conquistas.

Embora visse, em alguns, sorriso nos lábios e veneno no coração, conduzi tudo com calma e autoridade. E quando dava por encerrado o encontro, com as discussões já superadas, e havendo contemplado a todos com generosos dotes, houve nova inquietação. A pergunta veio como um coro de lobos:

- E a casa?

Se não fossem as lições de Alzira, por Deus, confesso que tinha lhes entregado tudo, até minhas roupas de cama. A casa era a último bem que me restava, além do cavalo.

E batendo a mão sobre a mesa, fui ríspido:

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- Eu ainda estou vivo!

- E o Riacho Seco?

- Deixei para Aldenora.

- Aldenora? Vai dar uma das melhores propriedades a uma criada? O senhor enlouqueceu? – disse minha única filha. Sem engolir tanto atrevimento, reagi:

- Ela devotou sua vida à minha mãe, e a mãe de vocês também. Durante o tempo que ficou de cama, aqui vieram somente de visita. – Até esse minuto tinha eu mantido a calma e a complacência. E visivelmente irritado, concluí:

- A conversa está encerrada, a menos que volte atrás e prefiram discutir o testamento sobre minha sepultura.

Um mês após a divisão dos bens, as visitas foram se escasseando. As palavras de Alzira continuavam vivas em minha mente.

Bem, ela estava certa sobre a indiferença daqueles aos quais tudo ofereci. Eu realmente estava triste, desolado. Mas nunca fui homem de me entregar ou desistir.

“ Use sua sabedoria! “ - eu dizia. E não parava de pensar. Uma vez ouvi minha avó dizer que a verdadeira sabedoria estava nas coisas simples. E estava...

A decoração do alpendre, entre plantas e peças de madeira, incluía três potes de barro, de tamanhos diferentes. Olhei para o menor e pensei: “ Eu tenho um plano! “

Chamei Sebastião, homem da minha confiança. Mandei selar o cavalo. Deixei dito que, acaso um dos filhos surgisse, dissesse que saí para espairecer um pouco.

Peguei uma trilha pouco conhecida, que ia dar no Riacho Seco. Por esse caminho ninguém me veria. Tendo feito uma légua em ritmo de chouto baixo, cheguei à sede das terras do Coronel Pedro Justino. Na mocidade, quando ganhei o mundo, estava eu numa festa de apartação. O homem se envolveu num conflito, e foi surpreendido. Tomei a peixeira do indivíduo que ia lhe acertar as costas, morte certa. Desse dia em diante ficamos próximos, amigos, ele agradecido até o último dia de vida.

O Coronel me abraçou, mandou servir café, sentamos para conversar. Foi conversa rápida. Saí de lá com um saco de dinheiro. No caminho de volta fiquei pensando em sua história. Não era diferente da minha.

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No início da tarde chegou em minha casa um dos meus filhos - o que me presenteou a sela; vinha acompanhado dos seus filhos, dois rapazotes, quase da mesma idade. Passado um tempo o pai saiu para olhar um gado; os dois armaram uma rede no alpendre. O sol e o mormaço davam medo até em quem era da lida. Imagine àqueles dois... Coragem não tinham, muito menos algum jeito para tocar o que agora lhes pertencia.

Mas alguma coisa estava errada. Comecei a pensar. ‘’ Se não gostam da vida no campo, então por que vieram, e ainda mais debaixo de sol ardente? ‘’ Conhecendo minha nora, imaginei que tivesse mandado os dois para fuçarem a casa. Se era isso, então tinham chegado em boa hora.

Mandei lhes servir um lanche e fui para meu quarto. Deixei a porta entreaberta e espalhei o saco de dinheiro sobre a cama. Comecei a contar as notas. Percebi quando os dois passaram para a cozinha e quando voltaram minutos depois. Então peguei a conversar sozinho, em tom baixo, mas que desse para ser ouvido. Me aproximei da janela. No meu quarto tinha duas e ambas davam para o alpendre. Quando vi, pelas frestas, que alguém me espreitava, dei início ao meu plano:

“ – Mais uma botija pronta. Vou enterrar junto com as outras. Agora são cinco! Para cada filho, uma. E a mais valiosa - a que tem o dobro do tamanho - vou presentear a quem mais merecimento tiver! ”

No dia seguinte, cedinho, mandei selar o cavalo. Botei o saco de dinheiro entre as pernas, peguei a trilha rumo à casa do Coronel. Entreguei tudo de volta. E lhe falei:

- Amigo Pedro Justino, se acha que me devia favor, hoje pagou tudo.

- Mas nada lhe dei, homem! O que levou num dia, trouxe no outro.

- Atenção vale mais do que dinheiro. Pelo menos não terminarei meus dias desassistido e abandonado. Esse é o preço da solidão!

Subi no cavalo, o Coronel me olhou com uns olhos fundos, miúdos, umedecidos, e disse:

- Uma grande lição. Bem... anunciar que tenho botijas por aí acho que vai me fazer bem !

Estou mesmo cansado... Mas ainda não me entreguei, e nem penso em desistir, pelo menos por enquanto. O Riacho Seco é um lugar de paz, de graça e generosidade.

Olho para o alto, agradeço.

As nuvens ganharam tons de laranja, encheram a tarde de beleza e calma. Eu continuo a pensar na vida...


Como disse no início, aqui é o único lugar onde a solidão não pode me encontrar.

Algumas pessoas surgem na frente da casa. Vejo Aldenora, um rapaz e duas crianças; parecem felizes. São seus filhos; e todos me têm muita atenção e carinho.

Vejo uma pequena área plantada, uma porteira e uma cerca de avelós que limita o Riacho Seco. Do outro lado ficam as terras dos herdeiros do coronel Pedro Justino...

Termino minha história entendendo que a existência é um livro, cada página um desafio, para cada desafio uma solução. Podemos aprender coisas complicadas no início, coisas simples mais adiante. Sobre a confiança, posso dizer:

“ A sabedoria está na dúvida. Quando a gente é moço confia demais, por isso se erra demais. O moço confia mais no homem do que em Deus; o velho mais em Deus do que no homem. Porque Deus é fiel, nunca nos abandona. E a gente só vem entender essas coisas com os tropeços, as decepções e o correr da vida e do tempo. “

* História baseada em fatos reais.


Célio Furtado é artista plástico e cronista
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  1. O que tenho a dizer... É que esse carinho de voces, leitores, é o alimento da inspiração de quem escreve. Afinal, escrevemos para voces!

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