A gente de origem urbana não sabe nem nunca saberá quão valioso é o privilégio de se conseguir e chegar a possuir, saindo da parede de no...

A torneira, essa maravilha

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A gente de origem urbana não sabe nem nunca saberá quão valioso é o privilégio de se conseguir e chegar a possuir, saindo da parede de nossa casa, uma torneira qualquer de metal ou de plástico.

Entrando com um assunto destes em hora de tamanha agonia e sofrimento de todos os povos da terra, não estarei livre de passar por demente. E não é para menos, a julgar pelo cabedal cada vez mais inumerável e infindo de conquistas e descobertas a bem da saúde e do conforto dos povos gerais, mesmo os pobres de hoje.

É que, sentindo a água jorrar como vem jorrando fácil, há anos, em minhas mãos, particularmente pouco mudou, para mim, daquele jorro de quase setenta e seis anos atrás, quando senti esse conforto pela primeira vez, ao entrar no internato do Pio XI. Mais precisamente em fevereiro de 1945. Pela primeira vez banhava as mãos, o rosto caboclo, os cabelos curumins sem recorrer à cuia, ao caneco, à jarra por encher do meu sítio e de quase todos os sítios do brejo de ontem e ainda de hoje.

O coronel José Rufino de Almeida, senhor de engenho de terras avizinhadas à nossa, descreve num opúsculo famoso em que trava polêmica com o diretor da Escola de Agronomia, em “O Século” de Areia, as condições de desconforto das casas-grandes que só tinham de grande o nome. Ele defendia o plantio e fomento da agave em substituição ao fabrico penoso da rapadura, amofinada pelos preços, pelo imposto, em triste decadência. De fato, além da onda, a agave era mais social.

Na nossa casa de alpendres para a secagem do fumo, do feijão e encosto de cangaços, o único luxo era com a pequena capela, sempre ornamentada, a padroeira, N. S. das Vitórias com um trancelim de ouro a cingir-lhe os pés. A sala dividia a largura com meia dúzia de cadeiras de recosto almofadado e um caixão entufado de farinha para cem ou mais cuias de dez litros à espera da demanda. O luxo resumia-se na rede de algodão e na cama de couro. O café era torrado e pilado em casa, o pão de milho também e a higiene era na cuia, as necessidades no urinol, este um privilégio de mulher. Homem saía fora com a cabeça protegida para não apanhar um ramo na frieza das noites.

O filtro de barro vim conhecer, vendido o engenho, quando nos mudamos para a cidade. Nem mesmo já morando na rua pude gozar o delicioso privilégio da torneira. O luxo era a bacia em suporte próprio, o jarro ao lado e a toalha no cabide. Isto quando as coisas eram bem arrumadas. Na casa paroquial era assim, mas o banho atrás de casa, separado do sanitário com jarra ou tanque sempre a depender do botador d água. A água vinda sem trato da Cacimba da Caridade. Aquele prazer ou gozo do primeiro jorro de chuveiro no banheiro coletivo do colégio não foi ledice de menino. Nunca envelheceu. Nem mesmo na carreira de agora para o banheiro pressionado pela peste que insiste em acabar com o mundo.

Por mais sôfrego, o corpo pouco ajudando, a pele sem qualquer viço, a torneira que abro ainda é a de 1945. Fecho os olhos para banhá-los e o jorro se mistura com as vozes do recreio. O colégio de pé, a fábrica ao lado ainda apitando. Um frescor que banha muito além da pele e do calor destes nossos dias de magras esperanças.

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  1. Parabéns mestre〽️〽️〽️〽️〽️〽️〽️
    Gonzaga Rodrigues👏👏👏👏👏Também passei por essa "avançada" tecnologia da TORNEIRA... Foi um avançar na higiene e eteceteraetal.Hoje damos conta desta "invenção" histórica/ tecnologica.. que adicionou aos arquitetos e engenheiros...assim acrescento com meu proprio depoimento acompanhado ..possivelmente por Germano Romero além de editor desse "Ambiente Literário" é um emérito Arquiteto.

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    1. vale registrar meu esquecimento de assinar esse comentário.
      Paulo Roberto Rocha

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