Aqui no Nordeste não temos as estações bem definidas. Popularmente temos o verão, com o sol, e o inverno com o tempo das chuvas. Muitas veze...

Chuva de verão

Aqui no Nordeste não temos as estações bem definidas. Popularmente temos o verão, com o sol, e o inverno com o tempo das chuvas. Muitas vezes o que anuncia a mudança de estação são as chuvas do caju, da manga, da jabuticaba, e logo entendemos que o “verão” está chegando.

Mesmo sendo apenas o início da Primavera, no calendário, já vem com sol intenso, calor, bom de praia. E nesse período, é quando o vento muda e limpa a cor do mar. Chuva, só essas fininhas, geralmente no início do dia, ou quando o sol está bem forte, no final da manhã.

Pesagro
Como é chuva passageira, vem logo aquele pensamento: “chuva e sol, casamento do rouxinol“. Ou o outro: "chuva, casamento de viúva". E eu, viúva que sou, nem ligo, gosto mesmo é do cheiro suave de terra molhada.

Quando eu era pequena e acontecia uma chuva dessa, com o calor da terra, meu avô-painho dizia: “vem para dentro de casa para não pegar essa quentura da terra que dá gripe”. E eu ia brincar no terraço sentindo ainda o cheiro bom do solo molhado. Lembro sempre dele e dessa sensação agradável.

Que prazer sentir o cheiro da chuva que anuncia as frutas de que gosto tanto, mesmo que hoje elas estejam à venda quase o ano todo. O caju, a manga, o sapoti, a pinha, a jaca, o araçá, e outras que são melhores para suco como cajá e mangaba, embora essa seja uma delícia também para comer colhida na hora, madurinha, um sabor dos deuses. Sem falar no umbu, na ciriguela e na rainha de todas - a jaboticaba! - que quando pegávamos uma porção grande, vinha o alerta: "cuidado para não engolir o caroço, ficar empanzinada e ter indigestão".

Emater
Essas coisas que ouvia quando era criança trazem uma lembrança doce e alegre. Outros dizeres, ou mitos, só fui entender depois de crescida. Como ouvir dizer que manga com leite ofende. Isso vem do tempo da escravidão, quando os senhores falavam para que os escravos não tomassem o leite, pois era só para os da casa grande. Para a senzala, os restos É triste pensar sobre isso em um país com tanta fartura...

O mais curioso é que a internet hoje está cheia dos especialistas abordando essa questão, falando dos nutrientes da manga e do leite, e que não faz mal nenhum ingeri-los juntos. Nem mesmo à noite.

Gilberto Santa Rosa
Também havia a advertência: “pinha de noite faz mal”. Parece que vinha de uma história lá no sertão, sobre um compadre que teve uma congestão e morreu depois de comer pinha à noite. São explicações para as mortes trágicas, que hoje bem se explicam com todas as doenças crônicas que passamos a ter desde muito cedo. Não por comer frutas com leite, ou à noite, mas por comorbidades associadas à obesidade, condição que nossa sociedade adquiriu ao longo dos anos.

Ainda havia o temor das comidas reimosas, como peixe de carne escura, sem escamas, e comidas que “pioram as inflamações", como macaxeira.

Mas hoje, com essa chuvinha que caiu de manhã, volto a memória para as frutas. Uma delas me chamou muito a atenção, certa vez, em Florianópolis: o araçá, que eu só conhecia o da praia, um arbusto nativo, cheio de frutinhas pequenas e deliciosas com leve gosto de goiaba. Lá me deparei com árvores grandes, lindas, cheias de um araçá diferente, que há em toda parte, nas praças e nas margens das lagoas.

DocePolpa
A publicação Alimentos Regionais Brasileiros, do Ministério da Saúde, reeditada e atualizada em 2015, é uma verdadeira enciclopédia com nossas frutas, hortaliças, leguminosas, tubérculos, cereais, ervas, receitas e suas curiosidades. Lendo-a pude confirmar que são vários os tipos de araçá. Branco, rosa, cinzento, araçá do mato, da praia e do campo. Lá encontrei tantas outras frutas e curiosidades, como a que o umbu é uma palavra de origem tupi-guarani e que significa “árvore que dá de beber”, que Euclides da Cunha chamou de “árvore sagrada do sertão”.

O mesmo espanto tive com a carambola. Aqui quase todo quintal tinha carambola. Dava para pegar fácil, seus frutos maduros. Já lá em Goiás, vi árvores grandes com uns oito metros de altura, carregadas de carambolas, um esplendor.

Hoje não há mais essa diferença entre frutas da época, pois a maioria dá o ano inteiro. E não têm o mesmo sabor. Falta-lhes a espera da fruta, na sua época. Mesmo assim, continuo com minha memória afetiva quando sinto o cheiro da flor do caju, nas caminhadas no parque aqui perto de casa. Esse prazer de comer a fruta no pé é diferente, especial. As goiabas, os araçás e cajus nativos davam facilmente nos terrenos arenosos baldios, perto da praia.

Joegoauk Goa
Colhíamos as castanhas do caju para assar numa lata de leite, em fogo feito no quintal, com tijolos e galhos secos. Uma aventura com dedos queimados e cheios de fuligem, mas nada que o banho de mar não curasse. Era só pegar muito “jacaré”, com as ondas remexidas, que enchiam os cabelos de sargaço e areia, e tudo passava… Como era bom ser criança nos verões praianos... Quanta liberdade.

Tudo tinha uma beleza que poderia passar até despercebida. Os cajus eram vendidos amarrados, um a um, com uma linha fininha feita com palha de coqueiro. Era a corda de cajus, que o vendedor trazia todos amarrados em cada ponta de uma vara, apoiada no ombro, como se fossem dois balaios. Podíamos escolher sem amassar nenhum. Puro sabor e poesia. Quanta sabedoria tem o homem simples, seja do campo ou da cidade. Mas com a chegada do plástico e do isopor, essas soluções tão ecológicas e criativas se perderam no tempo. E o lixo das nossas casas, cada vez mais se enchem de entulhos sem solução. Lixo que polui nossos rios e principalmente nossos mares. Precisamos voltar a ter mais poesia e menos plásticos. Menos lixo sem solução.


Rejane Vieira é graduada em comunicação e mestra em saúde pública
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  1. Parabéns, Jane, pela bela crônica, memória afetiva que nos remete a um tempo que já não existe mais, de ótimas lembranças! 👏🏼👏🏼😍😘

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