Antigamente, eu criança, papai me levava para correr nas alamedas da Praça Venâncio Neiva (primeiro presidente republicano da Paraíba)....

Pavilhão do Chá

ambiente de leitura carlos romero cronica conto poesia narrativa pauta cultural literatura paraibana jose leite guerra pavilhao do cha centro historico joao pessoa praca venancio neiva saudosismo infancia
Antigamente, eu criança, papai me levava para correr nas alamedas da Praça Venâncio Neiva (primeiro presidente republicano da Paraíba). O coreto charmoso, onde, em noites dominicais, a banda da Polícia Militar soprava seus dobrados e outros ritmos. Ao centro, o lindo Pavilhão do Chá que me parecia, na fantasia infantil, um carrossel sem cavalinhos e parado. O Pavilhão não servia a bebida que lhe emprestava o nome. Curioso.

A radiola movida a tilintar de moedas: vez por outra, alguém ia lá e inseria um níquel redondo e o long-play caía para a agulha extrair as vozes de cantores e cantoras de sucesso, na época. Foi lá que escutei, pela primeira vez, Cauby Peixoto interpretando “O Rouxinol”. Voz esplêndida. Muitos levavam a família para gostosa reunião. Se havia, não garanto, prostitutas rondando pelos entornos, menino ingênuo, não despertava.

Além de achar o Pavilhão do Chá parecido com um carrossel imóvel, se dizia que lá dentro morava um leão fugido da Bica. Ficava eu temeroso pela fera enjaulada naquele lugar de pasto e bebidas. Chamava-o Palácio do Leão. Quando estivemos, pelo Natal, em São Luís, Maranhão, quando me disseram que a sede do Governo do Estado tinha o mesmo nome, apenas mudando a declinação para Leões (Palácio dos Leões), veio-me à recordação o cognome que atribuí ao Pavilhão de nossa cidade. Decerto o menino se buliu nas minhas entranhas.

Tardes de passeios inesquecíveis, noites de casais recostados nas amuradas, o som da banda executando peças maravilhosas, grupos a conversar amenidades. Quando meu pai saía do lanche a que me referi antes, já estava organizado o “senadinho”. Começava a conversa sempre sobre política. Havia divergências. Chico Belmiro, com o pescoço de peru, exaltado defendia com ardor seu candidato.

Eu, alheio, fitava o Pavilhão do Chá, que nunca deu um giro. O assunto deles era tratado numa linguagem que me parecia estrangeira... Eu corria em derredor do pavilhão.


José Leite Guerra é bacharel em direito, poeta e cronista
COMPARTILHE
comente via facebook
COMENTE

leia também