No período quaresmal, os preceitos da Igreja rigorosamente obedecidos. Quarta-feira de cinzas, recebíamos traços da cruz na testa: “Lembra...

Quaresma da infância

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No período quaresmal, os preceitos da Igreja rigorosamente obedecidos. Quarta-feira de cinzas, recebíamos traços da cruz na testa: “Lembra-te de que és pó, e em pó te haverás de tornar”. Alguns, ainda bêbados, entravam no templo, faziam persignações inconscientes.

A sentença dita pelo frade franciscano impressionava: os participantes da missa ficavam cabisbaixos, pensativos, temendo e meditando sobre os chamados “Novíssimos”, hoje atualizados por um linguajar mais ameno que exalta a conversão e a adesão ao Evangelho.
A palavrinha miúda e forte foi riscada, definitivamente, não afirmo com certeza se pós-Vaticano II. Em casa, o jejum rigoroso: peixe pouco, nada de carne sufocada, bredo. Nenhuma sobremesa, muito menos doce em lata. Eu pecava, ao desejar o doce de goiaba em calda feito por mamãe e as tias.

As imagens de santos cobertas em pano roxo. Da cabeça aos pés. Na Semana Santa, as exigências se tornavam maiores. Não era permitida qualquer brincadeira. Quarta de Trevas, Quinta do Lava-pés, Sexta Santa ou Maior, Sábado de Aleluia, Domingo de Páscoa. Guardava-se uma experiência de fé exageradamente litúrgica, de preceitos, de medos e mistérios. Por exemplo, “procuravam” a “aleluia” como quem procura o Santo Graal. A lavadeira dizia, convicta, que se a “aleluia” não fosse encontrada aconteceria o fim do mundo previsto nas Escrituras. A “aleluia” personalizada pela crendice. Diziam ser um livro misterioso e retido ao domínio exclusivo do clero.

A Quaresma da minha infância e de meus contemporâneos era um período de silêncio no mundo. Como se a terra parasse de girar.

Gostava do Domingo de Páscoa: as janelas se abriam. E anjos sorriam, cantando a Aleluia encontrada. Tirava o atrasado no doce açucarado. Voltávamos a ser espontâneos. E Jesus a sorrir, livre, brincando de esconde-esconde conosco, no quintal repleto de goiabeiras.

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