No romance policial, psicológico e filosófico de minha autoria, O Silêncio das Sombras , Petrus Hammer é um investigador que busca soluc...

Um corpo que cai: jogos hitchcockianos

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No romance policial, psicológico e filosófico de minha autoria, O Silêncio das Sombras, Petrus Hammer é um investigador que busca solucionar o desaparecimento ou morte de uma garota – Milena. Ele não larga a foto da moça, que carrega dentro do bolso interno do blazer. Aos poucos, a investigação o toma por completo, e ele faz da foto que carrega consigo uma obsessão: ele procura a Milena real ou a que se insinua, em um olhar onírico, na fotografia?

Em Vertigo (Um corpo que cai, 1958), um homem que tem fobia de altura se apaixona por uma mulher que não existe. Depois, contudo, a verdadeira mulher, a de carne e osso, apaixona-se por ele. Aí começam os jogos desconcertantes de espelhos: o que é real?; o que é mera fantasia?;
ao tentar ser como a mulher que nunca existiu, a mulher estaria enganando o homem ou a si mesma?; o homem irá preferir a mulher sonhada à mulher real que tem em suas mãos?

Alfred Hitchcock (1899-1980) é um dos mestres, senão o maior da arte cinematográfica. Era o que verdadeiramente se podia chamar de um manipulador de imagens. Nas entrelinhas de sua linguagem aparentemente direta, infinitas situações/inquietações são experimentadas pelos espectadores. Ele sabia como ninguém insinuar com imagens (em detrimento dos diálogos) todo um turbilhão de sentimentos que perpassam os personagens. A mente humana e todas as suas distorções parecem ser o centro de boa parte da filmografia do diretor inglês. Em Vertigo, Hitchcock compõe sua obra suprema, no que tange à sua obsessão pela alma humana em todo o seu drama e desassossego.

Fraqueza mental, fetichismo, neurose, pesadelo, o mundo sobrenatural, medo, culpa, o desejo subversivo: nada escapa à sua lente inquietante. A película parece estar um pouco acima de filmes geniais como Festim Diabólico, Pacto Sinistro, Janela Indiscreta, Psicose, Os pássaros e tantas outras obras espetaculares de um homem por vezes controlador, que – alguns diziam – costumava tratar seus atores como gado. Obcecado por mulheres loiras – frias e distantes na maioria de suas obras -, Hitchcock chegou a ser acusado de um assédio sexual que durou anos, por Tippi Hedren, a sua musa loira de Os pássaros.

Tudo bem. Vamos dar a César o que é de César. Apesar de ser, sob meu ponto de vista, a obra primordial de Hitchcock e um dos maiores filmes de todos os tempos, com roteiro baseado no livro D’entre les morts, de Pierre Boileau e Thomas Narcejac, Vertigo tem falhas gritantes: a trama de mistério/suspense complexa e pouco factível confundiu muitos críticos e espectadores à época de seu lançamento, além de nos entregar um vilão com um plano meio fajuto de assassinato, quase improvável. Nada disso importa, entretanto. A verdade é que nos sentimos atraídos e magnetizados pela presença sedutora e estonteante de Madeleine/Judy Barton (Kim Novac) de uma forma quase tão obsessiva quanto Scottie, (um policial de São Francisco, Califórnia, brilhantemente interpretado por James Stewart), em seus devaneios aterradores.

Somos completamente sugados pelo universo de Hitchcock: um certo tom surreal presente em boa parte da película; a atmosfera constante de suspense; a alusão ao sobrenatural que Madeleine insinua na primeira parte do filme; a fotografia em tons de cinza-chumbo de Robert Burks; a trilha sonora mágica e impactante de Bernard Herrmann (podemos ouvi-la em alto e extasiante som, na clássica cena de abertura, logo abaixo deste pequeno ensaio).

Há momentos de fetiche intimidante no filme: Scottie manipula de forma quase doentia Judy, a fim de que ela se transfigure, através de um novo penteado e novas roupas, na Madeleine que ficou para trás. Acompanhamos tudo isso de um modo perscrutador, quase aterrorizados e, ao um só tempo, hipnotizados.

Imitado/homenageado à exaustão por outros diretores em outros filmes, principalmente Brian de Palma (Trágica obsessão, Dublê de corpo), Vertigo lançou mão de recursos inovadores para a época, vide o uso simultâneo de zoom in e zoom out para transmitir aos espectadores a vertigem de Scottie. Os filmes essenciais, visto que repletos de signos e significados, estão, a toda hora, pedindo releituras de gerações de cineastas posteriores a eles. Vertigo/Um copo que cai está nessa lista. O que se encontra no terreno mais abscôndito dentro de nós emerge da escuridão de maneira insólita e incômoda, através do olhar sinistro de Hitchcock. Perturbador ao extremo.


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